Ivair Augusto Alves dos Santos é formado em Química e possui pós-graduação em Ciências Políticas. É assessor especial do Secretário de Estado dos Direitos Humanos, vinculado ao Ministério da Justiça. Ivair representa o Ministério da Justiça em vários projetos, entre eles o "Grupo de Trabalho Interministerial pela Valorização da População Negra". Atualmente, tem sua agenda repleta de compromissos gerados pela Conferência Mundial Contra o Racismo, que acontecerá em agosto, na África do Sul. Ivair é um dos responsáveis pelo planejamento e organização das propostas a serem apresentadas pela delegação brasileira.
Portal – Em que estágio estão os preparativos do Brasil para a Conferência Mundial contra o Racismo?
Ivair dos Santos – A organização é crescente, apesar do país ainda não estar totalmente mobilizado. Alguns estados estão realizando conferências estaduais preparatórias e há uma disposição por parte das entidades internacionais em colaborar com o movimento negro brasileiro. Estou otimista e acredito que nosso país terá uma brilhante participação na conferência.
Portal – Com relação a políticas afirmativas e de reparações, como você analisa a posição contrária dos países ricos?
Ivair dos Santos – É bom registrar que além do Brasil, existem outros países na América Latina e boa parte dos africanos que são favoráveis e lutarão por políticas afirmativas. É evidente que há uma certa retaliação por parte dos paises mais ricos. Porém, propostas conciliatórias vêm sendo articuladas e o consenso deverá ocorrer. É inevitável, e eles sabem disso, que políticas de ação afirmativa sejam implantadas o quanto antes.
Portal – Como está a articulação entre sua secretaria e a Fundação Palmares, no que diz respeito à conferência?
Ivair dos Santos – Temos uma integração muito boa com a Fundação Palmares. Estamos articulando em conjunto e consultamo-nos quase que diariamente. A convivência é excelente, não há o que reclamar.
Portal – Como se dá o apoio de organismos internacionais ao Brasil?
Ivair dos Santos - Em 21 de março aconteceu em Brasília uma grande reunião, com todos os representantes das mais importantes agências internacionais envolvidas na conferência (Unesco e Onu, por exemplo). Isso foi estupendo, pois durante um dia inteiro, essas lideranças estiveram em nosso país discutindo a questão racial.
Portal – Quem foi convidado para esta reunião?
Ivair dos Santos – Órgãos de governo, setores de decisão do governo federal e o pessoal das agências.
Portal – Qual deve ser a postura dos movimento negros para que participem mais ativamente deste processo?
Ivair dos Santos – Manter a independência é fundamental. Neste período, o discurso das entidades terá que ser profundamente transformador e não poderá, em hipótese alguma, desviar-se de seus propósitos, garantindo sua autonomia enquanto movimento social.
Portal – Qual a intenção do governo ao convidar essas entidades para conferências e reuniões por ele organizadas?
Ivair dos Santos – O governo quer a participação da sociedade civil para que nossa intervenção na África do Sul tenha legitimidade. Não se quer fazer isto à revelia das entidades negras. Cabe a cada movimento manter sua posição e opinião naquilo que acredita.
Portal – Como você imagina o Brasil após essa conferência? Que prognósticos você faria?
Ivair dos Santos – Contaremos com novos documentos, referências, organismos de financiamento diferenciados, através da intervenção do Banco Mundial, além de uma vigorosa ação da ONU nessa questão. Também contaremos com programas específicos, experiências de ações afirmativas. A conferência será um divisor de águas.
Portal – Por quanto tempo você acredita que estes projetos repercutirão na sociedade? Será que daqui a cinco anos eles ainda estarão em vigor.
Ivair dos Santos – A conferência definirá as diretrizes para os próximos dez anos, ou seja, ela será vital para o redirecionamento de todas as ações de combate ao racismo.
Portal – Como as entidades devem se preparar para usufruírem dos recursos que serão gerados a partir da conferência?
Ivair dos Santos – Terão que trabalhar com muita competência, participando de todos os eventos referentes à conferência, mesmo não estando presentes. A internet poderá ser fundamental neste processo.
Portal – Você acredita que estas entidades estão preparadas para isso?
Ivair dos Santos – O processo começa desde já. É preciso que estabeleçam metas de intervenção para os próximos meses e anos! As negociações devem ser iniciadas imediatamente. O número de projetos apresentados é muito grande. É preciso competência e clareza nas apresentações. A dica vai para os projetos na área educacional, que têm toda prioridade.
Portal – Podemos dizer, então, que muitas mudanças ocorrerão a partir da conferência?
Ivair dos Santos – Exatamente. Quem não acompanhar os processos da Conferência Mundial, terá muito dificuldade para entender as relações raciais nos próximos dez anos.


