Cybercity 2003 - Cidade Digital e Sociedade
em Rede 24/10/2003 Na opinião de Zancheti,
ciberespaço é uma construção social ainda sem configuração definida 23/10/2003
Da Redação
Coordenador do Cybercity acredita que as tecnologias
devem estar a serviço dos interesses da sociedade
"Toda a tecnologia
e investimento de infra-estrutura precisam estar a serviço dos interesses
e necessidades da sociedade. É a tecnologia social"...
Aveiro em Portugal oferece serviços online para
população e é bom exemplo de cidade digital
Incorporar processos
tradicionais às novas tecnologias a fim de conquistar ações inovadoras e melhorias
para a população. Esse é o desafio a ser superado pela sociedade apresentado...
A atuação conjunta entre governo,
universidades e empresas pode favorecer as comunidades
"Sociedade do Conhecimento e Ciberespaço", apresentou exemplos de como governo,
universidades e empresas privadas vêm se utilizando da tecnologia para promover
o desenvolvimento...
Rodrigo Firmino avalia que não há
como separar a cidade tradicional da digital
"A emergência das cidades digitais na Europa: estratégias de desenvolvimento
tecnológico virtual" foi o tema da conferência ministrada por Rodrigo Firmino,
da Universidade de Newcastle...
"Ciberespaço", "cidades virtuais", "desmaterialização das
relações humanas" são conceitos complexos, que ainda não foram totalmente
definidos, e já estão entrando para o vocabulário dos brasileiros...
Prefeita de Boa Vista
usa tecnologia para mapear demandas sociais
A prefeita de Boa Vista (Roraima), Teresa Jucá, no segundo dia do
Seminário Internacional CyberCity 2003 – Cidade Digital e Sociedade em Rede,
que acontece em São Paulo, apontou, durante sua exposição, quais são as vantagens...
Para
especialistas, tecnologia da informação deve ser usada a serviço da educação
e inclusão social
Uma opinião compartilhada pelos membros do painel que debateu
"Cidadania Digital e Sociedade da Informação" no primeiro dia do Cibercity
2003...
É possível construir um mundo melhor
a partir de uma interação sadia e sustentável entre homem e máquina, diz físico
"Gestão de Capital Humano e Tecnologia da Informação" foi
a palestra apresentada ontem (23/10) em São Paulo pelo professor Gentil Lucena,
da Universidade Católica de Brasília (UCB), durante o "Seminário Internacional
Cybercity 2003 – Cidade Digital e Sociedade em Rede", que termina amanhã...
Para
urbanista português, sociedade deve adotar regras coletivas do formigueiro
para sobreviver
Começou hoje (23/10) em São Paulo o seminário internacional
"Cybercity 2003 – Cidade Digital e Sociedade em Rede". O objetivo do evento
é debater a importância das novas tecnologias e o quanto elas podem interferir
no dia-a-dia na vida das pessoas que vivem nas grandes metrópoles...
Coordenador
do Cybercity acredita que as tecnologias devem estar a serviço dos
interesses da sociedade
Daniele Próspero 24/10/2003
"Toda a tecnologia e investimento de infra-estrutura precisam estar a
serviço dos interesses e necessidades da sociedade. É a tecnologia
social". A opinião é de Evandro Prestes Guerreiro, diretor
presidente da organização Gestão de Tecnologia Social
(GTS) e coordenador do Cybercity 2003. Para o palestrante, a infoinclusão
social não se restringe ao digital. Antes de tudo, as tecnologias devem
ser simples o suficiente para que todos tenham acesso e é necessário
também que sejam consideradas as peculiaridades dos locais para um
planejamento adequado.
Guerreiro ressaltou também a importância da integração entre setor público, governamental e Terceiro Setor para alcançar o sucesso dos projetos. "A sociedade só irá sofrer melhorias se os trabalhos forem integrados e se todos compartilharem de uma visão comum. É essencial que os gestores capturem a dinâmica da sociedade e vejam o que ela realmente está pedindo como solução. É ela quem revela quais são os seus interesses. E uma orientação estratégica é necessária para estabelecer a trajetória de crescimento da sociedade", completou.
Segundo o palestrante, existem três abrangências de impacto destas tecnologias: o municipal (âmbito local); inter-municipal (âmbito integrado); e regional (mais abrangente). A partir daí, podem ser definidos dez estágios de desenvolvimento: estudo de potencialidade; análise estratégica; formação da proposta; projeto-piloto; avaliação do teste; plano tecnológico local; implantação de projetos prioritários; comunicação; avaliação dos resultados; e replicação de experiências. No entanto, Guerreiro acredita que ainda há um medo da tecnologia, conhecido como tecnofobia, diante da complexidade das aplicações e despreparo sócio-educacional.
"Apesar de termos avançado, está faltando uma cultura digital, em aceitar as novidades que estão aí", opinou. As novidades seriam as transformações dos sistemas de comunicação. Há um desenvolvimento de amplas tecnologias de comunicação para informar por vias à distância, multifacetada e sem fronteiras. "Estamos num estágio de sociedade informatizada, de inclusão digital. Mas acredito que a sociedade digital, em que predomina o conteúdo digital, só será alcançada em 2010 e, a sociedade em rede, em 2020", avalia.
Aveiro
em Portugal oferece serviços online para população e
é bom exemplo de cidade digital
Daniele Próspero -25/10/2003
Incorporar processos tradicionais às novas tecnologias a fim de conquistar ações inovadoras e melhorias para a população. Esse é o desafio a ser superado pela sociedade apresentado no painel "Estratégias de mercado e Sociedade em Rede para o cidadão", no Seminário Internacional Cybercity 2003, comandado pelo jornalista Júlio Moreno e a vereadora Lusitana Maria Geraldes Fonseca, do programa Aveiro Digital, de Portugal.
Na opinião de Moreno é essencial que o desenvolvimento de infra-estrutura nas cidades tradicionais, como rede de esgoto, saneamento, transporte, ocorra simultaneamente ao investimento nas redes que irão permitir aos cidadãos estarem interligados. "Não dá para esperar algo acontecer para depois olhar para o outro lado. Acredito que o Plano Diretor Urbanístico da cidade deveria integrar também um Plano Diretor Digital. Agora, entrar com este plano quando o primeiro já está pronto é errado. Tem que refazer tudo porque é necessário ver a cidade como um todo, ter uma visão de futuro", comentou.
Para o jornalista, os gestores devem perceber os benefícios que as tecnologias digitais podem trazer para a população. "Mas é necessário não se olhar apenas a rua, a cidade, mas sim toda a malha urbana do Estado e do país. Neste contexto, o desenvolvimento sustentável precisa ser analisado e planejado e estar ligado a estes locais". Moreno destacou a importância de se perceber a cidade virtual como complementar à cidade tradicional, lembrando que, apesar do ciberespaço ter incorporado serviços básicos necessários à sociedade, como pagamento de contas, educação e compras, o contato humano não foi abolido, mas sim expandido.
"Hoje, é possível fazer uma reunião numa praça pública e depois continuar as discussões via chat. No entanto, é interessante verificar que a sociedade da informação não é somente a internet, mas outros diversos meios, como a televisão interativa e o celular". Isso porque, segundo o jornalista, as tecnologias da informação romperam com o modelo tradicional de comunicação, em que eram necessários a presença física e o espaço. "Já a rede é bidirecional, interativa, e permite a comunicação um a um. A cidade virtual não tem forma, é invisível, dispensa estilo e você só precisa de um computador, um software de comunicação e um modem para fazer parte".
De acordo com Lusitana Fonseca, as estratégias de desenvolvimento local, com a construção de cidades digitais, devem levar em conta as especificidades de cada região em que estão sendo aplicadas. Para exemplificar esta opinião, a vereadora apresentou o programa Aveiro Digital 2003 – 2006, realizado na cidade de Aveiro, em Portugal. A primeira fase do programa foi desenvolvida entre 1998 e 2001, a partir de um consórcio firmado entre três entidades, a fim de realizar um programa de mudança cultural sobre as novas tecnologias. Foram investidos 5,6 milhões de euros em oito áreas de interesse visando oferecer serviços básicos para melhorar a vida da população local por meio da internet.
Neste período, foi disponibilizada uma rede de quiosques pela cidade com informações de utilidade pública, cultura e turismo; os serviços públicos, principalmente a rede de cobrança, foram modernizados e integrados; desenvolvimento de conteúdos para estimular o aprendizado de crianças por meio de jogos virtuais; construção de uma rede de comunicação para o contato entre a família e as escolas; além de oficinas digitais, entre outras ações. Ao todo, o programa contou com 38 projetos, envolvendo 74 entidades na execução das atividades. O site conta com 158 mil acessos/ano e mais de 8 mil contas de e-mail.
"O maior bem que conquistamos com o programa foi a construção de uma rede confiante e preparada para receber estas novas tecnologias. A marca do programa já faz parte de uma dinâmica social de que a cidade se orgulha". Agora, o programa está em sua segunda fase, com uma metodologia diferenciada. Deixou de ser um consórcio e se tornou a Associação Aveiro Digital. A intenção, segundo Lusitana, é promover o desenvolvimento desta rede fora da cidade. "Percebemos que somos um instrumento de política intermunicipal".
Para Júlio Moreno, o caso de Aveiro é um exemplo de como as ações para a promoção de uma cidade digital devem estar engajadas no planejamento municipal para terem sucesso. O jornalista acredita que não basta, por exemplo, apenas disponibilizar quiosques com computador para a comunidade. É preciso haver também uma interação entre os usuários com monitores, promovendo conhecimento real. "Desta forma iremos conseguir democratizar as tecnologias. Senão, fica tudo no superficial. Temos que ir mais fundo", concluiu.
Para Evandro Prestes Guerreiro, diretor-presidente da ONG Gestão de Tecnologia Social, organizadora do evento, a idéia do seminário não é pensar só nos obstáculos, mas nas alternativas que devem ser criadas para enfrentar os desafios da sociedade digital. "É preciso divulgar a cultura digital no Brasil. O país tem discutido muito pouco sobre isso". Segundo Guerreiro, a proposta da GTS é, a partir de agora, levar a discussão para outros estados brasileiros.
Durante a abertura do evento, Guerreiro destacou a importância das organizações do Terceiro Setor assumirem seu papel nesse processo. Disse que as ONGs precisam difundir "sua voz" como interlocutoras dos excluídos e se posicionarem nesse debate."Se falamos de sociedade da informação estamos falando justamente de cidadãos".
Leão ou formiga
Manuel da Costa Lobo, presidente da Associação Portuguesa de Urbanismo, fez a palestra de abertura do Cybercity com o tema "Planejamento de Cidades na Sociedade da Informação". Lobo utilizou uma analogia para alertar que a sociedade precisa fazer uma escolha: entre ser leão ou formiga. "Quando se compara a vida dominadora e livre do leão que, em pequenos grupos, vai inventado todos os dias sua vida, com a vida superdisciplinada das formigas que em grandes conjuntos vivem em formigueiros seguindo regras coletivas indispensáveis à sobrevivência, ficamos pensando qual é o destino da humanidade, ser leão ou formiga?"
Lobo apontou também algumas tendências de riscos, que serão inevitáveis caso a sociedade não adote estratégias de sustentabilidade. Ele citou o aumento demográfico, do consumo e da mobilidade como os mais preocupantes. Segundo ele, esses fatores correspondem, respectivamente, a maior escassez, maior distribuição de recursos e maior risco de congestionamentos.
Visão Catastrófica
Na opinião de Lobo, será muito difícil encontrar uma convergência entre o primeiro e terceiro mundo para resolver as questões de sustentabilidade do planeta. Ele acredita que o interesse desses dois blocos seja "extremamente antagônico", e que, talvez, os países que estão em uma situação intermediária possam exercer o papel de mediador entre esses dois blocos.
O urbanista português deu ainda alguns exemplos de vetores estratégicos que podem contribuir para o desenvolvimento sustentável das cidades como a inclusão digital da população; demarcação da economia de mercado; e criação de programas assistenciais, e não paternalistas, que resolvam problemas sociais das comunidades desfavorecidas.
O Cibercity, que termina no próximo sábado, é uma iniciativa da ONG Gestão de Tecnologia Social e conta com apoio do Senac São Paulo, Cenpec, entre outros parceiros.
Desta forma, na opinião de Firmino, não há como separar a cidade tradicional da digital. "Não sou a favor das teorias que afirmam que a tecnologia social irá provocar substituições. Na verdade, ela funciona como um complemento da cidade de pedra", concluiu. As estratégias que serão utilizadas para estas tecnologias, portanto, são definidas pelo modo como os projetos e políticas interagem com três elementos principais: interesses - sejam comerciais ou dos "atores" sociais -; as representações virtuais, como web e intranet; e as manifestações físicas, que são a infra-estrutura ou espaço físico afetado.
O palestrante apresentou os resultados de um estudo de caso tendo como foco as ações desenvolvidas na cidade de Antuérpia, na Bélgica, e de Newcastle. A Antuérpia, com 450 mil habitantes, é uma cidade pioneira na adoção de uma política centralizadora e integrada, liderada por uma agência semi-independente, chamada Telepolis, criada em 1996, reunindo todos os projetos telemáticos. A agência construiu também um espaço para a realização de cursos, exposições e reuniões sobre o tema e que podem ser utilizados pela comunidade.
Entre os projetos realizados na cidade está o Digital Patrimony, uma base de dados com todo o acervo de artes e arquitetura da cidade. Todas as bibliotecas, museus e escolas têm computadores e oferecem acesso facilitado à população. Foi construída ainda, uma rede para interligar os setores públicos, como hospitais, universidades e polícia. Informações de relevância pública estão disponíveis em um site. De acordo com Firmino, as vantagens dessa estrutura estão no fato de que Antuérpia tem um grande domínio sobre o tema e conta com maior consciência dos atores envolvidos, o que a coloca numa posição privilegiada na definição de novas ações e na compreensão dos impactos a longo prazo destas atividades.
Já em Newcastle, apesar de haver uma busca pela integração dos processos, ela é prejudicada pela estrutura política e administrativa, além da baixa relevância das tecnologias em políticas públicas. Há uma dispersão dos projetos pelos diversos departamentos e uma fragmentação das iniciativas. O que ocorre no município é uma omissão da tecnologia na estratégia urbana, não havendo uma coordenação das ações que estão dispersas. Entre os projetos realizados em Newcastle estão os centros de atendimentos à população, quiosques com Internet na rua e treinamento aos servidores públicos.
Essas estratégias adotadas pelo município permitem maior facilidade em conseguir fontes alternativas de investimento, já que as ações estão dispersas, além de cumprir as metas estabelecidas pelo governo. No entanto, há riscos de duplicação de projetos e uma menor compreensão do processo como um todo.
De acordo com o palestrante, foi observado que todas as dúvidas e incertezas inerentes aos novos sistemas tecnológicos afetam a maioria dos processos. "Criou-se um mito quanto ao poder de mudança das novas tecnologias". Sendo assim, segundo Firmino, é necessário promover debates para superar as limitações de visões baseadas no determinismo tecnológico e entender plenamente todos os conceitos. "Deve-se considerar também os aspectos da construção das tecnologias, como econômicos, políticos e sociais, com o mínimo de parcialidade possível".
De acordo com Zancheti, "o ciberespaço é uma construção social cuja configuração ainda está indefinida". Ele diz que o ciberespaço é composto de símbolos e relações, e só existe na mente das pessoas, não munido de um suporte material. O professor fez uma contraposição entre o ciberespaço e o espaço urbano, que se constitui basicamente na materialidade e proporciona as relações entre os seres humanos.
Segundo Zancheti, as relações humanas acontecem normalmente no espaço público. Para que elas se dêem no espaço virtual, é necessário que se retire a materialidade do espaço público e que haja uma alucinação coletiva. Esse conceito de alucinação, Zancheti diz que está baseado na definição de ciberespaço criada por William Gibson, escritor de ficção científica.
Na opinião do professor, a cidade é o melhor paradigma para construir o ciberespaço, por promover a interação humana e a formação de comunidades. Por isso, ele trouxe para a platéia o conceito de cidade digital. Zancheti disse que as cidades digitais hoje são "um sistema de pessoas, instituições e computadores que interagem no ciberespaço, utilizando a infra-estrutura da comunicação digital e que tem como referência cultural a cidade real".
Zancheti considera que o ciberespaço pode aumentar, complementar e até substituir a interação humana. Ele diz que hoje existem dois tipos de cidades digitais: a analógica e a simbólica. A analógica funciona como um espelho do mundo real, apresentando uma analogia com uma cidade que existe de verdade. "É uma arena onde as pessoas em comunidade podem compartilhar experiências, conhecimentos e interesses mútuos", disse. Ele cita o caso de Kyoto (Japão), que já tem uma cidade digital analógica. Nas cidades digitais simbólicas não existe nenhuma analogia com o mundo real. "São locais de troca de informações, serviços e relações sociais, como acontece em portais de informação como Terra ou AOL".
Zancheti disse que as
cidades estão proliferando nos setores econômicos de prestação
de serviços, apesar de existir casos de ênfase nas dimensões
política e cultural, quando são geridas por ONGs.
Ele ainda acrescentou que seria interessante criar espaços híbridos,
em que cidades reais e virtuais convivam como espaços públicos.
Como exemplo, ele cita a criação de praças telemáticas,
nas quais todos os recursos do ciberespaço são disponíveis
ao cidadão.
O professor considera muito importante incentivar a formação de comunidades virtuais e o uso de cidades digitais pelos grupos menos privilegiados. "Uma das características do espaço público é que se encontra qualquer pessoa, mesmo a mais desqualificada. Quando os grupos menos favorecidos entrarem no espaço virtual, ele vai ganhar um caráter público", disse. Ele considera fundamental criar novas interfaces de espaço (não apenas a do computador), que tenham maior abrangência e tragam a coletividade, além de levarem essas interfaces novas, coletivas às comunidades excluídas.
Para concluir, Zancheti afirmou que o ciberespaço influencia na concepção das cidades reais. Ele considera que as cidades foram alteradas com o advento das tecnologias, sendo que os maiores impactos incidiram sobre as redes de transporte, a localização das atividades produtivas, a sociabilidade urbana e os espaços públicos. No entanto, o pesquisador considera que o debate em torno desse tema é praticamente nulo. Ele criticou também o novo Estatuto das Cidades, que segundo Zancheti, foi aprovado sem nenhum artigo sobre ciberespaço e cidades virtuais.
Sérgio Mindlin, presidente da Fundação Telefonica, que abordou o tema "Tecnologia Social e a Educação na Cidade", disse entender que "a educação é uma das áreas de atração para a inclusão digital". Ele disse que dentre as diversas ações sociais mantidas pela Fundação, destaca-se o portal EducaRede, desenvolvido para "complementar o trabalho de professores e alunos". O portal é voltado especialmente para professores e estudantes da escola pública, e seu conteúdo segue os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) e acompanha também a metodologia dos temas transversais.
Apesar de reconhecer a importância do uso da tecnologia da informação em benefício da educação, Mindlin entende que "a Internet não pode substituir a interação entre aluno e professor". Ele acredita que a relação no ambiente escolar pode ser favorecida com o uso da Internet que, conseqüentemente, pode melhorar o ensino e a formação dos jovens.
O professor Ladislau Dowbor, que falou sobre "As Redes de Inclusão Digital e a Gestão Social: Avaliação de Impacto na Cidadania", acredita que o impacto da tecnologia da informação atinge todos os campos da sociedade e foi responsável por mudar as relações sociais.
Para exemplificar, Dowbor falou sobre as mudanças nas relações do homem com o dinheiro. "Hoje, o resultado do meu trabalho não é mais baseado no dinheiro, mas em sinais magnéticos". Ele disse isso, se remetendo as funções de um cartão de crédito e da tecnologia aplicada a ele. "Quando uso meu cartão, é feita uma dedução de 6% no valor da compra. Se uso um cheque parcelado que meu banco oferece, pago 132% ao ano". Ou seja, se paga muito por essa tecnologia.
Frente a isso, o professor acredita que "tecnologia é boa mesmo quando aplicada na educação". Dowbor aposta que investindo no ensino previnem-se problemas maiores no futuro. "Hoje temos 175 milhões de habitantes. Destes, 115 milhões fazem parte da PIA (População em Idade Ativa), mas de fato, 80 milhões compõem a PEA (População Economicamente Ativa). Entretanto, apenas 65 milhões de pessoas trabalham. Sendo assim, temos cerca de 50 milhões de pessoas subutilizadas", explicou o professor.
Desta forma, a tecnologia deveria ser dedicada a mudar esse quadro. Para Ladislau Dowbor, "não podemos nos desenvolver só quando aparecem uma empresas ou secretarias novas. Temos que criar alternativas como frentes de trabalho para um processo inclusivo vinculado a um sistema de informação".
Para o professor, pesquisas e indicadores sociais são elementos potencialmente capazes de interferir positivamente na realidade. Entretanto, diz ele, "nunca voltam em informações para a cidadania". "Temos que ter foco no cidadão e no que é útil para ele. Nós temos que pegar a informação e puxar dela o que é essencial. Reverter e organizar a informação para que se transforme num instrumento de cidadania. A informação deve ser organizada em função da demanda", esclarece.
Ladislau acredita que para promover uma inclusão de fato, é importante que as pessoas recuperem o controle de seu dinheiro. A partir daí, ele entende que será necessário investir na informação e na comunicação de dados. Assim será possível "formar gente para ser cidadão do espaço onde vive".
Para Maria do Carmo Brant de Carvalho, coordenadora-geral do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária), fechou o painel. Ela disse que é necessário investir também no agrupamento de pessoas e organizações sociais organizadas em redes.
Ela avalia que este conceito, que "não é novo na gestão social", não fez desaparecer a "sociedade civil tradicional", mas modificou sua forma de atuar. "Essa sociedade complexa se expressa por múltiplos grupos e está mais pautada pelo micro-interesses". A coordenadora entende também que hoje em dia não se fazem mais programas sociais sem articulação. "Cada setor só se complementa com outras ONGs ou com órgãos públicos. E as redes têm, em sua origem, uma vocação democrática onde o cidadão não é um mero cliente".
Maria do Carmo entende ainda que as redes mais eficientes são as que favorecem o desenvolvimento local. "Essas redes são mais assertivas e pró-ativas porque estão fincadas onde atuam", acredita.
Para a coordenadora, em um país de contrastes como o Brasil, que tem de um lado o "voto eletrônico e de outro o cidadão iletrado", a atuação de redes somada à democratização da informação só tende a favorecer a cidadania e a inclusão social.
Maria do Carmo lembrou também que há "movimentos lindos" acontecendo em toda a sociedade, que está buscando a integração do conhecimento. Ela disse ainda que o processo tecnológico é irreversível. "Não dá para voltarmos. O que precisamos é juntar três elementos que foram separados no século 20: o belo, o bem e a verdade. Uma sociedade só vai ter sentido se juntarmos esses três elementos", conclui.
Lucena afirmou que vem estudando o tema há seis anos, inclusive, Gestão do Conhecimento e Tecnologia da Informação é o título da disciplina que leciona no mestrado da UCB. Segundo o professor, é possível construir um mundo melhor a partir de uma interação sadia e sustentável entre homem e máquina. "Essa construção, fundamentada na idéia do trabalho cooperativo, se estabelece a partir de redes conversacionais, que envolvem pessoas, organizações e tecnologias". Com um discurso sempre voltado às questões humanas, Lucena ressaltou que essas redes devem favorecer os relacionamentos efetivos e satisfatórios, que contemplem "a grandeza humana das pessoas que deles participam, com capacidade criadora, respeito e amor pelo próximo".
O físico apontou também que é preciso ajudar a desenvolver nas pessoas a capacidade de se tornarem observadores diferenciados. "Nós, normalmente, nos apresentamos a partir de nossos históricos, e para isso nos remetemos ao nosso passado. No entanto, para algumas pessoas só interessa o aqui e agora. Viver a vida pensando no vir a ser me constitui num outro tipo de observador. Você pode se mover na vida andando de costas; ou, deixar de lado o passado e andar olhando para frente". Entretanto, ele afirma que nem uma das formas permite que você seja um observador diferenciado. "A solução é andar dançando, porque assim a gente roda e rodando a gente consegue ver mais coisas".
Lucena disse que, nos últimos anos, tem se inspirado na obras de Fernando Flores - ex ministro da Economia do Chile durante o governo de Salvador Allende. Citou como exemplo o livro "Understanding Computers and Cognition" e a tese de doutorado do chileno "Inventando la Organización Del Siglo XXI", além de um estudo autor que abordou os Impactos da Tecnologia da Informação nos Negócios" (veja os quadros abaixo). Nesse último trabalho, o físico afirma que Flores faz uma retrospectiva da evolução das tecnologias versus seu impacto no mundo dos negócios, indicando qual o papel que cabe ao homem como "criadores de futuro". Segundo Lucena, Flores acredita que as organizações, independentemente de suas origens e domínios, não passam de redes de relacionamentos, mais especificamente, de redes dinâmicas de conversações. "É nos relacionamentos entre humanos que se configuram essas redes que nos propomos a investigar o papel da gestão na dinâmica das organizações, aí incluídas as cidades, digitais ou não", afirma Lucena.


Tecnologias e novas gerações
De acordo com Lucena, é
preciso refletir como as gerações futuras vão conviver
com as novas tecnologias. Para ele, isso é uma grande preocupação.
Entretanto, o professor afirma que não há como evitar o uso,
muitas vezes abusivo, das tecnologias pelas novas gerações.
"O que fazer no meio de tanta tecnologia? Ela entra por todos os cantos
de nossa casa. Não como detê-la. O problema é pensar o
que fazer antes disso", recomenda. Na sua opinião, os pais, antes
de darem um computador ao filho, devem dar amor. "Ou estabelecemos uma
outra relação com a tecnologia ou ela vai nos escravizar",
alerta.
A prefeita considera que o investimento feito nesse mapeamento foi essencial para conseguir gerenciar o orçamento municipal anual de 113 milhões. "É impressionante, com a tecnologia você não erra", disse. Ela afirmou que agentes comunitários levantaram dados sobre os índices de escolaridade da população dos 39 bairros mais pobres da cidade (no total, Boa Vista tem 50 bairros), bem como renda familiar, condições de saneamento básico, energia elétrica, asfalto, entre outras informações que pudessem ajudar a melhorar a condição de vida das pessoas, sem interferir em suas vidas pessoais.
Os agentes visitaram casa por casa e passaram as informações para a Prefeitura. Os dados foram digitalizados e o resultado foi um mapa detalhado, que inclui tanto a localização de cada domicílio, como sua situação social. Teresa apresentou esse trabalho à população e organizou debates para traçar um plano de ação e implementar políticas públicas até 2004.
Ela ressaltou que sua gestão não prevê apenas o orçamento participativo, mas também o planejamento e a execução participativas, por isso a Prefeitura criou a Secretaria de Gestão Participativa e Cidadania. Ela considera que essa característica de seu governo ajudou a mudar o perfil da comunidade, que se tornou mais politizada e consciente de sua condição.
Dentre as ações que contribuíram para isso, ela citou o programa "Braços Abertos", que organiza reuniões nas ruas da cidade, onde a população participa e tem conhecimento sobre o que está sendo feito na gestão. De acordo com a prefeita, esse tipo de atividade tem aprovação de 45% da população. "É uma aula de cidadania no meio da rua", disse. Ela garante que esse trabalho de gestão compartilhada mudou o comportamento da população. Teresa aposta que isso vai garantir a continuidade do projeto nos próximos governos.
Projeto Crescer - Um dos programas sociais que a prefeita
citou que teve bons resultados foi o Projeto Crescer, voltado para a reinserção
social de adolescentes em conflito com a lei. Ela disse que o projeto conseguiu
reduzir, em apenas um ano, 72% dos índices de violência juvenil.
A primeira iniciativa do projeto foi implantar a ação "Esporte
Noite Adentro". Os jovens, de forma bem modesta, descalços e sem
camisa, vão para as quadras praticar esportes. Depois, participam de
oficinas culturais, artísticas e de artesanato.
Um currículo diferenciado, para incentivar os meninos
e meninas a estudarem também foi montado. Eles têm apenas aulas
de português, literatura, matemática, informática e de
uma língua estrangeira, segundo Teresa porque eles não se interessariam
por outras disciplinas e não freqüentariam as aulas.
Por meio de uma parceria com o Sebrae, os jovens foram incentivados a se tornarem
empresários. Hoje, esses jovens são responsáveis pela
segurança de algumas festas, estão montando uma cooperativa
de artesanato e vão vender seus produtos em uma loja. De acordo com
a prefeita, esse projeto custa cerca de R$ 530,00 mensais por jovem. Ela acrescentou
que esse é um valor bem inferior ao gasto pela FEBEM (Fundação
Estadual para o Bem-Estar do Menor) de São Paulo, por exemplo. "No
Crescer o jovem é realmente recuperado".
Teresa Jucá ainda destacou que o projeto de mapeamento
das demandas sociais - modelo de atuação regionalizada desenvolvido
em Boa Vista -, pode ser replicado em diversas cidades brasileiras, inclusive
em grandes metrópoles como São Paulo.
Para saber mais sobre o projeto da Prefeitura de Boa Vista, acesse o site
www.boavista.rr.gov.br
Pier Carlo Sola, presidente do Porto Digital, disse que uma parceria informal entre a universidade e empresas privadas para a criação de um parque tecnológico no Bairro do Recife, acabou recebendo apoio do governo e resultou na criação de um plano estratégico de desenvolvimento econômico do Estado de Pernambuco.
Ele conta que, desde o início, o projeto foi concebido para gerar não apenas benefícios para as empresas de tecnologia participantes, mas também para a comunidade em geral. Por isso foi acompanhado de um programa de recuperação urbana e social da região, e foi instalado no coração da cidade já que as empresas tecnológicas, de acordo com Sola, têm baixo impacto ambiental.
Muitos prédios que estavam abandonados foram recuperados, foram criadas também bibliotecas, oficinas de incentivo à leitura, pontos de acesso à Internet e um projeto de reurbanização da favela do Pilar, que deve ser implantado em breve. O Instituto Porto Digital recebeu o título de OSCIP (organização da sociedade civil de interesse público) por todas essas atividades.
O projeto prevê que o Bairro do Recife se torne um dos melhores lugares do mundo para empreendimentos na nova tecnologia. Seu objetivo é ampliar a economia de Pernambuco a partir do aumento da contribuição do setor de softwares (que deve passar de 1% para 10%).
O projeto teve início em 2001, com recursos públicos, mas deve se tornar auto-suficiente. De acordo com Sola, muitos empregos já foram gerados desde à instalação das novas empresas de tecnologia e daquelas que já têm tradição nesse setor. Ele conta que em 2001 eram 203 empresas e agora já são 1200. A interação entre marcas tradicionais e novas é bastante proveitosa para todos, acredita Sola.
Governo Eletrônico
O coordenador do E-Gov de Santo André, Martim Tacoshi Jr., disse que o governo eletrônico é um conceito que vai muito além da aplicação tecnológica, pois prevê uma nova forma de governar, mais transparente, e de maior interação com o cidadão. No entanto, diz que depende de um processo de aculturação, tanto do público interno (governo), quanto externo (população).
De acordo com Tacoshi, o E-Gov faz parte do projeto de Modernização da Administração do município, iniciado em 1997, na administração de Celso Daniel. Como forma de dar transparência ao governo, ele citou a elaboração de um Guia Fácil, com informações sobre onde encontrar os serviços públicos, como proceder, quanto custa e em que prazo. Quando as regras não são cumpridas, ele disse que o cidadão pode processar a Prefeitura. Na sua opinião, o guia é uma forma de levar o governo até as pessoas, que não precisam mais ir até os guichês públicos.
Outro ponto positivo que Tacoshi aponta é que esse processo vai permitir que o governo tenha uma base de dados única para identificação do cidadão. A população não precisaria tirar RG, CPF, título de eleitor, teria um documento único com todas as informações.
Se por um lado a governabilidade eletrônica facilita a comunicação entre cidadão e governo, ele diz que isso não resolve o problema da territorialidade. É necessário pensar em uma rede de transportes eficientes, portanto, para atender a população de forma adequada.
Cidade do Conhecimento
A professora Lilian Starobinas apresentou o projeto Cidade do Conhecimento, desenvolvido pelo Instituto de Estudos Avançados da USP.
Inicialmente o projeto previa a criação de redes de cooperação e comunicação entre estudantes e trabalhadores de todos os setores da universidade. Mas já está sendo estendido à comunidade brasileira e internacional com o propósito de "se fazer um uso democrático e criativo para incluir alunos, professores e outros membros da comunidade na produção, circulação, consumo e reinterpretação do conhecimento".
Starobinas diz que a Cidade do Conhecimento atua em diversas questões contemporâneas da sociedade como profissionalização, qualidade de vida, meio ambiente, condições sociais e culturais, juntando tanto o mundo do trabalho, quanto o mundo da escolarização. A partir dos projetos, a Cidade propõe a criação de coletivos de conhecimento. A finalidade, segundo a professora, "é democratizar o acesso à tecnologia e ao conhecimento, compartindo as informações da Academia com a comunidade em geral, e ouvindo o que ela tem a dizer".
Essa diversidade de projetos é possível, segundo a professora, devido ao estabelecimento de parcerias com outras instituições que trabalham em áreas específicas, sejam vinculadas à digital ou não. "A idéia é agregar e não competir, e desenvolver um trabalho conjunto em diversas áreas. A Cidade permite formar redes entre órgãos que ainda não tinham tido agilidade suficiente para mobilizar pessoas", disse.
Nesses ambientes, aqueles que têm interesses comuns se encontram. De acordo com a pesquisadora, a Cidade do Conhecimento funciona com um núcleo de coordenação muito pequeno e com verba enxuta. No entanto, conta com um grande número de participantes.