James Meredith, defensor dos direitos civis nos Estados
Unidos, esteve no Brasil de 17 a 26 de novembro.
Foi no ano de 2003 que Renato Moreira, jardineiro e auto-didata em inglês,
ao ler uma matéria no jornal Estado de São Paulo de agosto de
2002 sobre James Meredith, iniciou um contato e o trouxe ao Brasil, mais precisamente
em Atibaia. A partir de então, James começou a estudar o Brasil,
pois nos seus argumentos Renato Moreira dizia que ele poderia ajudar muito
aos negros do país. Ficou então firmado o compromisso do PAIC
Portal Afro Instituto Cultural de desenvolver um projeto para o seu retorno
ao Brasil.
Isso se realizou agora, em novembro, mês da Consciência Negra,
período em que James Meredith teve uma agenda intensa e variada, vindo
ao Brasil, a convite do PAIC e com o patrocínio do Consulado Geral
dos Estados Unidos em São Paulo.
Nos EUA as Ações Afirmativas começaram nas Forças
Armadas
Dentro deste projeto, James proferiu várias palestras, como no Mackenzie,
Fundação Getúlio Vargas, Banco Real Abnamro, e no seminário
internacional da Unipalmares.
Sua linha de argumentos foi focada em mostrar aos brasileiros sua história,
dizendo que nós pouco a conhecemos. Fez um paralelo entre o processo
de libertação dos escravos nos Estados Unidos em1865, e no Brasil,
em 1888. Lá, os negros ganharam direitos civis, enquanto no Brasil
isto não veio a ocorrer. Outro fato importante é que nos EUA
as ações afirmativas começaram por volta da segunda guerra
mundial, nas forças armadas, onde promoveram negros a cargos mais elevados,
como general, almirante e brigadeiro. Lá, os negros também ocuparam
espaço na representação parlamentar, além de perceberem
salários iguais aos brancos, justamente para tê-los como aliados
dentro do próprio país.
Supremacia Branca
James Meredith chocou a muitos com o seu conceito de supremacia branca. No
Brasil ouve-se falar em racismo e ele diz que “racismo é uma
questão emocional, mas na verdade vivemos sob o jugo da supremacia
branca” segundo sua declaração à Folha de São
Paulo, do dia 21 de novembro de 2005- matéria de Fabiano Maisonnave,
- “Americano diz que os luso-brasileiros foram os mais bem-sucedidos
em assegurar a supremacia branca” e o título da matéria
“Portugueses deram aula de racismo aos EUA, diz ativista”.
Nesta linha de pensamento ele argumenta que os luso-brasileiros mantiveram
invisível a questão do racismo por estes 4 séculos e
sabemos que após toda ilusão da democracia racial, apenas em
2001, em Durban, o governo brasileiro assumiu que existe racismo em nosso
país.
James Meredith, em sua estratégia para mobilizar o governo federal
contra o estado de Mississipi em 1962, teve como base a questão das
ações afirmativas que ele vivenciou nos seus nove anos na Força
Aérea Americana, possibilitando que dentro desta linha o presidente
John Kennedy comprasse a idéia de uma “guerra”contra o
domínio da supremacia branca do estado de Mississipi, enviando cerca
de 30 mil homens para garantir a matrícula de James na OLE Mississipi,
universidade que era só de brancos.
As suas ações não pararam por ai na “guerra”contra
a supremacia branca, pois em 1966 realizou a marcha contra o medo, convidando
e conscientizando os negros do Mississipi a se inscreverem para votar, e teve
a participação de vários ativistas afro-americanos, entre
eles Martin Luther King Jr.
Ainda traçando um paralelo das ações afirmativas nos
EUA, a implementação nas Forças Armadas foi estendida
para as empresas do governo, que passaram a exigir que seus fornecedores tivessem
ações afirmativas dentro de suas empresas.
Palestra no Banco Real
James palestrou no Banco Real ABNAmro, empresa focada em desenvolver questões
sobre a diversidade. Essa palestra fez parte da programação
da Semana de Consciência Negra do Banco.
Destaques das visitas
Quilombos Brotas, em Itatiba
Na visita ao Quilombo Brotas em Itatiba, o primeiro quilombo urbano a ser
reconhecido no Brasil, James disse que o quilombo é a ligação
do passado com o presente. Em um determinado momento de sua fala, reuniu as
crianças na frente do palanque e falou “vocês são
o futuro” e recomendou o estudo apurado da língua portuguesa.
Conheceu o solo sagrado, onde eram realizadas consultas espirituais, seguindo
a linha de umbanda. Foi recepcionado com quitutes, pelas quilombolas, na casa
mais antiga do local que tem projetos de se tornar um museu.
O evento teve apoio do vereador Ronaldo Herculano, Câmara Municipal
e da Prefeitura do Município de Itatiba.
Favela Santa Helena
James Meredith fez questão de visitar uma favela. Isso ocorreu no dia
26 de novembro, na Favela Santa Helena, nas proximidades da Vila Prudente,
com apoio da TV Cultura.
Cidade Tiradentes
Visitou a Cidade Tiradentes, na zona Leste de São Paulo, com cerca
de 400 mil habitantes e com concentração intensa de afrodescendentes.
Essa visita teve a coordenação do CONE (Coordenadoria do Negro
do Município de São Paulo). Participou de uma atividade denominada
de Sub-prefeitura Presente, uma espécie de governo itinerante do sub-
prefeito, “Arthurzinho”. Foi plantada uma árvore para inaugurar
uma praça na Cohab Sítio Conceição, com o nome
de James Meredith.
Visita ao Centro de Apoio ao Trabalho
A convite do Secretário de Trabalho do Município de São
Paulo, Gilmar Viana, James Meredith visitou o CAT de Interlagos. A agencia
de noticias da prefeitura noticiou:
“Acabar com a discriminação racial no mercado de trabalho
é um dos maiores desafios dos governantes brasileiros. A tese foi defendida
pelo ativista norte-americano James Meredith, de 72 anos, durante visita realizada
hoje à tarde (quinta-feira, dia 24 de novembro) ao Centro de Apoio
ao Trabalho (CAT) da Zona Sul, em Interlagos. O Brasil é um país
muito rico. No entanto, mais da metade da população não
tem oportunidade de ver um futuro profissional próspero. Temos de achar
uma maneira de educar, empregar as pessoas e evitar a discriminação",
discursou James Meredith.
Diante de uma platéia com mais de 100 pessoas, composta por atendentes
e funcionários do CAT, Gilmar Viana reafirmou o compromisso da atual
administração de implementar políticas públicas
de educação, geração de emprego e qualificação
profissional que ofereçam oportunidades iguais para todas as pessoas
independentemente de cor, sexo e idade.
"Os negros ainda sofrem muito, principalmente, no mercado de trabalho.
No Brasil, a discriminação racial começa na escola, na
comunidade e acaba refletindo no mercado de trabalho. Os negros são
os mais prejudicados com o desemprego e ainda ganham menos do que os brancos.
Isso precisa mudar", afirmou o secretário.
Inauguração da TV da Gente
No dia 20 de novembro, na inauguração da TV da Gente, TV de
Netinho de Paula, canal 50 UHF em São Paulo, comparou Netinho de Paula
a Martin Luther King, pelo momento histórico e determinação
do apresentador e cantor na democratização dos meios de comunicação.
Sua declaração foi emocionante e arrebatou lágrimas de
alguns dos presentes. Neste encontro conheceu o governador Geraldo Alckmin,
a vereadora Claudete Alves, o Secretário de Justiça, Hédio
Silva Jr.
Troféu Raça Negra
James Meredith recebeu o troféu menção especial do Prêmio
Raça Negra, evento realizado pela ONG Afrobrás. Destacamos alguns
homenageados, como, Ruth de Souza, Rappin Hood, Lázaro Ramos,Toni Tornado,
Glória Maria, Emílio Santiago, Cidade Negra, Alexandre Pires,
Beth Carvalho, Joyce Ribeiro, Mussunzinho, Netinho de Paula, Alcione, Isabel
Filardis, Valéria Valença, Thais Araújo, Jamelão
- que entoou o grito "liberdade ao negro" - e Geraldo Alckmin, Helio
de La Peña.
James observou que muitos homenageados se referiram a este prêmio, como
sendo o primeiro que eles recebiam. Notou e sentiu o pranto de Toni Tornado,
referente ao sofrimento de ser ator negro neste pais, quanto ao reconhecimento
e valorização.
James Meredith tem planos para estudar ainda mais o Brasil
e como ele citou na Folha de São Paulo: “A primeira coisa que
os brasileiros tem de entender é que a estrutura do poder branco tem
grande interesse em expandir sua cidadania, mas não sabe como”.












