JAMES MEREDITH ENTRE NÓS

* Antonio Lucio

“Jornalismo é distinguir o real do aparente”.
Luiz Alberto Bahia, 80 anos na arte de fazer com
que a realidade seja a veia verdadeira dos fatos,
no alto da sua brilhante experiência profissional.


Quando o meu presidente do Portal Afro Instituto Cultural, comunicou-me e aos demais conselheiros a intenção de trazer ao Brasil um dos ícones na luta pelos Direitos Civis nos Estados Unidos, James Meredith para um périplo junto às Universidades e a sociedade civil organizada para expor suas experiências adquiridas ao longo dos anos, desde sua célebre entrada como aluno, sob proteção de forças federais, na Universidade do Mississipi da nação americana, não titubeei um só minuto para manifestar o apoio e arregaçar as mangas para que sua presença em nosso país no mês da Consciência Negra fosse, como foi uma realidade.

Voltei no tempo, retornando até o dia do assassinato de John Fittzgerald Kennedy, em 1963, quando na tarde daquele dia no Salão Nobre da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, o negro deputado estadual Esmeraldo Tarquínio, então o único no parlamento paulista, juntamente com os deputados Paulo Planet Buarque, César Arruda Castanho, José Lurtz Sabiá, Camilo Aschar e o presidente Cyro Albuquerque conjeturaram sobre as conseqüências para o mundo e a comunidade negra norte-americana a partir do brutal episódio que ceifou a vida do líder democrata, quando uma voz ecoa ao longe com uma indagação: > “não teria sido um preto que assassinou o Presidente Kennedy?” Os olhares dos circunstantes se fixaram no deputado Esmeraldo que não vacilou um instante e de bate-pronto manifestou seu ponto de vista:> ”Absolutamente impossível, pois em nenhum recanto da terra de Abraham Lincoln, jamais, qualquer negro pegaria uma arma para executar fisicamente o homem que desde o princípio da luta contra a segregação racial sempre apoiou as manifestações contra o racismo e que determinou a ida de tropas federais para o Mississipi, para garantir o ingresso de um estudante negro, James Meredith, na racista Universidade daquele sulino Estado norte-americano”. Entre lágrimas emocionadas a conversa terminou ali.

Quando fui apresentado a James Meredith por Jader de Oliveira Nicolau Junior, em São Paulo no dia 17 de novembro último, emocionei-me e acompanhei atentamente na medida do possível seu périplo por diversos locais por onde passou, ouvindo as dissertações sobre sua luta pelos direitos civis, a supremacia branca nos EUA, o racismo, a implantação das Ações Afirmativas, Diversidade, política americana e os personagens negros americanos que estiveram no contexto destas últimas décadas como Martin Luther King, Stocklely Carmichel, Jesse Jackson, Clarence Thomas, Collin Poweel e Condelezza Rice, assim como suas flagrantes incoerências políticas na ótica de uma parcela dos irmãos negros americanos, quando se ligou e apoiou o ex-líder da racista e sulista seita Klu-Kux-Klan, David Duke como candidato a governador do Estado da Louisiana ou quando se associou ao deputado branco Jesse Helms, o mais poderoso adversário da elite liberal americana. O advogado James Meredith chegou ao nosso país com o apoio do Consulado-Geral dos Estados Unidos em São Paulo, que destacou Adida de Impresa, Jennifer Bullock e a Assessora Cultural Maria Estela Segatto Correa para acompanhá-lo em seu périplo pela programação desenvolvida pelo Portal Afro Instituto Cultural, com uma sede natural de se aprofundar em alguns assuntos brasileiros, afirmando categoricamente ser impossível comparar a questão racial nos EUA e no Brasil, deixando entre outras a mensagem de que > “a primeira coisa que os brasileiros tem que entender é que a estrutura do poder branco tem grande interesse em expandir a cidadania, mas não sabe como” e falou sobre a efetiva e necessária implantação de políticas para a superação do câncer que é o racismo, para as platéia reunidas para ouvi-lo a partir da primeira reunida para recebê-lo na cidade brasileira que conheceu em 2003, Atibaia, graças a determinação de Renato Moreira, que conhecendo o líder através de um noticiário observou na foto em que James estava nos EUA, o número de um telefone e fez o contato para poder conhecê-lo, fazendo com que o mesmo viesse ao Brasil.

Emocionado James Meredith retornou a Atibaia neste périplo, onde reencontrou Renato, e foi recebido na residência de Dévorah e Jader Nicolau Jr. Foi palestrante no Seminário Internacional, Diversidade Racial Corporativa e Ações Afirmativas, realizado no SESC-Paulista por iniciativa da Afrobrás – Sociedade Brasileira de Desenvolvimento Sócio Cultural, comandada por José Vicente.
Debateu com estudante, o corpo docente da Universidade Mackenzie e integrantes do Afromack, idéias e experiências vividas pela sociedade negra americana, reafirmando a importância da inclusão do negro brasileiro no processo de desenvolvimento do país.

Na Fundação Getúlio Vargas participou ao lado de Edna Roland, do 11º Evento Fórum Empresarial – Sustentabilidade e Responsabilidade Corporativa: um passo adiante, ouvindo considerações sobre o tema: A difícil arte de valorizar a Diversidade, defendido pelo professor Sérgio Esteves, pessoa que disse-me James na saída, impressionou-o por suas considerações sobre o tema e especialmente quando pronunciou a frase: > “pessoas não são comoditties, são pessoas”, bem aplicada no contexto de sua explanação.

Na sede do Banco Real, falou a para uma platéia vivamente interessada em conhecer seus conhecimentos e mostrou-se satisfeito em saber que é uma instituição preocupada em promover constantemente a diversidade dos seus quadro funcionais.

James disse-me ter se sentido profundamente gratificado com as oportunidades em que pode desfrutar do convívio mais próximo dos irmãos negros brasileiros a partir dos instante em que visitou um Quilombo na cidade de Itatiba, participou de reuniões com os membros do Cone – órgão da prefeitura paulistana -, da solenidade de inauguração da nossa TV DA GENTE, ocasião em conheceu Netinho de Paula e os demais convidados do evento, afirmando que a inauguração de uma empresa na área de comunicação como a televisão comandada por negros que tem o sentimento da realidade da nossa ração é o passo inicial importante para que sejamos visualizados com respeito, como acontece nos EUA.

Ressaltou que o evento da Afrobrás, entrega do Troféu Raça Negra, do qual participou, para personalidades que valorizam e participam do processo de valorização do negro nos diversos segmentos da sociedade é fundamental para que sejamos reconhecidos dentro do processo de desenvolvimento de um país.

No agape realizado pelo CEERT tomou conhecimento das atividades da entidade e ficou extremamente emocionado com as premiações recebidas em reconhecimento aos trabalhos desenvolvidos em prol da afirmação do negro na sociedade brasileira.

Em conversa que mantivemos na sede da Qualiafro/Proempe, fez questão de sequenciar na oportunidade, conversas que ocorreram em vários intervalos de seu périplo por São Paulo, em que inquiria-me sobre alguns aspectos da política brasileira em relação a raça negra, políticos negros, com a curiosidade natural, pois em seus leituras e estudos sobre o Brasil, pouco ou quase nada ficou sabendo sobre os temas. Falei sobre a política brasileira e políticos negros que a mídia em sua imensa maioria faz questão de arquivar ou que seu mérito não seja lembrado, como a figura exponencial de Nelson Carneiro, deputado federal representante de dois estados brasileiros, senador da República, o único negro efetivamente eleito por seus pares para ser presidente efetivo do Senado por dois anos, batalhador por décadas, na luta que se tornou vitoriosa para a instituição do Divórcio no Brasil.
Lembrei o episódio de 1963, quando da morte do Presidente Kennedy e da lembrança do seu nome pelo ex-deputado estadual paulista Esmeraldo Tarquínio, bem como sobre a importância política para a comunidade negra e para o processo político brasileiro do empresário e ex-deputado federal Adalberto Camargo, segundo James, pelo que tomou conhecimento através de leitura e com quem teve oportunidade de conversar pessoalmente, “um desbravador”. Ouviu atentamente e anotou nomes dos personagens destacados como o da professora, ex-vereadora paulistana e ex-deputada estadual Theodosina Ribeiro, ministras Marina Silva e Matilde Ribeiro, com quem esteve pessoalmente e conversou sobre a política de Igualdade Racial durante a visita que fez ao Museu Afro Brasil, comandado por Emanoel Araújo. Suprendeu-se com a existência de juristas negras nas Altas Cortes do país, como Joaquim Barbosa Gomes, no STF e Carlos Alberto Reis de Paula, no TST, além do jurisconsulto Hédio Silva Junior, Secretário da Justiça e Cidadania do Estado de São Paulo, a quem teve a oportunidade de cumprimentar e conversar pessoalmente.
Perguntou-me sobre Alceu Collares, sobre quem ouviu referências nos EUA, ex-prefeito de Porto Alegre e ex-governador do Estado do Rio Grande do Sul, o Dr. Negrão, eleito 5 vezes deputado federal. Fez questão de ouvir referências sobre a mulher negra ex-favelada Benedita da Silva, primeiramente desejando saber algo sobre sua religiosidade e atuação política, ouvindo-me atentamente discorrer sobre seu primeiro mandato política como vereadora carioca, deputada federal constituinte, reeleita para a mesma casa do Congresso, sua eleição como Senadora, vice-governadora e ocupante do cargo como dirigente máxima do Estado do Rio de Janeiro, “é uma predestinada, uma enviada de Deus.”

Circunstanciei a ele sobre a participação política e importância do atual vereador paulistano Agnaldo Timóteo, ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro, como o político responsável direto pela eleição do ex-governador do Rio, Leonel de Moura Brizola; do ex-governador Albuino Azeredo, do Espírito Santo e do governador João Alves, de Sergipe, que novamente ocupa o cargo; do jornalista e ex-deputado Carlos Alberto “CAÓ”, do ex-deputado e atual senador Paulo Paim, dos deputados federais Reginaldo Germano, Luiz Alberto Silva Santos, Vicente Paulo da Silva e Eduardo Valverde; do ex-prefeito paulistano Celso Pitta, a quem James conheceu pessoalmente ao lado do deputado estadual paulista Tiãozinho do PT, na inauguração da TV DA GENTE.

Uma das maiores alegrias de sua visita ao Brasil, segundo James Meredith, foi ter conhecido, como era de sua vontade, a Favela de Vila Prudente e o conglomerado habitacional de Cidade Tiradentes, em um
périplo de mais de 7 horas, onde foi recebido pelo sub-Prefeito Arthur Xavier e teve a oportunidade de participar ao lado do mesmo da experiência que a administração comandada pelo negro Xavier adotou no sentido de descentralizar o atendimento a população da área da jurisdição da Cidade Tiradentes, visando facilitar o acesso junto ao órgão público, identificando demandas e dentro das possibilidades solucionar os problemas locais, permitindo a melhoria da qualidade de vida dos seus moradores. James que passou um dia naquele conglomerado habitacional, observou atentamente o atendimento aos moradores que é realizado permanentemente, como o do Trailer Odontológico, serviços de saúde como a Ação Executiva sobre doenças transmissíveis e outros voltados para os diversos setores integrados da administração municipal e estadual. Presenteado com uma bolsa artesanal, por dona Ira Silva, para ser levada para dona Judy Meredith, confeccionada com lacres de lata de cervejas pelas pessoas assistidas por uma entidade do Conjunto Prestes Maia, James foi as lágrimas e agradeceu o presente que seria entregue a sua esposa.

Inaugurou um logradouro público com seu nome a “Praça James Meredith”, onde plantou uma árvore e que marcará para sempre sua passagem por Cidade Tiradentes, onde conheceu as obras assistenciais desenvolvidas pela Ação Comunitária Tiradentes, comandada pela batalhadora mulher negra Maria da Graça dos Reis, a dona Graça, que lhe ofereceu na sede da instituição um almoço com pratos da autentica cozinha brasileira, Galinha Caipira, com Angu, Arroz e Couve e uma Feijoada dos Deuses. Ao cair da tarde retornando ao seu hotel para um merecido descanso, se despediu e conheceu a Casa da Cultura, antiga residência de escravos, localizada
no marco de Entrada da Cidade Tiradentes.

James Meredith, em sua despedida foi homenageado pelo Portal Afro Instituto Cultural com um jantar oferecido na sede da Comunidade Bahai em São Paulo, sua parceira neste evento.

Chegando ao seu Mississipi, James sem dúvida alguma ficará inquieto para voltar ao Brasil, por sua vontade.

Temos muito a agradecer a todos os parceiros como patrocínio e apoio do Consulado-Geral dos Estados Unidos em São Paulo, como o NUPE – Núcleo Negro da UNESP de Pesquisa e Extensão, ARCAB – Associação Recreativa Cultural Afro-Brasileira, Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado de São Paulo, Grupo Zama, QUALIAFRO – Assessoria Empresarial em Recursos Humanos Étnicos e os participantes de todos os eventos em que James Meredith teve a oportunidade de estar presente.

Da direita para esquerda,Antonio Lucio, Dévorah Nicolau, James Meredith, Jader Nicolau Jr e Maria Estela Correa
Durante entrevista concedida à Folha de São Paulo
Seminário Internacional da Unipalmares
Junto aos integrantes da AfroMack no Mackenzie
Palestra na FGV
Visita ao Quilombo Brotas em Itatiba
Cidade Tiradentes
Com a ministra Matilde Ribeiro no Museu Afro Brasil

matéria Folha de S. Paulo

Coquetel Consulado

Quilombo Brotas

Favela Sta. Helena

Cidade Tiradentes

Mackenzie

FGV

visita ao Cone

Secretaria do Trabalho

Palestra no Banco Real