Portal – Quais medidas poderiam melhorar a situação dos negros brasileiros?
Eumar M. Barbosa – A mais importante seria o controle da natalidade. Não podemos mais admitir a paternidade irresponsável. Se você quer ter um filho e tem condições para tanto, que o tenha. Mas a responsabilidade é toda sua. O estado ajudará até um determinado momento, mas a responsabilidade será sempre sua.
Portal Afro – Seria uma medida drástica e impopular...
Eumar M. Barbosa - A massa não é levada a raciocinar e sim a se acomodar. Quanto mais pobreza, melhor, Quanto mais miséria melhor, diz-se: "onde come um, come dez". Mentira. "Deus vai dar..." Ora, Deus não planta, não colhe e nem dá dinheiro. Ele nos dará saúde e força para lutar e alcançar nossos objetivos. Se não houver esta orientação, as pessoas continuarão a colocar dez filhos no mundo ganhando um salário mínimo!!! Somos um país com 160 milhões de habitantes e apenas 40 milhões de empregos!!! Nossa massa é muito grande e ela se perde em nossas periferias.
Portal Afro – Mas essa "acomodação" é histórica, não?
Eumar M. Barbosa - 120 anos de liberdade é um período muito curto, historicamente. Encontramos núcleos dentro de nossa comunidade que ainda estão na festa da libertação... No dia seguinte da abolição os negros perceberam que não tinham mais onde comer e dormir então, abandonados pelo poder, começaram a adotar outras posturas para sobreviver. O sinhozinho dava um cantinho para dormir, uma roupa, um prato de comida. Hoje, ainda notamos este tipo de acomodação dentro de nossa sociedade, muitos se acomodam por uma cesta básica ou uma roupa, doada a cada seis meses. Já teríamos que ter ceifado este tipo de comportamento de nosso meio.
Portal Afro – Qual seria a situação ideal?
Eumar M. Barbosa – Seria ótimo se fossemos apenas 15% da população, teríamos condições de controle e evolução muito melhores.
Portal – Este é um raciocínio técnico e empresarial.
Eumar M. Barbosa – Claro, pois sofro na pele o problema. Eu gostaria de ter 5.000 empregados mas não consigo avançar por força da estrutura do país. Estou limitado e obrigado a me restringir a um universo menor.
Portal Afro – Qual a porcentagem de empregados negros em suas empresas?
Eumar M. Barbosa – Em torno de 50%. No início eram mais, hoje há um equilíbrio.
Portal Afro – É um procedimento premeditado ou mera coincidência?
Eumar M. Barbosa – Como estou sempre em contato com o meio de onde vim, se vejo um negro com potencial, porque não ajuda-lo? Isto não quer dizer que neste mesmo meio não existam pessoas brancas com as mesmas dificuldades e necessidades. Procuro sempre ajudar, mas se não houver competência serei obrigado a dispensar, tanto faz se for branco ou negro.
Portal Afro – O senhor conhece outros empresários negros com seu mesmo nível?
Eumar M. Barbosa – Não.
Portal Afro – Então como empresário negro o senhor é praticamente isolado?
Eumar M. Barbosa - Em meu mundo profissional sim, da comunidade não. Conheço alguns profissionais liberais bem sucedidos que são mais isolados que eu. Tem um que atua em meu ramo e tem casa em Porto de Galinhas e até cavalo no jóquei, mas vive isolado. Se isso for bom para ele quem sou para criticar. Talvez ele não queira correr riscos... Para mim não serviria, mesmo correndo certos riscos não me distancio.
Portal Afro – O senhor tem planos para a expansão de seus negócios?
Eumar M. Barbosa - Já tive dias melhores... Hoje não estou envolvido com novos empreendimentos, procuro atender mais as necessidades de minha família.
O tom melancólico se justifica: Eumar recupera-se da dor causada pela perda de sua esposa, Laura Tereza Dias Barbosa, que morreu no início do ano, vítima de um câncer. Laura também atuava no mundo dos negócios e era proprietária de uma confecção, além de ser estilista e artista plástica (uma de suas telas domina a sala de trabalho do empresário). Era famosa por sua elegância e pela disposição em apoiar iniciativas de valorização da auto-estima dos afrodescendentes. Foi a principal incentivadora do Jornal "Social", do colunista José Germano de Souza, uma espécie de "Chiques & Famosos" da comunidade negra.
Portal Afro – O senhor tem filhos?
Eumar M. Barbosa – Tenho dois: Fabiana e Ricardo.
Portal – Eles trabalham com o senhor?
Eumar M. Barbosa – Felizmente, sim. Na sociedade em que vivemos, numa família de empresários, dificilmente temos filhos trabalhando junto aos pais. Geralmente eles montam seus próprios negócios. Precisamos criar o amor de nossos filhos por aquilo que fazemos. No meu caso, sou o pioneiro na família, mas tenho um ciclo, e quando terminar? Tudo o que criamos irá se perder? Não pode. Esta estrutura tem que continuar a funcionar e dar condições de sobrevivência a outras pessoas.
Portal – Em que setores da empresa seus filhos trabalham?
Eumar M. Barbosa – Fábio trabalha no Financeiro e Fabiana no Operacional.
Portal – Eles já estão preparados para assumir os negócios?
Eumar M. Barbosa – Isto demanda tempo. Não posso despejar de uma só vez tanto conhecimento e trabalho em suas cabeças. De qualquer forma, posso afirmar que eles já dominam 80% do conhecimento necessário, mais cinco anos, mais ou menos, e poderão controlar a empresa tranqüilamente.
Portal Afro – Seus filhos cresceram longe de problemas sociais e de certa forma protegidos de conflitos raciais. Eles têm a mesma consciência que o senhor?
Eumar M. Barbosa – Eles não são "guerrilheiros" mas têm consciência de quem são e do que representam para a comunidade negra, que devem produzir e servir de exemplo, relacionando-se com as pessoas de forma natural.
Portal Afro – Diga-nos três palavras que poderiam abrir as portas do sucesso.
Eumar M. Barbosa - Humildade, perseverança e família.



















Aqui o empresário cita o exemplo de Celso Pitta, que foi o último e primeiro prefeito negro da cidade de São Paulo:
Se Pitta tivesse conseguido aliar em torno de si uma massa que lhe desse respaldo social e econômico estaria protegido para realizar seu trabalho. Ele certamente faria seu sucessor e outros vereadores, além de buscar novos espaços políticos. Naquele momento seria o líder e exemplo de uma comunidade. Lamentavelmente foi levado a um desgaste de imagem que impossibilita seu retorno à vida pública. Foi induzido a compor com núcleos dentro da comunidade que não lhe dariam nenhum respaldo e as pessoas que poderiam ajudá-lo afastaram-se. Percebemos aí a estrutura dominante articular politicamente, neutralizando as lideranças. Para piorar Pitta não era paulistano, não freqüentava a periferia e nunca era visto em São Paulo nos finais de semana. A mídia, por pressão da economia que a sustenta, também deu sua contribuição ao não divulgar os pontos positivos de sua administração. É impossível que alguém tenha passado quatro anos à frente de uma prefeitura sem realizações importantes para a cidade.
COMENDADOR EUMAR MEIRELES BARBOSA
Eumar Meireles Barbosa é avis rara dentro da comunidade afro-brasileira. Fora do meio artístico e esportivo é um dos (poucos) empresários negros bem sucedidos no país. Possui cinco empresas: duas de importação, uma transportadora e outra de eventos, além da "E M B Winner", responsável por investimentos em armazéns alfandegários e pelo controle das demais. Juntas, movimentam mais de um milhão de dólares por mês. Eumar divide seu tempo entre Vitória, no Espírito Santo, sede de seus negócios e São Paulo, onde mora com a família no sofisticado bairro do Morumbi. Uma raridade, portanto.
Graduou-se em administração de empresas, contabilidade e direito. Parte de sua experiência profissional foi adquirida nos dezesseis anos em que trabalhou na área fiscal e tributária da Companhia Antártica e nos oito chefiando o mesmo departamento na Cotia Trading, uma das gigantes do setor de importação e exportação. No início dos anos 90, com 41 anos de idade e munido de todo conhecimento técnico que necessitava, abriu a Winner e entrou para um clube cuja anuidade é proibitiva para a grande maioria dos negros brasileiros.
Eumar recebeu-nos em sua filial de São Paulo, num famoso edifício de escritórios na Avenida Paulista, a mais cara do país. Apesar do prestígio do endereço as instalações são simples e funcionais, sem o "fausto" característico dos ambientes de alguns de seus pares.
A discrição, aliás, parece ser uma de suas características mais marcantes. Veste-se de forma sóbria e adequada a suas funções, mantém a voz em "mono", não ostenta adereços cintilantes e nem dá pistas que possam definir seu saldo bancário.
Portal Afro – Onde e com quantos anos o senhor começou a trabalhar?
Eumar M. Barbosa – Comecei a trabalhar com 14 anos na Torrefação de Café Vergueiro, como empacotador.
Portal Afro – De onde veio o "gosto" pelos estudos?
Eumar M. Barbosa – Devo tudo a minha mãe. Ela sempre nos orientou para que estudássemos [Eumar tem uma irmã e um irmão do segundo casamento da mãe]. O que ela via seus patrões fazerem pela educação dos filhos fazia por nós, dentro de suas condições.
Portal Afro – É possível planejar ser um empresário ou isto ocorre em conseqüência de circunstâncias especiais?
Eumar M. Barbosa - A vida de empresário é geralmente conseqüência de conhecimento, relacionamento e poder aquisitivo. É cercada de uma série de coisas que não temos noção quando somos funcionários de uma empresa. Não basta simplesmente abrir uma porta. Às vezes é preciso sacrificar o consumo da família para o negócio andar. Investir e reinvestir para a empresa crescer. Outro problema é que o país não oferece muitas garantias para se planejar com tranqüilidade o futuro para daqui a dez ou quinze anos. Não temos essa condição. Sempre estamos diversificando as áreas de atuação para poder suportar o ônus tributário, a desvalorização cambial e a inflação.
Portal Afro – Então é preciso muita experiência profissional?
Eumar M. Barbosa – Minhas atividades na Antártica, inicialmente na área comercial e depois na fiscal e tributária, sedimentaram minha formação. Para se trabalhar neste setor é preciso ter conhecimentos básicos em finanças e contabilidade, desta forma pode-se manter o controle, projetar as vendas e através delas o recolhimento de impostos. Aprendi também que nem tudo se investe na própria empresa, é preciso procurar alternativas rentáveis no mercado.
Portal Afro – Ao sair da Antártica o senhor foi para a Cotia Trading?
Eumar M. Barbosa – Exato. Na época a Cotia Trading era a maior empresa nacional a atuar em importação e exportação. Hoje ela divide espaço com outras, mas ainda é uma potência. Fiquei oito anos chefiando o departamento fiscal e tributário deles, assim tive acesso a muitas informações que me fortaleceram. Paralelamente continuei a estudar e fazer cursos de especialização.
Portal Afro – Ao entrar para o mundo empresarial muita coisa mudou em sua vida?
Eumar M. Barbosa – Tudo mudou. Minhas atividades profissionais e sociais voltaram-se totalmente para os interesses da empresa, modificando a relação que eu tinha com o mundo.
Portal Afro – Como foi o início?
Eumar M. Barbosa – Foi muito difícil. Apesar de ter conhecimento técnico, eu não tinha nenhum respaldo financeiro. A dificuldade foi grande.
Portal Afro – O senhor sentiu algum tipo de restrição por ser negro?
Eumar M. Barbosa – Quando se passa a ser independente não estaremos mais atrelados a nenhuma restrição. Se existir competência e o trabalho realizado tiver alto nível profissional não existirão barreiras. Foi assim que aconteceu em minha vida. A partir do momento que dentro da Antártica eu não tinha mais espaço para crescer resolvi sair. Não posso considerar isto como problema de cor, talvez sim, mas acho difícil, nunca senti este problema lá. Claro que já vi muitas coisas acontecerem, mas diretamente nunca senti o problema.
Portal Afro – Mas o sucesso de um negro em uma grande empresa incomoda...
Eumar M. Barbosa – Eu não me preocupava com isso, meus superiores é que devem ter ficado preocupados por existir uma pessoa com conhecimento e muita vontade de vencer. Eles não poderiam me barrar porque a própria empresa iria sentir a diferença. Se eu não continuasse no mesmo setor iriam me deslocar para outro, onde pudesse evoluir.
Portal Afro – E como foi sua entrada no mercado? O senhor teve dificuldades com bancos ou clientes?
Eumar M. Barbosa - Não seria conta em banco ou qualquer outra dificuldade que iria me impedir de avançar. Se eu não pudesse guardar meu dinheiro num banco guardaria dentro de casa, sem problema nenhum. A força de vontade aliada a minha condição de profissional me fortalecia. Quanto ao mercado, se você estiver oferecendo o melhor a seu cliente ele não irá procurar terceiros, continuará a trabalhar com você, independente se sua cor for amarela, preta, parda... Note bem, falo profissionalmente, do meio empresarial.
Portal Afro – E como chegar neste nível?
Eumar M. Barbosa – É preciso ter conhecimento e retaguarda financeira. No mundo dos negócios ninguém lhe dará um milhão de reais para montar uma empresa apenas por confiança. Você terá que buscar e conquistar seu espaço. E isso pode demorar um, dois ou trinta anos. Eu comecei minha vida empresarial aos 41 anos!
Portal Afro – Mas nem todos têm esta perseverança e equilíbrio...
Eumar M. Barbosa – Muitos não têm a calma necessária para chegar aos 40 anos e se perdem no caminho com outras ações. Não conseguem alcançar o estágio em que se tem uma boa relação com o mercado. Investem mal e se relacionam mal. Isto vai excluindo estas pessoas do processo evolutivo.
Portal Afro – O senhor freqüenta os ambientes da elite empresarial em São Paulo?
Eumar M. Barbosa – Freqüento, participo de reuniões, festas e tal, sem problema nenhum. Mas não é o meu meio.
Portal Afro – Como assim, não é o seu meio?
Eumar M. Barbosa - Não nasci com as pessoas do Gallery e nem estudei no Dante Alighieri. Meu mundo é completamente diferente.
Portal Afro – Não existem pessoas de seu mundo nesses lugares?
Eumar M. Barbosa – Infelizmente, poucos conseguem avançar. A maioria se perde por falta de estratégia de vida e orientação. Se tivessem pais que exigissem uma formação mais sólida é evidente que as coisas seriam diferentes. É claro que nem todos seriam profissionais de sucesso, mas viveriam num patamar estável.
Portal Afro – E onde estão estes poucos que conseguiram avançar?
Eumar M. Barbosa – Eles não aparecem e não se expõem por outras razões. O meio em que sobrevivem e se relacionam os neutraliza, impedindo-os de participar das ações de sua própria comunidade.
Portal Afro – Então para um empresário ou profissional liberal negro ascender socialmente ele deverá manter "distância" de sua comunidade?
Eumar M. Barbosa – Não. A distância é inerente à atividade desenvolvida. No meu caso, por exemplo, como viajo muito e me relaciono com várias pessoas, não tenho condições de participar de muitos eventos. Mesmo em reuniões familiares sou por vezes ausente.
Portal Afro – Para o senhor é importante manter este vínculo com a comunidade?
Eumar M. Barbosa – É fundamental. Tenho muitas coisas para cuidar mas não posso ceifar minhas raízes. Não posso viver num mundo falso, somente naquele meio que me dá o dinheiro para viver. É preciso trabalhar e ter uma atividade social que nos dê lazer, conforto e fortaleça nosso caráter. Isto é o mais difícil: saber equilibrar os dois lados.
Portal – O senhor sofre algum tipo de cobrança por ser bem sucedido?
Eumar M. Barbosa - Não, apenas as cobranças normais.
Portal – E quais seriam as cobranças normais?
Eumar M. Barbosa – Pedidos de emprego ou encaminhamento para amigos ou conhecidos. Infelizmente, não é possível atender nem 25% do que seja solicitado.
Portal Afro – Este tipo de apoio à comunidade deve partir de empresários negros?
Eumar M. Barbosa - Basicamente, sim. Mas é preciso ter independência. Por exemplo, um excepcional dirigente de uma empresa sueca, infelizmente (não poderia acontecer, mas acontece) não irá contratar um assessor negro, uma secretária negra, um "boy" negro, pois isso entraria em choque com o meio em que ele trabalha e inevitavelmente sofreria restrições. Às vezes as pessoas fazem isto não pela competência do trabalhador negro, e sim como forma de ajuda-lo e aí está o erro. No momento em que se planeja esta ajuda, estará se deteriorando o trabalho do profissional. A empresa oferecerá um outro com condições de suplantar aquele já contratado e a partir deste momento ele começará a perder força dentro da estrutura. Como ele sobrevive graças a esta estrutura estará subordinado a ela. Se ele fosse "independente" faria o que quisesse, assumindo os riscos. Somente com independência teremos condições de ajudar nossa comunidade, mas não será fácil. Nossa massa é muito grande e a evolução muito pouca
Portal Afro – A baixa escolaridade seria o principal empecilho para a evolução?
Eumar M. Barbosa – Quando notamos crianças com educação deficitária percebemos que isto é um reflexo da péssima educação dos pais, que por sua vez sofreram também as conseqüências das deficiências de seus pais...
Portal Afro – Sem uma formação básica consistente os negros não conseguirão avançar como empreendedores?
Eumar M. Barbosa -O problema é que vejo as pessoas darem saltos sem passar por um processo de aprendizagem e formação. Não se pode começar a plantar hoje e amanhã montar um restaurante. É preciso primeiro ser dono da chácara, garantir a qualidade do produto e ter o melhor preço. Depois adquirir sua própria banca no Ceasa e avançar naturalmente, até chegar ao restaurante. Vejo as coisas serem desenvolvidas, montadas e interrompidas por falta de planejamento e estrutura. Se faturarmos R$ 1.000,00 temos que gastar no máximo R$ 800,00, poupando o resto para emergências. Não se pode jogar responsabilidades para ganhos futuros.
Portal Afro – Desde quando o senhor tem esta visão?
Eumar M. Barbosa – Desde sempre. Minha mãe me criou assim. Nunca extrapolei meus limites. Não preciso ter um helicóptero, um iate ou um avião, tenho é que fortalecer minha estrutura. Nossa economia é instável e num determinado momento posso sofrer uma paralisação de minhas atividades. Economicamente terei que suportar pelo menos a manutenção do básico, ou seja, meus funcionários.
Por conta de seus negócios, Eumar viaja regularmente ao exterior. Um de seus destinos mais freqüentes são os Estados Unidos, onde mantém contato com vários empresários e tem a oportunidade de conhecer particularidades da comunidade negra daquele país. A comparação é inevitável:
Portal Afro – Por que os negros norte-americanos estão em situação melhor que a dos brasileiros? É uma questão de auto-estima?
Eumar M. Barbosa - O negro norte-americano conseguiu a liberdade através de luta, batalha e guerrilha. Isto é uma forma de fortalecer a auto-estima, buscar seu espaço. Nos Estados Unidos os negros se fecham em guetos e não cedem, morrem e não cedem. Para chegarem a este ponto se formaram, buscaram seu espaço, passaram a produzir e se fortaleceram economicamente. Hoje "exigem" da estrutura política e econômica do país o comprometimento de servi-los.
Portal Afro – Isto nunca acontecerá no Brasil?
Eumar M. Barbosa – É claro que iremos avançar, mas será um processo lento. Dependemos da classe dominante e ela não nos dará nada gratuitamente. Nossa massa é muito grande e o que conseguimos é muito pouco para ser distribuído. Em todos os setores do governo somos poucos. No meio empresarial quase inexistimos. Se falarmos do topo da cadeia econômica será ainda mais grave: não temos negros donos de banco, de montadoras de automóveis, de redes de grandes lojas e nem de shoppings. Precisamos disto para incentivar nossa comunidade. Não bastam apenas negros de sucesso nas artes ou no esporte. A sociedade é composta por profissionais de diversas áreas, temos que tomar conta de nosso espaço e não ficar brigando com o branco, que poderá ser um aliado. Vamos montar um banco e se os brancos não quiserem entrar, mesmo oferecendo-lhes a melhor taxa de mercado e o melhor atendimento azar deles, continuaremos atendendo nossa comunidade, que nos apoiará. Infelizmente isto não acontece... Hoje em dia quando um negro consegue certa projeção todos procuram destruí-lo, ao invés de ajuda-lo e somar com ele.
Portal Afro – Uma destruição deliberada?
Eumar M. Barbosa - Sim, preconcebida pela classe dominante. Perceba que não temos lideranças e todas que nascem são levadas a uma posição econômica na sociedade sem retorno. Por exemplo, um líder sindical que de metalúrgico chega a presidente de seu sindicato passa a morar melhor, vestir melhor, ter uma outra formação e novos relacionamentos na sociedade. Começa a viver uma vida que ele e sua família nunca haviam sonhado. Quando ele for levado a somar com qualquer estrutura que seja contra sua índole e ele tentar refutar seu próprio meio, será levado por sua família a adotar uma posição de neutralidade ou, por acomodação, de continuísmo. Assim, ele não voltará a ser um líder dentro de sua comunidade. Desta forma vão se matando os líderes.
Portal – O senhor é religioso?
Eumar M. Barbosa – Sou católico apostólico romano.
Portal – A religião é fundamental em sua vida?
Eumar M. Barbosa – A religião nos dá tranqüilidade. Ajuda-nos a ter consciência da vida e isto é muito importante. É preciso ter isto em mente para se ter equilíbrio, não se desesperar e botar tudo a perder. Por isto falamos em Deus, acendemos uma vela, vamos à igreja, assistimos uma missa, vamos a um centro espírita, enfim procuramos maneiras para descarregar a energia negativa que eventualmente passe por nossa cabeça.
Portal Afro – Emoção não combina com negócios?
Eumar M. Barbosa – Profissionalmente tenho grau zero de emoção. Aqui dentro tenho a obrigação de ser profissional, não posso manter um funcionário incompetente por conta de meus problemas emocionais.