Em 1974, Luis Vagner lança seu primeiro "Long Play" (ou vinil, para ser mais atual): "Luis Vagner Simples", com arranjos do maestro Chiquinho de Moraes. Dois anos depois chega "Guitarreiro", produzido por Juvenal de Oliveira. Em 1978 lança "Fusão das Raças", com produção de Marcos Mainardi e arranjos do amigo Nelson Ayres. Nos anos 80 grava "Pelo Amor do Povo Novo". Em 1981 participa de uma das primeiras formações da lendária Banda do Zé Pretinho, de Jorgen Bem Jor, que impressionado com o talento do gaúcho, compôs uma música em sua homenagem: "Luis Vagner Guitarreiro", um das marcas do artista.
Em 1985, assume completamente sua tendência ao reggae e grava "O Som da Negadinha". Dois anos mais tarde converte-se ao budismo, resultado de anos de procura da espiritualidade. Em 1989 viaja para a Europa e participa do Festival de Aubervilliers e do Festival de Jazz de Viena, além de se apresentar em temporadas no Meridien Montparnasse e no New Morning, em Paris.
Em 1994, de volta ao Brasil, começou a esboçar o grande projeto Brasil Afro Sulrealista, que busca o reconhecimento da influência do negro do Sul na cultura brasileira. Em outubro de 2001 é contratado pela Paradoxx Music, do amigo e produtor Nilton Ribeiro, e lança "Swingante" e "Brasil Afro Sulrealista". Em meio aos preparativos de uma grande turnê, Luis Vagner falou ao Portal Afro, diretamente dos estúdios da Paradoxx Music.
Luís
Vagner é guitarreiro por que toca guitarra ou toca guitarra por que
nasceu guitarreiro?
Entrevista e fotos: Jader Nicolau Jr. Edição:
Milton C. Nicolau.
07/03/02
Se filho de peixe, peixinho é... não se sabe ao certo. O fato é que o irriquieto filho do Maestro Vicente Martins Lopes com Dona Sulema Dutra Lopes, também não se sabe desde quando, tomou gosto pela música e hoje, décadas depois, é conhecido como guitarreiro... É isso aí! Com vocês Luis Vagner Lopes, O Guitarreiro!
Luis Vagner nasceu no Rio Grande do Sul, em Bagé, cerca de 350 Km a sudoeste da capital Porto Alegre. Contaminado pelo vírus da música, começou precocemente sua carreira artística quando tinha 7 anos, ao vencer um concurso dançando "Rock & Roll" no Clube União Familiar, em Santa Maria, 180 Km ao norte de Bagé. Apaixonou-se pelo palco e não parou mais. Aos 9 anos iniciou "oficialmente" sua carreira como músico tocando bateria na orquestra regida por seu pai, a "Copacabana Serenaders".



Na década de setenta "Os Brasas" encerram sua trajetória. Luis Vagner foi então contratado pela RCA Victor como arranjador e compositor, produzindo para vários artistas da outrora famosa gravadora. Pouco depois, gravou seu primeiro compacto simples: "Moro no fim da Rua", produzido por Ismael Correa, o mesmo que lançou João Gilberto. Nada mal, não?

Em 1966, já em Porto Alegre, montou a banda "Os Brasas". A repercussão do trabalho foi tão boa que o grupo foi contratado pela TV Excelsior de São Paulo, participando de programas que eram a coqueluche da época: "O Bom", com Eduardo Araújo e SIlvinha e "Linha de Frente", apresentado pelos "Vips". O sucesso levou o grupo ao Rio, onde apresentaram um programa para jovens, dirigidos pelo polêmico Carlos Imperial. A fama de Luis Vagner como músico de estúdio passou a aumentar. Através do amigo, maestro e arranjador Edmundo Peruzzi, tocou com vários artistas de sucesso, como Altemar Dutra, Deni e Dino, Trio Esperança, Tonico e Tinoco, Eliana Pitman e outros.
Portal Afro - Você compôs uma música, "Negros no Sul", em cima de um poema de Oliveira Silveira. Como isso aconteceu?
Luis Vagner - Eu morava na Vila Madalena (tradicional bairro de artistas e músicos de São Paulo), na Rua Simpatia, e estávamos desenvolvendo o projeto Afro Sulrealista. Eu queria compor a música tema do projeto. Um dia um amigo me levou um papel com dois poemas e comecei a ler "Décima do Negro Peão" (o título inclusive estava errado) . Fiquei enlouquecido e falei: Nossa! Pô! Olha isso aqui! Peguei o violão e comecei a tocar... "Desde os tempos primitivos, do velho pago nascente, o negro esteve presente..." Aí foi...
Portal Afro - Qual é sua ligação com Valter Calixto, o Ogã Borel?
Luis Vagner - O Borel é um grande mestre que temos no Sul. É também uma amigo de minha família. Eu sai muito cedo de casa, com 18 anos, e não tive a mesma convivência com ele que tiveram meus pais, avós, tios... que viveram toda essa religiosidade africana. Eu, infelizmente cresci longe desses seres amados. Mas, para realizar meu trabalho contei muito com o apoio de Borel, que me mandava informações, assim como minha prima, que me fornecia valiosas fontes. Borel é uma pessoa tão improtante que fico emocionado sempre que penso nele. Ele tem uma importância muito grande em minha vida. É um grande griô de nossos tempos!
Portal Afro - Volte no tempo e responda: Naquela época, quando você era ainda um menino, tinha idéia de chegar até onde você chegou?
Luis Vagner - Eu tinha essa visão, sim. Claro que não de forma arrogante. É que desde menino eu vivi em meio aos músicos da orquestra de meu pai. Eu fui educado por eles. Meu pai sempre dizia que "o músico que não ensina soa falso ao harmonizar". Eu me lembro bem dos músicos me dando toques, de papai me ensinando a tocar... Então, desde cedo eu pude acompanhar Jamelão, Ângela Maria, Lupicínio Rodrigues e outros cantores que se apresentaram com a orquestra de meu pai. Lembro dos músicos que tocaram como ele: Caçapa, Setembrino, Evilásio Pantera, entre outros grandes negros, que viviam naquela região e faziam música da melhor qualidade. Eu tive a felicidade de viver tudo aquilo. Aqueles acordes. Eram influências de Countie Basie, Duke Ellington, Benny Goodman, Artie shaw, Perez Prado... eu ficando cada vez mais enlouquecido. E tinha também o tango, aquela coisa dramática que vinha da fronteira. Fui um menino que viveu todas essas fortes emoções. As vezes, nos meios devaneios, eu tocava sozinho, mas como se estivesse diante de uma grande platéia. Eu tocava e eu mesmo agradecia... Fazia discursos... Cresci assim, e de certa forma continuo assim até hoje. Sempre fico emocionado quando em meus shows percebo que a moçada entendeu a mensagem e percebe que estou ali por causa da música, que ela é a essência espiritual que possibilita a troca de energias.


Portal Afro - Em qual de suas composições está o acorde mais profundo que você alcançou? Aquele que ficou no coração das pessoas e na sua alma...
Luis Vagner - Está numa composição que tem quase 30 anos e até hoje ainda é procurada pelas pessoas: a música "Como", que foi gravada pela primeira vez em 1972, por Paulo Diniz. Essa música teve uma dimensão muito grande, com um acorde que as pessoas sentem profundamente e não esquecem.
Portal Afro - E qual era seu estado de espírito ao compor essa música? Foi a tradução de seu sentimento que te levou ao acorde?
Luis Vagner - Foi o sentimento daquilo que eu vivia naquele exato momento que me levou ao acorde. Eu me lembro muito bem desse dia. Eu estava completamente apaixonado por uma mulher chamada Glória Maria Aguiar, a "Índia Poti" {uma das chacretes do programa "Buzina do Chacrinha"]. Um dia nós tivemos uma pequena desavença e eu voltei caminhando para a casa, da Tijuca até Botafogo. Quando cheguei comecei a escrever sobre a impossibiliadde de negar um amor verdadeiro. De como viver sem aquilo que no momento era essencial. Essa era a minha realidade. Foi a convulsão dessas emoções internas que fizeram com que eu tirasse esse acorde, e desse acorde o canto já veio natural: "Como vou deixar você, se eu te amo..."
Portal Afro - Desde quando você percebeu que seria artsita?
Luis Vagner - Desde o momento em que percebi que eu era gente. Claro que não com esse grau de profundidade no reconhecimento disso, mas na pureza desse sentimento. Desde menino eu sempre achei que era um sucesso. Não no sentido fútil da coisa, mas na alegria de servir as outras pessoas. Quando eu pegava meu violão, por exemplo, e cantava para as meninas ou amigos, ou ia buscar carne para o vizinho, eu sempre sentia muita satisfação em servir as pessoas. Sempre dei o máximo de mim como ser humano. Sempre fui assim, desde menino. Era uma troca com a vida. Acredito que em cada pessoa que encontramos, buscamos um valor, a troca de algo que tenha o profundo como elemento mais urgente.
Portal Afro - Então essa troca com seu pai e os músicos da orquestra foi decisiva na sua carreira?
Luis Vagner - Desde
minha infância, acompanhava meu pai e o pessoal da orquestra. Eu via
os músicos tocarem e ficava apaixonado. Eram homens bonitos, feios,
estranhos... mas todos com uma sensibilidade muito profunda. E era isso que
me impressionava. No desenvolver desse processo como músico, já
que venho de uma família musical, desde cedo convivia com grandes artistas,
que eu adorava.
No decorrer do tempo acredito que exista uma volta disso, um retorno da vida.
Portal Afro - Sua música tem o reggae como base, como ele entrou em sua vida?
Luis Vagner - O reggae foi muito importante para mim. No momento em que ouvi essa música que tem uma freqüência grave rigorosa e a participação de instrumentos de ferro, metal e couro, dentro desse elemento básico que são os graves, isso me tocou profundamente. Por exemplo, no Sul do Brasil, a Milonga tem uma batida peculiar, que o reggae também tem; o Xote e a Rancheira têm acentuação no "um", o reggae também tem. Então eu me sentia familiarizado com o reggae. Parecia que eu já conhecia há tempos, que era inerente a minha pessoa.
Portal Afro - E quando examente você conheceu o reggae?
Luis Vagner - Conheci no início dos anos sessenta, através das linhas de baixo de Aston "Family Man" Barret, dois irmãos músicos jamaicanos de primeira linha, que fundiam o reggae com o soul e o calipso, assim como eu fazia ao misturar o reggae com o samba do carnaval do Sul, que chamamos Tribos. As Tribos têm um modo de tocar completamente diferente, baseado num instrumento grave, que nasceu no Sul, chamado Sopapo.
Portal Afro - Na primeira faixa do disco Brasil Afro Sulrealista, Sedusom, você começa com um solo totalmente BB King. Essa citação tem a ver com a música ou é uma homenagem?
Luis Vagner - O nome da música já diz exatamente o que eu queria: mostrar como a música é envolvente, como ela dá prazer. Por outro lado, desde menino, fui muito influencido pelos músicos negros norte-americanos, sobretudo do Blues. O Blues tem uma expressão onde se dá poucas notas. Nessa faixa trabalhei com notas longas e outras maiores. E um dos grandes especialistas nesse toque é BB King, que com um dedo - que da quase dois dos meus - tira uma nota que se ultrapassa e faz compassos grandiosos de duração longa. Optei por fazer alguma coisa nesse sentido, com esse significado, com notas que tivessem essa influência. Também por falar da guitarra, que é um instrumento que se vivencia. No piano, por exemplo, tocamos as notas que já existem. Estão lá, fixas. Na guitarra, não. Você pode vibrá-la, forçá-la junto a seu corpo, tremer com ela e todas as outras emoções que são passadas pelos dedos. Eu sempre digo que as notas são as lágrimas dos dedos.
Portal Afro - E qual é a energia que nasce do sopapo com a guitarra de BB King?
Luis Vagner - O BB king dá de quatro a cinco notas em uma música. Isso em todos os seus discos. Ele tem um modo especial de ferir a corda, de trabalhá-la, de transofrmar aquela nota, que ele bateu com uma certa intensidade, até chegar ao limite da sua vibração. E muito dessa vibração vem de sua energia pessoal. São esses os pontos que eu também quero para a minha musica, por isso não trabalho com instrumentos eletrônicos para samplear. O sopapo, por sua vez, tem essa mesma dimensão: o coro e a mão...
Portal Afro - Mas e a energia que nasce desse encontro?
Luis Vagner - E difícil explicar, mas penso que no momento em que a pessoa vai receber aquela energia dos músicos que tocam com essa profundidade sentimental, a sinergia desse momento é automática. Ela se torna um sentimento inesquecível, vibrante. Um sentimento que sobrevive.
Portal Afro - Falando nos seus arranjos, Gostaria que você falasse da música "Dr. Swing", que está em seus dois últimos discos. Em uma das versões você usa metais e na outra só guitarra! Qual foi sua intenção?
Luis Vagner - "Dr Swing" é uma música que tenta esclarecer esse papo que estamos levando, sobre como a música é quase inexprimível! No disco Brasil Afro Sulrealista, fiz uma versão com expressão numa guitarra rock, com um baixo de conotação Soul, próximo ao reggae, com piano de elementos blues jazz blues, com a participação de Paulinho Calazans. Então a música ficou meio rock meio reggae. Já em Swingante, o outro disco, fiz um samba rockado, com frases de metais sambados e funkeadas, com a ajuda de Marquinhos Faria nos arranjos e a participação de excelentes músicos nos metais, como Gil, François e Vítor. São dois jeitos diferentes de conceber a mesma música. Eu confesso a você que sou capaz de fazer dez versões em ritmos diferentes para cada música.
Portal Afro - Um verdadeiro músico nunca toca a mesma música de forma igual...
Luis Vagner - É verdade. Criatividade sempre! A gente fortifica aquele momento e faz com que esse momento se torne inesquecível. Aquilo que está nos discos já foi registrado. Daquele movimento, vem a sinergia da troca entre os músicos e as pessoas e todo o mundo. E é esse momento que dá o êxtase, a tesão de tocar e vivenciar aquele momento outra vês, de forma diferente.
Portal Afro - O Sopapo de Djalma Correa, Giba Giba...
Luis Vagner - Pois é, há mais ou menos quatro anos eles conseguiram um apoio financeiro, parece que despertaram... A falta de visibilidade dessa influência do afro-brasileiro do Sul na cultura brasileira sempre me preocupou muito. Por isso eu quis trabalhar com essa questão, fortificar essa presença. Eu acho que no decorrer desse processo de globalização, desses elementos de mídia muito forte, isto foi tolhido das novas gerações, e foi se distanciando do auto-conhecimento das pessoas na nossa região. Isso é algo que sempre me preocupou e veio desembocar justamente nesse trabalho do Brasil Afro Sulrealista...
Portal Afro - Então o grave do reggae existe no sopapo?
Luis Vagner - É um instrumento que seria o baixo nos tambores. Então, seguindo essa linha de raciocínio, fui incrementado e desenvolvendo meu trabalho, que também tem essa relatividade com o reggae jamaicano. E é aí que convivem essas coisas da África, que se espalharam por tantos lugares.
Portal Afro - Então, podemos falar, a grosso modo, que a guitarra no reggae tem o mesmo valor que o tambor para os africanos? Seria mais ou menos isso?
Luis Vagner - Seria mais ou menos isso. Tem essa mesma característica, pois os graves são os elementos mais profundos de máximo alcance interior. É o que você menos ouve e o que mais sente.
Portal Afro - Onde você quer chegar com sua música? Em suas letras você fala de consciente, subconsciente... Onde você quer chegar com isso?
Luis Vagner - Gostaria que as pessoas, a partir de mim, pudessem sentir e compreender o que é profundo e o que é superficial no artista, e a música tem esse significado. No momento em que a gente consegue, através de uma evolução interior, aprimorar o nosso "eu" , começamos a aprofundar algo que toca as pessoas que também buscam essa mesma característica. No mundo de hoje, vivemos um momento em que a música está sendo usada para a troca de informações, às vezes violenta, num processo bastante traumático. Parece que os novos habitantes do planeta vivem em permanente tensão, inclusive na informação musical. Então, essa sensibilidade que o músico tem para criar notas que toquem profundamente as pessoas, deve fazer ressurjir nessas mesmas pessoas algo que seja vibratório consigo mesmo. É uma busca profunda ao máximo da sensibilidade humana. Eu acho que a música, como outras formas de arte, quando não é ligada ao eterno, não tem um valor real. É rápida e descartável.
Portal Afro - É possível traçar um paralelo entre as músicas ditas alternativas, tipo Enya, que através de uma frequência mais aguda levam ao recolhimento, e as produzidos por você, que usa a frequência grave (e aparentemente sem recolhimento), mas que também sensibiliza?
Luis Vagner - Essas músicas meditativas e comtemplativas, são quase que totalmente desprovidas de informações rítmicas. São mais melódicas e harmônicas, com ritmo parado. Nós que temos a africanicadade em nosso viver, somos ligados pela células ritmicas de vida emergenciais. Ou seja, por exemplo, temos momentos em que a pulsação do coração chega a um nível de batimento - não sou especialista nisso, mas posso falar da maneira que eu interpreto - muito elevado. Ao mesmo tempo em que fisicamente temos movimentos muito rápidos, muito tensos, mas também malemolentes, onde os ossos, ao invés de serem estruturas rígidas e sólidas, apresentam movimentos suaves... Todo esse conjunto de coisas faz parte de nossa energia momentânea.
Portal Afro - E a onde levam essas sensações?
Luis Vagner - A música faz com que as pessoas possam vivenciar esse tipo de movimento. E esse tipo de movimento leva à saúde. Se conseguirmos, com nossa música, fazer com que esses elementos de sensualidade aflorem saudavelmente, estaremos em harmonia com a malemolência dos trópicos. É como comparar a dança de Michael Jackson com a dança de Carlinhos de Jesus. São dois elementos tremendamente diferentes, com ritmos pulsantes, mas comletamente diferentes: um é mais violernto (Jackson) e outro mais delicado. Mas ambos apresentam a mesma energia e a mesma rapidez de movimento.
Portal Afro - Então você acredita que o tipo de música que você faz conscientiza e apresenta fatos novos?
Luis Vagner - Sim. Informações novas, físicas e de saúde mesmo! Esses movimentos mais leves, que exercitam os músculos, desde o sexo e o amor que a gente faz, são movimentos que tem a mesma pulsação, são mais malemolentes - é difícil encontrar palavras para explicar isso - algo que tenha um movimento lascivo, que faz mexer com as células de todo o corpo. Se a música não tiver isso, não se conseguirá tocar as pessoas com uma certa calma. Um ritmo como a reggae music traz muito mais calma do que o rock ou o blues, que oferece dinâmicas de tensões repetitivas, de sentimentos doloridos. São essas informações que sempre busquei acoplar a meu trabalho de músico brasileiro, formado no samba.
Portal Afro - Quais foram os artistas que influenciaram sua carreira? Quem eram seus ídolos?
Luis Vagner - Desde o começo, Little Richard, Nat King Cole, Jamelão, Germano Mathias, Caco Véio e Jackson do Pandeiro eram meus grandes ídolos. Depois vieram as guitarras de Chuck Berry, dos Beatles, de Keith Richards... e eu adorava os guitarristas brasileiros: Bola Sete, Risonho dos Incríveis, Aladim dos Jordans, Renato e seus Blue Caps...
Portal Afro - E Jimmi Hendrix?
Luis Vagner - Gozado, as pessoas me ligavam e falavam de Jimmi Hendrix e eu não o ouvia... Acho que porque eu também era um visionário, um enlouquecido pela guitarra e tudo o que eu tocava, qualquer música, tipo "Atirei o Pau no Gato" ou "Parabéns prá você", colocava todo meu sentimento no instrumento e retribuia a emoção que ela me dava. Hoje em dia é muito fácil ver pessoas tocarem guitarra. O problema é que a coisa ficou massificada. Todos tocam igual. Eu considero fundamental a personalidade do músico. Quando o cara é bom, você pode estar com os olhos fechados que, mesmo assim, irá identificar seus acordes e saber quem está tocando. São as pessoas que tem o toque especial, a sensibilidade.
Portal Afro - Você começou bem novo. Como foi amadurecer como artista e pessoa? A emoção sempre esteve presente na sua trajetória?
Luis Vagner - Minhas
primeiras músicas foram "Mary" e "Jacqueline",
imagina o que era isso? Comecei a compor com 13 anos, já estava metido a compor.
Já escrevia umas coisas. Ai vem a primeira namorada e depois comecei
a evoluir, entender outras coisas e acrescentar esses elementos nas minhas
composições. Eu era jovem e começava a tomar contato
com parceiros, a vislumbrar outros horizontes através dos poetas, dos
escritores. Enfim, as pessoas que falavam coisas que até então
eu não tinha conhecimento. Em 1967 e 1968, eu vivi momentos maravilhosos
como comopositor. Foi a época em que eu comecei a pensar mais seriamente
sobre a vida, sobre minhas influências, sempre tentando encontrar em
tudo isso uma ligação com o espiritual, de forma profunda e
consciente.
Eu era um negro que tinha passado pela Igreja Episcopal, o Candomblé,
a Umbanda, o Bahaí, o Judaísmo... Todas essas experiências
foram me estruturando sobre as coisas do mundo. Até que eu encontrei
no Budismo as respostas aos meus questionamentos.
Passei por momentos de alegrias e tristezas, sempre tentanfo retratar fielmente
os momentos da vida, filtrando para as pessoas o melhor de tudo isso. Esse
era meu maior ponto de referência como artista.
Portal Afro - Que mensagem você deixa para seus fãs?
Luis Vagner - Estamos vivendo um momento conturbado no mundo, onde as filosofias, às vezes distorcidas, têm nos conduzido a uma situação onde os homens não conseguem mais conviver em paz. São equívocos que nos conduzem a morte, a destruição e a trajédia, tanto humana quanto do planeta. Enfim, devemos buscar, cada vez mais, algo que nos possibilite, com a razão, encontrar um caminho de convívio humano. Este é o ponto primordial de nossa existência. Esta é nossa responsabilidade: deixar um planeta melhor para nossos descendentes.

acorde: complexo sonoro resultante da emissão de três ou mais sons de frequência diferente.





Portal Afro - A primeira guitarra a gente nunca esquece?
Luis Vagner - Minha paixão pela guitarra aconteceu desde cedo. Eu queria tocar guitarra de qualquer jeito. O problema é que não existiam guitarras à venda. Era preciso mandar fabricar! E isso era caro. Mas eu não desistia e pedia para todo mundo! Até que em 1962 eu ganhei a guitarra. Em Porto Alegre era o sr. Adão, da Mil Sons. que fazia as guitarras. Foram exatamente 4 meses de espera. Eu ia todos os dias até lá para acompanhar a fabricação, apenas para estar perto daquela emoção. Quando ela ficou pronta, eu dormia e acordava com a guitarra. Nada era mais importante, nem as namoradas. Eu ficava o dia inteiro tocando. Como naquela época não existiam escolas nem informações, eu me tornei um autodidata. Aprendi a tocar sozinho.






















