Entrevista com Sebastian – 13/12/02
Sebastião Fonseca, Sebastian, mineiro de Belo Horizonte, gosta de estudar balé, lutar kung fu, ler clássicos da literatura, treinar a voz no canto lírico. A sua entrevista foi rápida mas profunda, aproveitando um curto espaço dentro da sua agitada agenda. Nas fotos, expressões de seriedade, mas por dentro toda uma explosão artística, alegre e com compromissos para grandes realizações na sua carreira pofissional e na criação de um instituto cultural. Dos seus 24 anos de profissão como artista, 12 foram dedicados às campanhas da C&A
Portal Afro: Qual o seu sentimento com referência a sua representatividade na expressão da moda? Como você se sente expressando todo esse seu talento com a moda?
Sebastian: Pelo fato de ser um cidadão afro-brasileiro, brasileiro, um homem, e a C&A ser uma empresa de grande importância internacional, eu me vejo em uma situação bastante atípica, singular. E quero mostrar para o Brasil, para o latino, para o africano, e para toda a sociedade, que todo mundo pode estar imprimindo sua marca, por que todos nós somos singulares.
Portal Afro: Você ficou surpreso com o seu sucesso na C&A, ou você já esperava que um dia isso iria acontecer?
Sebastian: Qualquer sucesso, ou insucesso, que ocorra na vida da gente, é 100% responsabilidade nossa. Às vezes não temos consciência disso, mas somos responsáveis. Portanto, determinamos na medida do nosso sonho, da nossa ação, a materialização das coisas que queremos.
Portal Afro: Você se sente isolado com referência a seus pensamentos? Ou ao seu sucesso?
Sebastian: Não me vejo isolado, sempre fui uma pessoa com estilo bastante introspecto, voltado para o universo da introspecção, porque somente assim você terá condições de se expandir. Quando se olha para dentro de si, observando suas necessidades, carências, e podendo superá-las, você merece a expansão.
Portal Afro: Como você se sentiu ao contracenar com a sua mãe no filme da C&A dedicado ao dia das mães?
Sebastian:
O fato da minha mãe ter atuado no filme, foi uma oportunidade,
para mim e para o Brasil, de ver que tudo isso é verídico. Que
eu não sou uma manipulação pura e simplesmente de comunicação.
Eu sou o resultado de algo que acontece, de uma veracidade. Sou isso aí
que falo agora, e você está registrando, o que você vê
na TV, e também o que você não vê, ou seja, eu não
sou somente aquele personagem. Ter a minha mãe atuando nesse filme,
foi uma oportunidade que tive de mostrar a todos que ela assina em baixo pela
responsabilidade do meu sucesso.
A família é fundamental para a transformação da
sociedade e antes da famíla, é o indivíduo. Não
acredito que você vá manipular massa e sim individualmente as
pessoas. Nós individualmente nos auto conduzimos para o objetivo mais
equilibrado e justo.
Portal Afro: Em algum momento de suas gravações você sentiu uma grande emoção?
Sebastian: Sou bastante introspectivo, reservado, pois sou muito exigente. Para mim, cada filme precisaria sofrer muitas revisões e a razão acaba não dando vasão para a emoção. Não sei dizer com precisão se houve algum filme que provocasse em mim uma situação de grande emoção.
Portal Afro: Qual é a grande emoção que você procura?
Sebastian:
A
grande emoção é poder ver a comunhão de várias
pessoas compartilharem da consciência pessoal, ou seja, as pessoas terem
a maturidade e a consciência do livre arbítrio presente no cérebro
de cada cidadão. O que mais vejo hoje em dia é que nós
não temos consciência de que somos o que somos porque somos,
e de que fazemos o que fazemos porque fazemos, porque somente nós determinamos
tudo isso.
Lógico que existem barreiras, obstáculos, mas é isso
que vai nos mostrar o quanto somos fortes. Eu procuro sentir e perceber as
coisas e é nesses momentos, que acendemos a consciência do livre
arbítrio, da auto-transformação. Existe um estágio
letárgico, não somente no Brasil mas no planeta, quando vemos
as pessoas poluindo os mares, queimando as florestas, se matando, se narcotizando,
se ludibriando. Essas bobagens que cometemos no nosso dia a dia são
conspirações para o nosso fracasso. Se nós temos capacidade
e competência para conspirar para o nosso fracasso, então temos
competência para conspirar para o nosso sucesso. Esta e a grande emoção
que eu busco sentir.
Portal Afro: Como você vê o movimento negro hoje? E as questões de cotas, diversidade, etc?
Sebastian:
É uma situação
bastante polêmica, pois quando se fala em cotas, se corre o risco de
falar de paternalismo, pode se dizer assim:
"-Ah! O Dr. Afrodescendente que participou das cotas!! Será
que ele é uma pessoa que está ali pelos seus adjetivos naturais,
ou pelas cotas? Então pode-se ficar estigmatizado novamente."
O trabalho teria de ser feito começando pelas bases, mais na distribuição
de recursos, mais na ciência da gestão daquilo que vem do berço.
A solução não está na ponta, mas no início.
Particularmente, tenho minhas ressalvas sobre essas questões .
Antes de fazermos um movimento afro-brasileiro, temos que fazer um movimento
pessoal, individual, de cidadão, independente de raça. Eu vejo
um movimento individual para o coletivo. Nós podemos transformar o
mundo a partir do indivíduo e não a partir da massa, que é
consolidada. Essa matemática tem de ser revista.
Portal Afro: Qual a solução que você propõe para as questões de baixa estima com relação aos negros?
Sebastian:
Conhecer a história,
a origem. Por que eventualmente ele vive em uma favela? Por que ele vive na
periferia? Por que não está no banco de uma universidade? Por
que aquela mulher assinou a carta de alforria? Com qual objetivo, pensando
de que forma? Foi pensando em questão econômica, pessoal, ou
será que foi humanitária?
Se conhecermos a nossa história, teremos condições de
transformar o nosso presente em um futuro melhor. Se não a conhecermos,
não teremos chance de revolucionarmos as nossas vidas.
Minha sugestão para o afrodescendente ou não afrodescendente,
ou para quem queira se modificar, é que faça uma busca na sua
história e que abra mão de um paternalismo que jamais existiu
e que jamais existirá e quando tentou existir, foi prejudicial para
o Brasil.
Na época do Collor, quando
ele acabou com aquela ciranda financeira, acabou também com o paternalismo,
ou seja, tem que se trabalhar para gerar divisas, não se deve esperar
nada das aplicações financeiras para se ter melhores condições.
É uma questão de consciência utilizar o melhor da gente,
o que é a nossa sabedoria.
Portal Afro: Como você analisa a TV hoje?
Sebastian: A TV é um veículo maravilhoso, de penetração incrível. Porém eu acho que, como uma grande forma de comunicação, deveria se ater em sua importância de estimular a revolução da instrospecção do cidadão. Ela se mostra muito limitada. Os diretores de TV, os donos de comunicação, poderiam ser mais generosos e mais humanitários.
Portal Afro: O movimento da moda que está havendo leva as pessoas a instrospecção?
Sebastian:
Depende, na verdade é como uma arma, que você
usa para matar, para observar a engenharia da mesma. Você usa a bebida
para poder estar um pouco descontraído, potencializar o seu estado
de espírito, para ser uma pessoa maravilhosa, ou potencializar seu
espírito negativo para poder agredir. A mesma coisa é o vestir,
que é uma extensão da sua personalidade. Se você tem uma
personalidade gentil, criativa e alegre, então você vai colocar
este espírito
na sua forma de se vestir. Se você é uma pessoa
deprimida, mau humorada, de gosto duvidoso, você vai trazer isto para
o seu modo de se vestir. A moda é uma ferramenta de expressão
do nosso universo interior. Ela estimula as pessoas a olhá-lo e a se
espelhar em você e a também buscar uma estética melhor.
A estética está ligada à harmonia, ao equilíbrio
de cores, de linha e que traduz também o equilíbrio de espírito
do cidadão.
Portal Afro: A filosofia Rastafari defende o uso do cabelo como representação da sua seita, porque está citado na Bíblia, assim como alguns monges raspam a cabeça para estarem mais ligados a espiritualidade. Qual o motivo da sua opção de estar careca?
Sebastian: É mais prático e está ligada também a toda uma busca de instrospecção, de libertação, de conexão. É um conjunto de coisas que estimulou esta estética de estar sem cabelo na cabeça e nas sobrancelhas. Hoje já é comum. Existem muitos afrodescendentes e não afrodescendentes que raspam o cabelo e trazem isso como um estilo, uma moda.
Portal Afro: Como você gostaria de se ver nas suas realizações quando estiver com os seus setenta anos, por exemplo?
Sebastian: Acabei de montar um centro cultural e ele é um pretexto para perpetuar a filosofia que me trouxe aonde estou. Ou seja, quero democratizar esta luz que habita em meu ser. Uma vez que estou aqui dando esta entrevista para o portal, busco melhorar a cada instante o argumento, as palavras, para que elas possam de uma forma ou de outra, provocar um estimulo para as pessoas acenderem a consciência do livre arbítrio.
Portal Afro: Qual a música que mais gosta?
Sebastian: Eu danço, atuo, canto, todos os elementos da comunicação coexistem. Trabalhei com Oswaldo Montenegro, Cássia Eler, Zélia Duncan, Milton Guedes, na minha pré-adolescência. Sou amigo pessoal do Roberto Mitiuki, que é maestro da orquestra filarmônica de Nova Iorque. É o único brasileiro que já regeu a orquestra filarmônica de Nova Iorque. A minha relação com a música é muito forte e em breve vou me expressar abertamente para o público através dela.
Portal Afro: Fale um pouco mais do instituto cultural que você abriu.
Sebastian:
Este instituto é um laboratório que estarei desenvolvendo
para que as pessoas se superem, e se possível melhor do que eu, ou
melhor do que elas mesmas. Serei apenas uma referência para que elas
mesmas se superem. É um grande sonho que estamos tendo.
Já existe o espaço físico, ele está sendo construido
e as primeiras audições serão a partir de 2003, para
envolver as crianças. Será um bom pretexto para ser um grande
movimento cultural na região de Osasco.
Portal Afro: Você poderia deixar uma mensagem daquilo que está dentro de você, de positivo, de alegre, motivador?
Sebastian:
Posso ser até redundante no que eu vou falar, mas minha
sugestão para todos que gostam do meu trabalho, é que sou uma
referência viva de que tudo que foi dito a meu respeito é verídico
e é possível. Nós somos do tamanho de nossos sonhos.
Entre o caminho curto e o reto, o mais curto é o reto. Mas é
tão complicado caminharmos no caminho retilíneo porque tem tantas
tentações ao nosso redor, mas se nós conseguirmos manter
a firmeza e continuarmos no caminho reto, com certeza iremos
atingir o nosso objetivo independente do tempo, porque o tempo e o
espaço são extremamente relativos.
Costumo dizer que o que mede a vida não é o tempo, mas o uso
que fazemos dele ou dela.











