Mas é preciso
ter força, ter garra...!!!
Maria Maria ...do Carmo Valério dá o toque da beleza negra
Fotos
e entrevista - Jader Nicolau Jr. - 12 de julho de 2004
Entrevista exclusiva para o Portal Afro - Santos,11 de janeiro 2003.
Neste ano a sua linha de Cosméticos MUENE, faz 16 anos e ela aniversário
no dia 16 de julho.
Ter nascido na terra de Portinari, Brodósqui, incentivou sua preocupação com a estética?
Portinari era o astro rei da cidade, e nós tínhamos grande admiração por ele. Mas o que bastante me influenciou foram as flores silvestres que eu observava na beira das estradas, e eu as passava no meu rosto para ver se eu ficava bonita como as imagens que Portinari pintura.
Qual era a sua visão de estética do negro, antes de ter produtos específicos de maquilagem para ele?
A minha visão era baseada no convívio mais familiar,
e regional, pois minhas primas da região de Batatais, Ribeirão
Preto, eram chiques no meu ponto de vista. Mas quando fui gravar um programa
de teve, chamado Palavra de Mulher, o maquilador nos passou uma maquilagem
que não aderia ao nosso tom de pele e ficava uma crosta. Ficamos preocupadas
de aparecer no vídeo daquela forma, tentamos retirar a maquilagem e
não conseguimos. Estávamos mascaradas e tivemos de enfrentar
a câmera como uma espécie de máscara branca no rosto para
pedirmos donativos. A entrevista conosco foi bem sucedida, apesar de mascaradas,
mas os amigos vierem nos dizer, se estávamos com vergonha de aparecer
no programa e passamos alguma coisa tão estranha no rosto. Falamos
com o maquilador e ele nos disse que não havia maquilagem para pele
negra.
Foi o nosso primeiro choque, o inicio da conscientização. Passamos
a pedir informações a respeito e observamos que realmente havia
uma espécie só de maquilagem que sujava toda a roupa, e não
atendia em nada as nossas reais necessidades.
E nesta busca de informações, observamos que eram pouca as possibilidades
do artista negro aparecer no vídeo, pois não havia nenhum produto
apropriado para pele negra que é bastante diferenciada.
Quais as dificuldades na criação de produtos específicos para os negros?
Foi um trabalho de formiguinha, pois nas faculdades os médicos
dermatologistas diziam que a pele do negro não deveria ser levada em
conta porque era de pele muito boa, não precisavam de cuidados com
a beleza, que não é igual a raça branca que devido as
rugas precisa de cremes. Outra causa que levou ao desenvolvimento tardio no
Brasil de produtos específicos foi a questão do baixo poder
aquisitivo do negro, e ninguém tinha interesse em investir pois achava
que não teriam demanda de mercado.
Outro fator seria as empresas lidarem com clientes negros dentro de seus estabelecimentos,
e terem produtos específicos na sua linha poderia também significar
desvalorização da imagem de sua empresa.
Em busca de desenvolvimento de produtos para retirarem os quistos cebáceos,
característicos da nossa raça, ouvi respostas que o negro não
tem problemas de rugas, envelhecimento precose, que eles ficassem pelo menos
com os quistos, ou seja para que o negro vai ficar mais bonito de que ele
aparenta.
E quando saiu o produto, quais as reações para aceitação do produto?
Quando o produto saiu, ficamos surpresos, pois os negros eram bastantes assustados com relação a maquilagem, assim como nós ficamos no programa de televisão de ficarmos mascarados, e assim ouvia-se muito dizer que o negro era mais bonito sem maquilagem e realmente era pois quando se passava a maquilagem ficava-se feio, pois a mesma fórmula para raça branca usava-se para a negra. Sabemos que a pele do negro é diferenciada.
Quando se descobriu uma qualidade que aderia a estética
do negro e que poderia aparecer bem na televisão, não lhe ser
recusado nenhum papel, nós tivemos a dificuldade de ter de convencer
que era de boa qualidade, que ele iria ficar bonito, dar uma reviravolta na
questão que negro maquilado ficava feio.
Foi um trabalho árduo, para tirar esta cisma, este pavor, tendo-se
as vezes de ser até meio agressivo; nós enchíamos a mão
de uma base bem hidratada, fazendo um borrão no rosto da pessoa, e
com aplicação devida, o produto aderia de forma perfeita no
seu rosto, sem a famosa” máscara branca”, com seu tom natural,
criando aquele ar de espanto e satisfação.
Depois com a aprovação de algumas artistas famosas que passaram a usar o produto, tornou-se mais fácil ter uma referência de gente famosa que estava na tv no cinema, no teatro sem aparecerem mascaradas. Além disso, a qualidade do produto destacou-se tanto que outras raças como a branca e amarela foram contempladas na nossa linha, sem o menor problema.
E o processo para descobrir o produto ideal, como foi?
O meu Know-how veio de trabalhar em diversas empresas, que
eu sofria o problema de não gostar de trabalhar com estes cosméticos
porque nada aderia a minha pele. Até que entrei na Clover Line, que
se interessou em investir em um projeto para fazer produtos específicos
para negros. Fizemos a pesquisa e quando chegaram a conclusão de uma
fórmula ideal, foi feito um lançamento no Hotel Maksoud em São
Paulo, e foi um fracasso, pois a modelo após ser maquilada, começou
a desfilar e foi ficando com a pele esbranquiçada.
Depois em uma das primeiras reuniões que fiz, fui entrevistada pela
Folha de São Paulo, onde afirmei que não existia produtos de
beleza para a raça negra, sendo considerada aquela que teve a iniciativa
de fazer maquilagem para a pele negra.
Nós sentimos muito orgulho de quando fomos registrar no Rio de Janeiro a nossa fábrica, e termos sido os primeiros a constar como produtores de maquilagem para negros.
O negro não conhece a qualidade de um bom produto. Eles são temerosos. Depois de quinze anos na praça, eles só compram após experimentarem. Tiveram outras empresas que também lançaram produtos após o nosso, e não mantiveram uma boa qualidade. Nosso produto é natural, adere perfeitamente a pele, rejuvenesce é uma maquilagem para dormir com ela.
Devido a qualidade dos produtos, nós chegamos a fazer permuta com algumas empresas, por exemplo com a Revista Raça, para fornecendo produtos para maquilar os modelos e artistas.
A origem da palavra Muene vem do dialeto africano e significa um pronome de tratamento, Excelência, utilizado para pessoas de fino trato.
Por que no desenvolvimento dos produtos você teve uma preocupação com o natural e do tratamento da pele?
Há um temor das pessoas serem prejudicadas na utilização de produtos de maquilagem, por exemplo reações alérgicas e existem muitos processos a respeito. Nossa preocupação foi de utilizar matéria prima de primeira qualidade e tivemos uma equipe de químicos excelentes, possibilitando durante os testes do processo de desenvolvimento, chegarmos a uma ótima qualidade. Em quinze anos não tivemos nenhuma queixa.
Como foi a reação do movimento negro com relação
ao lançamento de produtos para afrodescendentes?
Eles receberam bem, e procurei desde o início mostrar
as vantagens da participação das pessoas no marketing de rede
trazendo assim benefícios econômicos para a comunidade negra,
desenvolvendo o tino comercial e tendo em mãos um produto de qualidade
adequada para a raça negra. Utilizamos até hoje o slogan, “Sobe
mais quem ajuda o outro a subir”.
Muitas vezes os homens consideram os produtos de maquilagem como supérfluo,
mas no nosso caso não o é, pois além dele tratar a pele,
ele ajuda a elevar a auto-estima da mulher negra, realçando a sua beleza
natural.
Eu sinto que tenho uma missão de ajudar o povo negro e dentro destes quinze anos não medi esforços.
Os lábios dos negros também precisam de um carinho especial. Como foi a experiência do desenvolvimento da linha de batons?
Foi por experiência própria. Agente usava batons
que não aderiam, não tinha uma umidade suficiente.
Aconteceu um fato há tempos atrás com a nossa atual ministra
Benedita da Silva. Ela estava recém chegada dos Estados Unidos e nos
mostrou um batom. E nos disse que ela trouxe um batom de lá e ele derretia,
e que precisava dele.
Daí nossa preocupação de desenvolver uma linha com qualidade,
com uma consistência segura, que não derrete, claro se deixar
no sol no carro ele vai derreter, com essência gostosa, achocolatada,
e próximo ao tom do negro. O batom é usado próximo a
boca e está próximo de você engolir e se não for
de boa qualidade pode causar até dor de estomago e mal estar. Uma criança
achou tão gostosa a essência que mastigou e engoliu e não
fez mal. Na sua composição o batom ainda tem própolis
e cera de abelha, componentes milenares utilizados pelos egípicios,
lembrando a beleza de Cleópatra.
E com referência ao fixador e a hidratação?
O fixador é de um processo químico, e antigamente
nós vendíamos uma linha de teatro e o fixador era vendido separado
do batom, com recomendação de ele ser cancerígeno se
usado sem o batom por baixo. Este alerta muitas pessoas desconhecem-na.
Nosso batom não tem fixador, mas ele tem uma boa permanência
natural. Devemos lembrar que aquelas pessoas que procuram produtos com fixador
que tenham cuidado pois é química e cancerígeno.
E os truques de maquilagem?
Recentemente tivemos um concurso de beleza negra em Santo André, onde a MUENE patrocinou a maquilagem e as moças foram maquiladas dos pés a cabeça, pois os produtos cobrem todas as manchas, marcas, sinais, estrias, diferenças de tom de pele.
Algumas experiências dão tons de batom que ninguém sabe. Por exemplo, temos a cor de verde petróleo, em homenagem a Jovelina Pérola Negra, e usado com um cintilante dourado. Outras vezes nós temos sombras e iluminadores que nós passamos nos lábios.
Outra coisa engraçada é passar um batom azul com um verde. Passamos tons lilás com uva, vermelho como Eliana Pittman com outra variável de vermelho, que é o Maria, homenagens a todas as Marias do Brasil. Quando se mistura um com o outro dá um novo tom e a última cor é que predomina. Não precisamos remover o batom para passar outro.
Além disso, pode-se fazer contorno com uma cor e passar outro por dentro. Por exemplo a revista Marie Clarie, chegou a usar em modelos o contorno com o Zezé Motta, uva e por dentro usou o Rosemary, rosa clarinho, para peles claras. A linha de batom atende todos os tons de pele também.
Como surgiu a idéia de estar colocando o nome de alguns produtos relacionados com artistas e pessoas de destaque da comunidade negra?
É uma homenagem. No caso da Zezé Motta, por
exemplo, quando eu trabalhava no Aeroporto de Congonhas na Polícia
Civil, Zezé passou usando um batom vinho, que lhe ficou muito bem.
Desenvolvi então um batom em uma tonalidade semelhante a qual contrastou
muito bem com a pele negra. Lançamos o produto e hoje ele é
nosso “carro chefe” na linha de batons.
O batom Leci, de tonalidade marrom, em homenagem a Leci Brandão, já
se refere a um relacionamento longo que mantemos, onde ela sempre nos apóia.
Com relação a Benedita da Silva, o nosso relacionamento vem
desde o lançamento da empresa. Devido a sua religião, que na
época não permitia o uso de batom, lançamos um incolor.
E a mágica dos Cakes da Muene?
Nós tivemos o exemplo de um conjunto de artista que foram fotografar na praia. Eles entraram e saíram do mar e o cake permaneceu. O cake é uma combinação avançada de pó facial e base líquida, compactados juntos. Para utiliza-lo, deve-se utilizar uma esponja umedecida, esfregando no produto e espalhando-o pelo corpo. Com o suor ele também não sai. O cake é a arma do maquilador, de salão, do profissional. Principalmente nos estúdios para preparar uma pessoa eles usam um pote inteiro do produto, maquilando a pessoa toda para ficar com o corpo perfeito.
Temos também o caso dos pós compactos, Cakes,
onde o artísta Antonio Pompeo, sempre tinha dificuldades na hora de
maquilagem nos estúdios de gravação de TV, então
lançamos um cake “câmara men agradece” que resolveu
o problema.
Na linha de cakes, pó compacto, temos 9 tonalidades e costumamos relaciona-las
com a tonalidade de pele dos artistas afrodescendentes, sendo que os números
mais baixos são para peles mais escuras, por exemplo cake número
1, da tonalidade do Toni Tornado, o número 3, Dona Ivone Lara, o número
7, para a raça amarela, o 8 e 9 para a raça branca e alguns
tons mais avermelhados próprio para os índios
Há na empresa uma preocupação com a diversidade pois nós temos produtos para a raça amarela, que compram o produto confiantes na nossa qualidade, assim como a raça branca. Estamos abertos para trabalhar com todas as raças.
Qual a influência da família nas suas aspirações
de empresária? Por exemplo, seu pai foi uma das primeiras pessoas a
ter um carro em Brodósqui-SP, e tinha também um bar.
As coisas de família deixam marcas, e as positivas da minha , são
que a minha mãe sempre foi muito trabalhadora e meu pai também,
apesar de ele ter morrido quando eu tinha 4 anos, sofri bastante, pois perdemos
nosso carro, nossos animais, porém era animador quando eu escutava
as pessoas dizerem que ele era uma pessoa que consertava tudo, passava filmes
na cidade.
Minha mãe usava um local na cidade onde os músicos vinham tocar
vários instrumentos como, pandeiro, violino, banjo, cavaquinho, etc.
Portanto, tive sempre ao meu redor a música e o comércio, pois
a minha mãe vendia salgados, empadas, coxinhas e os seus notáveis
pastéis.
Você conseguiu ver alguma relação entre a maquilagem, estética, e música, nas suas produções?
Enxergo uma coerência quando nós estamos vendo o belo e ouvindo uma música. A nossa maquilagem vem dar as mulheres negras a possibilidade de realçarem a sua beleza natural, e ainda ganhando um tratamento para conservação da sua pele.
Com relação aos homens, quais as reações deles perante as mulheres maquiladas realçando a sua beleza natural, e o fato deles quebrarem o tabu de usar maquilagem?
Eles diziam como você é bonita sem maquilagem. E depois passaram a dizer como esta pessoa fica bonita maquilada, vou trazer minha esposa para ser maquilada. Foi uma reação muito boa diante do produto. Os homens também entenderam que tem pele para cuidar, e começaram a adquirir produtos da nossa linha masculina. Por exemplo temos o batom transparente, que não tem nem cheiro e sabor, e na sua fórmula tem como nos demais batons da linha, própolis e cera de abelha, ou seja protege os lábios.
Como eram as escolas de maquilagem sem produtos adequados para a pele negra?
Quando ainda trabalhava na polícia, fui escalada para
fazer uma investigação na escola de maquilagem do Senac, por
haver denúncia de que não estavam aceitando alunos negros no
curso. Durante quatro meses convivi com a turma, e descobri que os alunos
negros eram segregados na hora do exame final, pois o processo se dava em
duplas e cada um teria que fazer maquilagem no outro. Como não existia
maquilagem para negros, os alunos que os maquilavam tiravam nota baixa e eram
reprovados. Mas neste período já havia estudado sobre maquilagem,
viajado para a Europa, e iniciado a pesquisa de produtos para negros. Um dia
uma diretora veio visitar a sala de aula e era negra. Pedi permissão
para experimentar o produto nela. Bem a recusa foi imediata. Então
não tive dúvida. Enchi a mão de base e apliquei no seu
rosto. Foram dois choques. O primeiro pela ousadia e o segundo pela qualidade
do produto, o qual aderiu naturalmente na sua pele.
Depois disso, introduzimos nossa linha de produtos no Senac, e somos convidados
até hoje para ministrar cursos.
E os maquiladores de TV?
Um dos fatos mais marcantes foi sermos chamados para dar aula para os maquiladores do Projac no Rio de Janeiro, para utilização dos nossos produtos na maquilagem dos personagens afrodescendentes. Fornecemos produtos para a maioria das TVs para maquilar os artistas. A própria criação dos cakes mais escuros da tonalidade do Toni Tornado, foi um apelo dos maquiladores de TV, que tinham dificuldades na hora de maquilar, por não existirem bons produtos disponíveis.
Como foi sua experiência na África?
Interessante. Estivemos em uma exposição em
Dakar na década de 90, passamos pela Costa do Marfim Guiné-Bissau
e Angola.
O que nos chamou mais a atenção foi termos de passar a maquilagem
em primeiro lugar nos homens e se eles aprovassem, poderíamos passar
em suas esposas.
Poderia deixar uma mensagem para as mulheres?
Desenvolver seu talento, mostrar a sua criatividade, espelhar-se em uma mulher que seja exemplo de força e coragem para enfrentar suas problemáticas, ir atrás da realização de seus sonhos.
Mas com estes fatores positivos, deparamos com alguns conceitos de que negros que tem bastante dinheiro não querem investir no próprio negro pelo fato de ser complexo o relacionamento.























