James Meredith volta ao Brasil para participar de atividades voltadas para os direitos humanos
Texto - Luiz Gonzaga Neto
O Portal Afro Instituto Cultural marca as comemorações do Mês da Consciência Negra em 2005 com a visita de James Meredith, o primeiro negro norte-americano a ingressar em uma instituição de ensino superior no sul dos EUA, a OLE Universidade do Mississipi, em 1962. O episódio ganhou ampla repercussão internacional devido à interferência pessoal do então presidente John Kennedy.
A visita conta com o patrocínio do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo. A agenda do ativista dos direitos humanos no país se desenvolve entre os dias 17 e 25 de novembro. Os compromissos incluem seminário promovido pela UniPalmares, contatos com a mídia, palestras em universidades (FGV e Mackenzie), e empresas (IBM e Banco Real) em São Paulo, além de visita a instituições da periferia e a uma comunidade quilombola, em Itatiba.
2005 é o Ano Nacional de Promoção da Igualdade Racial. James Meredith é considerado um símbolo da luta contra a segregação racial no sul da nação americana, que deu origem à Lei dos Direitos Civis.
Ele esteve no Brasil em 2003
James Meredith esteve no Brasil pela primeira vez em 2003, com sua esposa, Judy Meredith, mais especificamente na cidade de Atibaia (SP). Ele veio por conta própria, sem nenhum aparato, a convite de um jovem autodidata nos estudos de inglês, Renato Moreira.
“Li a história dele através de um artigo em jornal e observei que, na foto em que ele aparecia, tinha um número de telefone na fachada do local onde estava. Não tive dúvidas. Liguei para parabenizá-lo e conhecer mais a sua história”, disse Renato à jornalista Adriana Leclerc, que entrevistou Meredith para a revista Perfil.
Em Atibaia, recebeu homenagem da Prefeitura da cidade. O prefeito Beto Trícoli e sua assessoria conversaram sobre as raízes negras da cidade e região. Ainda em 2003, Meredith também visitou São Paulo rapidamente e retornou para seu país.
Veja a história do ativista

Em 10 de outubro de 1962, o primeiro estudante negro americano entrava na Universidade do Mississipi. Num sul rural e racista, foi necessária a presença de 30 mil militares para controlar os confrontos que terminaram com duas mortes.

Depois de 40 anos, a universidade comemorou a data convidando o então estudante James Meredith, para um jantar em sua homenagem, tendo inaugurado um monumento no local dos distúrbios.

Meredith, com um impecável terno escuro entrou no campus da "Ole Miss" protegido pelas forças federais enviadas pelo próprio presidente John F. Kennedy.
O seu olhar decidido transformou-se num dos símbolos da luta contra a segregação racial no sul dos Estados Unidos. Na noite anterior, uma multidão furiosa cercou o prédio onde Meredith se encontrava, arremessando pedras e tijolos contra as forças policiais e queimando carros. A polícia reagiu com bombas de gás lacrimogêneo. Duas pessoas morreram, entre elas o correspondente da AFP Paul Guihard, e centenas ficaram feridas. Curiosamente, James Meredith passou bem a noite. "Nunca tive insônias", disse ao Washington Post.

Na época, Meredith era um ex-piloto da força aérea, de 29 anos, que conseguiu ser aceito na universidade por não ter mencionado a cor da sua pele. Quando a direção da universidade descobriu a verdade, a sua admissão foi negada.

Depois de meses de batalha judicial, um tribunal federal ordenou, em setembro de 1962, que o jovem fosse autorizado a inscrever-se, já que em 1954 o Supremo Tribunal dos EUA havia decidido que a segregação nas faculdades era ilegal.

O presidente Kennedy, após vários dias de negociações infrutíferas com o governador do estado do Mississipi, crítico feroz da integração racial, ordenou o envio de tropas federais para escoltar o estudante no seu primeiro dia na universidade.

Martin Luther King Jr, fala aos participantes da Marcha
Meredith se arrasta gritando de dor na Highway 51
James Meredith fala em Jackson, Mississipi, no final da Marcha
Racismo ainda existe, mas batalha foi importante

A entrada de James Meredith na Universidade de Mississipi ficou conhecida como a Batalha de Oxford, a cidade onde está a escola, marco na história do ódio racial mas também de sua superação nos Estados Unidos.
Veja a entrevista de Meredith à jornalista Adriana Leclerc:

AL: Como o sr. analisa o racismo nos Estados Unidos de 1962 até hoje?
JM: O racismo ainda existe, mas a batalha de Oxford foi importante para uma quebra na segregação que existia. Havia as escolas dos negros e as em que só entravam os brancos. Hoje, o Estado de Mississipi é o melhor lugar para se viver, no que diz respeito a relacionamento entre negros e brancos.

AL: E o racismo no Brasil?
JM: Estudo a comunidade negra do Brasil há anos. Acredito que a escravidão foi importante no sentido de que a sociedade teve que aprender com o erro. Mas o racismo é um fato. Os portugueses construíram essa nação, mas cabe a esse povo que hoje vive aqui, fazê-la crescer. E o melhor desse povo é que não se pode identificar quem é branco e quem é negro. Há uma grande mistura e isso que é a força desta nação.

Visita a quilombo é um dos pontos altos da programação

Entre contatos, palestras e eventos, James Meredith terá na visita a um quilombo brasileiro, no dia 19 de novembro, um dos pontos altos da programação, organizada pelo Portal Afro.

O Quilombo Brotas fica na área rural de Itatiba, a 89 km de São Paulo.

Em outubro de 2003, Isabel Murray publicou artigo na BBC News sobre o quilombo. O Brasil tem 743 quilombos reconhecidos oficialmente mas estima-se que este número esteja próximo das 2.000 comunidades.

“Meus ancestrais eram escravos alforriados”, contou Paulo Sérgio Marciano, um dos membros do quilombo de Itatiba. Por volta de 1850, esses ancestrais venderam tudo o que tinham, incluindo produtos agrícolas e animais, e compraram a propriedade onde está o quilombo.
“Hoje, oito gerações depois, a maioria dos residentes do quilombo tem origem na mistura de raças. Mas nossa maior prioridade é a recuperação de nossas tradições, da conexão entre Brasil e África”, afirmou Paulo Sérgio à BBC News.

A servidão foi varrida do país pela 13ª Emenda, aprovada em dezembro de 1865.
Em 1875, dez anos após a morte de Lincoln (assassinado por um sulista) foi aprovada uma Declaração de Direitos que impedia a discriminação. Esta conquista foi em parte pelo próprio engajamento dos negros na guerra. Por pressão de Frederick Douglas, um ex-escravo, notável militante abolicionista e primeiro assessor negro da presidência americana, Lincoln concordou em convocar os negros. Cento e sessenta e seis regimentos negros formaram-se ao longo do conflito, alistando um total de 178.975 homens, dos quais 68 mil morreram. Depois da grande matança, tudo indicava que os ex-escravos seriam gradualmente assimilados à sociedade norte-americana, tornando-se cidadãos como os demais.

Rosa Parks
Cem anos depois da 14ª Emenda ter sido aprovada, dando cidadania aos negros, em Montgomery, Alabama, uma costureira negra chamada Rosa Parks, tomada de um impulso, negou-se, num ônibus, a sair do lugar assinalado aos brancos. A policia a levou presa acusada de “desordem” por infringir as leis segregacionistas locais. Era o dia 1º de dezembro de 1955. Imediatamente, ativistas dos direitos civis trataram de organizar um boicote contra os serviços de transporte urbano da cidade. Escolheram o reverendo Martin Luther King Jr. para liderá-los.
Uma nova e vigorosa liderança negra nascia para romper definitivamente com o Compromisso de Atlanta. De nada serviu a abdicação da luta pela igualdade social nem seguir apenas a “educação industriosa” recomendada por Booker T. Washington. Nos anos 60, eles compunham 10,5% da população, quase 22 milhões de negros, mas o número de pobres e marginalizados entre eles era superior a qualquer outra comunidade étnica americana.
As boas universidades, em sua maioria, continuavam fechadas a eles, pois não tinham dinheiro nem os pré-requisitos para freqüentá-las. Suas escolas eram pobres com professores desestimulados pelos baixos salários. Ao tentarem, no Sul, ingressar nos colégios de 2º grau, foi preciso mobilizar tropas federais, como ocorreu em Little Rock, no Arkansas, em 1957. O mesmo repetindo-se com James Meredith ao pleitear estudar na Universidade do Mississipi.

Ações pelos direitos humanos nos Estados Unidos
(algumas citações tiradas da internet)
Entrada do Quilombo Brotas em Itatiba-SP

James no gabinete do prefeito de Atibaia Beto Tricolli junto com sua esposa Judy Meredith

O segundo da direita para esquerda é Renato Moreira junto aos membros do executivo, James, Judy e Jader do Portal Afro
fotos do Quilombo Brotas-Jader Nicolau Jr. - nov 05

AL: Por que a visita a Atibaia?
JM: Estive em vários países da África, da Europa e até no Japão. Mas confesso que vim para o Brasil para conhecer esse meu amigo (Renato), que desde o primeiro instante me convidou para conhecer as maravilhas deste país.

Uma mensagem para a comunidade negra:
Quero mandar uma mensagem para todos – brancos e negros. Nós não temos de seguir o mesmo caminho que nossos antecessores. Libertar-se do preconceito é a chave para o crescimento.

matéria Folha de S. Paulo

Leia matéria especial de Antonio Lucio

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