























ELKE
DIVERSIDADE QUÂNTICA MARAVILHA
entrevista do dia 18/06/07 - São Paulo - Jader Nicolau
Jr.
postada no dia 23/08/07 -inauguração da exposição
Elke Quântica Maravilha em São Paulo
PA - Poderia selecionar do seu subconsciente as sete Elke Maravilhas emoções? Poderia fazer uma retrospectiva das coisas boas gravadas em seu coração?
ELKE – Ah! Não são sete não, são
sete milhões!! ( risos) São tantas as emoções!!!
Mas não dá não, pois sou uma pessoa que vive intensamente
cada dia, então não dá para resumir em sete.
Na realidade a minha maior emoção, com certeza é conviver.
Não viver, que é uma rotina diária. Mas o conviver com
pessoas, aprender com pessoas é o que eu mais curto nesta vida.
Sou privilegiada, pois viajo muito. Meu trabalho já me leva para viagens.
Tenho
muita sorte pois pessoas muito, muito especiais, ficam minhas amigas, convivem
comigo. Então vivo no céu com a bunda de fora.(risos)
Pessoas incríveis, algumas eu até gostaria de tê-las conhecidas
pessoalmente, mas elas foram embora antes. Gostaria de conhecer as sete bilhôes
de pessoas do mundo.
Penso que somos um só neste mundo. Você é parte de mim,
minhas amigas são parte de mim, algumas partes de mim eu não
gosto muito. O estruprador é uma parte de mim. Não gosto mais
tenho.
PA - Nossa vida tem certas coisas que ficam registradas. Pois para cada ação tem uma reação que fica registrada, fica cravada, nos marca. O que pode nos trazer mais da sua vida?
ELKE – Tem uma lembrança que remete aos animais. Meu pai sempre dizia;:aprenda com a mãe natureza que ela pode te ensinar muito
PA - Mas conte-nos mais sobre o que tem no seu âmago.
ELKE - Não tenho muitas lembranças da minha primeira infância.
Eu me lembro que tinha medo de papai noel. O ronco de meu avo alemão.
Quando tinha uns seis anos na viagem para o Brasil, de navio ficava a olhar
os delfins. Ficava encantada. Eles tem a ver com o meu signo, sou de Peixes.
Mas antes do signo ser chamado de Peixes, eram delfins, pois salvaram Castro
Hipolatus.
PA- E o seu contato com os negros como foi?
ELKE - Nos fomos a última leva de imigrantes,. Chegamos
em 1951. Atracamos na ilha das Florês na Baia de Guanabara (hoje tem
um quartel lá). Lá o imigrante chegava, fazia os exames médicos,
para não contaminar o Brasil com algumas doenças, e só
saia de lá quando arrumava emprego. O meu avô arrumou emprego
logo, porque sabia construir aviões pequenos e foi trabalhar no Galeão.
Antigamente
lá
se contruia aviões pequenos, “Teco-Tecos” .
O meu pai escreveu para um jornal Brazil Herald´s, era em inglês,
ele queria continuar a vida no campo, aqui no Brasil, e terminar os estudos
dele de agronomia, e procurava uma roça para ele cuidar. Ai veio uma
família do sul do Brasil, de colônia estrangeira, de russos e
alemães. Mnha mãe era alemã e o meu pai russo. Esse pessoal
queria levá-lo. E meu pai disse não, pois veioi aqui para ser
brasileiro. Não queria ficar com um pé lá e outro cá.
Se lá fosse bom ele teria ficado. As pessoas não gostaram muito,
mas ele afirmou que veio para se tornar um brasileiro.
Depois veio o sr. Amintas de Morais, mineiro de Itabira. Tinhar uma fazenda
em Minas Gerais chamada Kubando, nome africano; - ela está um pouco
abandonada. Mas se o sr. quiser trabalhar nela, pode levantá-lá.
Tem um problema lá, não sei se o sr. vai aceitar, pois de repente
ele viu uns “bicho de goiaba “ igual a nós, “leitão
azêdo”. Então meu pai perguntou qual é o problema?
Ele disse, pois é lá só tem negros. Meu pai respondeu:
Viraremos negros.
L á começou nossa vida no Brasil, um grande aprendizado.
PA - Você pegou a implantação da Vale do Rio Doce por lá?
ELKE – Não ela já existia. Meu pai era
um idealista .Ele viu que lá o pessoal da roça era analfabeto
e sub-nutrido. Analfabeto até entendo pois muitos lugares que se diz
que são muitos instruídos, tem analfabetismo. Mas como pode
na roça, ter sub-nutridos?
Então ele fez um estudo de solos brasileiros, e começou a observar
oomo elas viviam e comiam. Notou então, que havia resquisios da escravidão.
Porque o patrão não queria que o negro tomasse o leite. Então
temos; - “Manga com leite mata”, e outros ditos populares na alimentação.
Na tentativa de quebrar estas crenças, colocava uma mesa em frente
de casa, e passava a comer manga desesperadamente e tomava leite. E todos
ficavam desesperados, e diziam: - Dr. Jorge o sr. vai morrer. E ele respondia:
- não sou dr., sou Jorge. E após a comprovação
de não ter morrido eles disseram: - Ele não morre porque é
estrangeiro (risos)
Então ele pensou que o pessoal precisava de um complemento alimentar
e pelos estudos dele, descobriu que a soja era um alimento altamente protéico.
Na época no Brasil não tinha soja e ele importou sementes, que
não me lembro de onde, e fazia uma mistura de soja e milho. Ele chamava
de somi, pois o milho é energético e a soja protéico.
Ele amassava aquilo e dava para as pessoas comerem. Só que a maoria
ficava muito desconfiada. Pensavam; pensavam o que este estrangeiro quer com
a gente.
Mas o dr. Mauro Alvarenga, o mais conhecido médico da cidade, e sabe
como é, médico manda em cidade pequena, comprou a briga do meu
pai. A partir dai, diziam: - se o Dr. Mauro assina em baixo, então
agente come.
Eles acabaram com a subnutrição. Com o analfabetismo também,
pois convocaram voluntários para dar aulas de alfetização
em seus horários livres. Ficaram entusiasmados com o resultado obtido,
onde eles moravam e pensaram logo em seguida, por que não acabar com
a subnutrição e analfabetismo no Brasil.
Fizeram um projeto mostrando que era barato e fácíl fazer isto.
Na época o Brasil tinha em torno de 50 milhões de habitantes.
Levaram então, o projeto para o sr. Tancredo Neves, que era ministro
do Getúlio Vargas. Claro que o Tancredo não quis levar isto
para o Getúlio Vargas. Mas meu o pai e o Dr. Mauro não queriam
nada para eles.
Mas o pior foi que uma semana depois arrancaram a força toda a plantação
de soja do meu pai, dizendo que o Brasil não podia ter soja e jogaram
uma bomba na casa do Dr. Mauro Alvarenga.
E olha ai o resultado ( hoje o Brasil é um dos maiores produtores de
soja do mundo e a soja é utilizada como complemento alimentar em muitos
programas de nutrição no pais.)
Meu pai dizia: - Olha minha filha quem não investe em educação
não sabe o preço da ignorância.
PA - Quais as influências refletidas na sua família
com a convivência entre os negros da fazenda e região?
ELKE - Eu tenho a influência negra muito grande.
No inicio fiquei com muito medo
Quando chegamos na fazenda, meu pai disse para eu brincar na casa deles, de
casa em casa. Na primeira e segunda vez não quis ir. Na terceira, foi
um tapa só. E tive de ir forçada. Me pegou pela mão,
me arrastou até lá e disse que passaria para me pegar depois
de tantas horas.
Mas aconteceu que quando ele voltou eu não queria mais voltar para
casa. Estava muito bom.
Eu gosto muito da coisa tribal. Eu sou uma pessoa tribal. Já percebi.
Eu gosto muito destas coisas de contar histórias boca a boca. E o negro
é tribal. O negro não é de sociedade ele é de
comunidade. As sociedades são regidas por leis, que geralmente não
são cumpridas. As comunidades ou as tribos elas são regidas
por outros tipos de leis. Mais afeto. E percebo que o negro é assim
até hoje.
PA. Como você pode diferenciar o griot do intelectual?
ELKE
- Essas pessoas na realidade eram de um tempo que não tinha a escrita.
Então os griot vinham, contavam as histórias, e através
dessas histórias eles também educavam as pessoas. Isto acontecia
também entre os índios. Eles contavam uma história, por
exemplo de uma criança desobediente. Mas eles não diziam que
era você, a criança já botava a carapuça e ai se
educava. Essas pessoas além de contar a história boca a boca
eles também faziam a história. E eu adoro estas coisas.
O intelectual na realidade tem muito poucos em nosso pais. Agente tem pessoas
que armazenam informações. E usam estas informações
de vez em quando, sei lá, para se dar bem, ai eu sei mais do que você.
Aquelas coisas! (risos)
Mas essas pessoas contadoras de história, eles vão lá
na alma, e algo mais de sabedoria do que... ou seja é mais do coração
do que do cérebro.
PA - E você se considera um griot ou uma intelectual?
ELKE– Não sou nenhum nem outro. Estou ainda querendo ser alguma coisa. (risos)
PA – E com referência aos conhecimentos que se adquire. Você é uma pessoa que viajou bastante, fala 8 idiomas. Como é sentir-se com todo este conhecimento, com vontade de transbordar, expandir, como é ter esta ebulição dentro da gente. E também aquela outra pergunta, por que eu ? Tenho tantas coisas assim. Como posso ajudar as pessoas? Você se pergunta também?
ELKE–
Claro!! Claro!! Com certeza. Já percebi, que invisto tudo em conhecimento
toda a minha vida. Não sou uma turista normal. No Egito não
observo apenas as obras faraônicas das pirâmides. Mas no Cairo
sento no parque e fico observando como eles tratam os velhos. Como lidam com
as crianças. Pergunto, vou conversar, vou aprender. No Japão.
Tive o privilégio de trabalhar lá, então aproveitei para
conhecer também. Gosto de ver os templos, mas gosto de saber como é
que é?
Então este mundo é como um quebra cabeças. Cada povo
é uma parte deste quebra-cabeças. Se agente souber juntar isto,
agente faz o mundo
PA – Falando nisso, como é o seu mundo no palco? O seu mundo na criação? Seu mundo na interpretação? Misturando tudo isto? Quando você vai e observa, tem um papel a interpretar tudo isto vem a tona?
ELKE
- Vem! Com certeza. Isto me acrescenta muito.É muito diferente, é
aquela história que o Kunt dizia. Que cada língua que se fala
é uma língua que se vive. E é. Não é simplesmente
uma língua. É o caminho da alma da pessoa que é a língua.
O alemão fala de um jeito. O russo fala de outro. O alemão ama
de um jeito, o russo ama de outro, o português de outro, o brasileiro
de outro, o africano de outro. Por conta desse logos, do grego. E isso me
ajuda muito. O índio vai sentir as coisas de uma outra forma, porque
ele vai dizer as coisas de uma outra forma.
PA – Você convive bem em ter o conhecimento e o relacionamento com as pessoas. Será que o todo o conhecimento que adquirimos, o grupo observa muito. Isto é bom para o relacionamento ou atrapalha?
ELKE
– É muito bom. Entrar na alma das pessoas é muito bom
é necessário. Viajar e entrar em um shopping para fazer compras...shopping
nós temos aqui.
Sou daquelas que entro nos lugares, vou ver, converso, vou nos butiquins.
Medo de dirigir agente não tem. Só medo das estradas, meu pai
me ensinou a dirigir. Mas já tive medo em uma estrada na Bolívia.
Adoro o povo boliviano. Eles são o terceiro povo no meu conceito. Primeiro
são os brasileiros, e em segundo os gregos. Gente os bolívianos
são incríveis. Se você quiser saber de ética deve
ir a Bolívia e ao Japão.
Portanto o conhecimento no relacionamento é muito importante, percebo
que tem um muito melhor do que ali, ele esta ensinando isso, mais aquilo,
eu tenho de pegar isto dele, tenho de aprender com ele.
Tem uma coisa importante quando agente viaja.
Importantíssimo!!. Esquecer quem você é e de onde
você veio. Raiz é para árvore meu amor!!! Nós não
nascemos para ser árvores, nós somos ícaros. Nós
temos de arriscar, nem que agente se esburrache. Raiz fica debaixo da terra.
PA – Então qual a raiz do povo brasileiro?
ELKE - Eu não falo em raiz!! Eu gosto de aprender a história e histórias do povo. Raiz eu não uso para gente. Raiz é para árvore.
PA – Aquilo que esta dentro das pessoas é um conhecimento que não deve se atrelar a locais?
ELKE – Não a locais, não a gênero,
não a nada. Conhecimento ele não pertençe. E ninguém
conhece nada melhor do que ninguém. Claro que de algumas pessoas eu
tenho de aprender, isso e aquilo, e de outras não quero aprender nada.
Não quero ser assim. Isto também é um aprendizado.
Teve países que disse, que coisa estranha.Que bom . è assim
que eu não quero ser.
PA - O relacionamento das etnias no Brasil é algo que temos que aprender a respeitar. Então como você encara o relacionamento das etnias em nosso pais?
ELKE - Eu acho que o Brasil tem uma missão maravilhosa
de ensinar o mundo uma possibilidade de integração. Claro que
nós temos só 180 anos, nascemos em setembro de 1882. Não
se faz uma nação com este tempo. Isto não existe.
Eu percebo que existe racismo sim. Só como o brasileiro tem vergonha
de ser racista, ele não assume que é racista. Antigamente eu
achava ruim nisso. Um dia pensei diferente. Que bom que ele não assume.
Se tem vergonha que é racistas é porque sabe que esta errado.
Os outros povos assumem que são. Não tem mais jeito. Calcificou
e acabou. Pacote fechado.
Então o Brasil tem esta possibilidade. de mostrar ao mundo uma possibilidade
de integração.
PA – Esta possibilidade de integração, você acha que é construída através da dissiminação do conhecimento? A falta de conhecimento é um empecilho muito grande?
ELKE - É empecilho! A convivência com o diferente
é a coisa mais importante. Você me vê e querer aprender
o que sou. Olhar e ver que o outro é melhor do que eu nisso. Quem sabe
vou aprender com ele. Ou com o negro, com o indio, ou com o gay. É
diferente, mas o que ele tem?
O ser humano é o único animal que não sabe o que veio
fazer na Terra. A barata sabe, a minhoca sabe, o gato sabe. Para não
dizer que Deus errou com a gente, ele nos fez incompletos. Estou sendo até
boazinha. Mas acho que ele errou na mão mesmo.
Então ele nos fez incompletos. E a gente tem de se completar por dentro
e por fora..
PA - Mas nesse sentido temos o sagrado e o profano.
ELKE– Onde começa um e até onde vai o outro?
PA – Você pode nos falar um pouco da sua peça – Do sagrado ao profano? E em que mundo nós vivemos hoje? Sagrado ou profano?
ELKE– Nosso trabalho chamasse do Sagrado ao Profano,
dirigido pelo Rubens Curi e a Gandia Silva também é uma colaboradora
nossa. Temos agora três músicos, o Daniel Maccaferri, Leandro
Ferro e o Yuri Steinhoff. Isto é Brazil. (risos)
Nós fazemos 14 músicas, entre elas, Sueli Costa, Antonio Nóbrega,
Villa Lobos.
PA – Tem Itamar Assunção?
ELKE – Uai!! Claro!!!Né!!! Itamar não
pode faltar. Itamar é uma das pessoas que mais me ensinou na vida.
Poxa!! Itamar é uma coisa, um sujeito ótimo...(emoção)
Tem música de umbanda. Canto para mamâe Oxum. Mas sou de Nanã
Fazemos música alemã, russa, argentina.
Textos de Drumond, Cecília Meirelles, do Sacha meu marido, ele é
muito bom compositor, um pedaço do apocalipse de São João,
texto de Pentelho, do Carlos de Assis Trindade.
Nisto puxei um pouco do russo. O de melhor no russo.
O russo não é como o brasileiro, que exige dele mesmo e dos
outros uma coerência. Isso é sempre. Tem de ser coerente. Se
você é triste, tem de ser triste a vida inteira. Se é
alegre a mesma coisa. Senão se você estiver triste, logo perguntam,
o que aconteceu?
O russo é um povo diferente, em cinco minutos ele é triste,
alegre, enche a cara, chora, ri, ele dança. E isso é muito do
nosso espetáculo. Porque mostramos todos os lados. Isso é muito
eu.
As pessoas dizem uma mulher tão culta. De repente ela fala Homero em
grego antigo na sequência uma bobagem, solta um palavrão. As
pessoas acham meio estranho, mas já estão começando a
entender. Sei lá!!!
PA - O espetáculo foi escrito para você, ou por você? Pois pelo jeito a sua vida se encaixa nele. Qual o impacto do espetáculo nas pessoas?
ELKE - O espetáculo foi idealizado pelo Rubens Curi
e por mim. E claro todo mundo tem de dar palpites.
Não somos o dono da verdade Ouvimos a opinião das pessoas, e
não importa a posição social delas.
Tem textos que o Rubens escreveu, ele tem a propriedade de escrever muito
bem. Eu não. Mas eu falo o texto do meu jeito. Ele organizou, eu falo
do meu jeito, mas tem textos *que não podem ser mudados, e eu decorei
. Existem textos sobre a negritude, por exemplo como seria o Brasil sem o
negro, texto sobre os gays, os seguimentos culturais nossos. Mostrando esta
coisa de um aprender com o outro, aprender com as diferenças. Claro,
que tinha de ter música argentina. Mesmos porque nos somos vizinhos.
Aliás eu não entendo como a nossa segunda língua não
é o espanhol e sim o inglês. Não consigo entender. Na
russia tem uns oito anos as crianças, loirinhas de olhos azuis, estão
aprendendo mandarim. Porque o vizinho é a China. E nós temos
todos os vizinhos falando o castelhano, e não se dá a menor
importância. Essa coisa tem muito que descobrir da alma humana.
No Rio recebemos uma crítica que diz que nosso espetáculo é
para acordar as almas mortas. Fiquei “com a bola cheia”, adorei.
PA –Então o mundo de hoje é sagrado ou profano na sua concepção?
ELKE– Na minha concepção, ele esta um pouco desequilibrado, mais para o profano, porque o sagrado esta um pouco esquecido, porque Deus virou dinheiro.
PA – Mas qual que é o certo o sagrado ou o profano?
ELKE – O equilíbrio entre os dois. Depois que
o americano inventou “ Time is money” (tempo é dinheiro),
O tempo na antiga Grécia era o Chronos – pai de todos os deuses,
respeitadíssimo. Na cosmogonia do panteão africano, temos o
Olorum, tão reverenciado.
Ai chegou o americano com o Time is money.
Dinheiro não é ruim mas usá-lo só para TER! ...Devemos
usar o tempo para ser. Quando comecamos a usar o tempo só para ter,
as alminhas começaram a ficar meio ...(cara de indignação).
Aliás eu tive um insight a tempos atrás.Eu olhei para as pessoas
um dia e pensei; Meu Deus nem todo mundo tem alma.
Assim!!! Levei um SUSTO!!! Então fui perguntar para pessoas entendidas
no assunto se meu insight estava certo. Fui voto vencido. Todo mundo tem alma.
PA - Como você vê a troca de conhecimento da cultura européia e a africana? Quem aprendeu com quem aqui no Brasil?
ELKE
– Esta provado científicamente que nós viemos da África.
Já fomos daquele jeito.
Eu pessoalmente gosto do oral. Eu sou uma pessoa oral. As pessoas me perguntam
porque eu não escrevo um livro. Eu afirmo que não sou de escrever.
Elas dizem é só você ditar que nós podemos escrever.
Mas eu continuo a dizer não pois eu conto para quem eu tenho vontade.
Para algumas pessoas eu não estou afins e tem coisas que se deve dar
e não vender. Outras precisamos vender, mesmo. Se eu tenho algum conhecimento
tenho a obrigação de passar.
PA – E o medo de passar? Tem pessoas que acham que vão passar seu conhecimento e perder a sua posição?
ELKE
– Não ao contrário tem a obrigação de passar.
Claro que nem todo mundo ouve. Quem está sintonizado em uma rádio
não ouve a outra. É questão de sintônia. O mérito
não está em quem fala, está em quem ouve.
Uma situação que está feita no Brasil é a falta
de ligação entre as almas. No Rio de Janeiro, a sorte dos brancos
e o azar dos negros. É que a maioria dos pobres do Rio são negros.
Pois se fossem loiros de olhos azuis, o banho de sangue que já teria;
morre gente a bessa. Mas o banho de sangue seria muito feio.
Tem os lá de baixo, pois os outros estão vivendo na acrópoles
que é a parte alta e tem o controle, sabem tudo que vai lá em
baixo, e tudo que vai na alminha pois trabalham nas casas. A gente aqui em
baixo, a não ser uma meia dúzia de gatos pingados, não
quer saber o que vai na alma deles lá.. Eles sabem de tudo que vai
nos nossos podres . E olha que são legais demais. Obrigada negros porque,
olha.... O negro por essência e por cultura ele não é
retaliador, vide Nelson Mandela, que é um dos meus ídolos.
PA – Então das sete Elke Maravilhas emoçôes, você pode considerar Nelson Mandela com uma das suas grandes emoções?
ELKE
– Eu tenho dois hoje em dia. Quer dizer o meu ídolo de antigamente
era Alexandre o Grande. Um homem total ele não tinha... Se você
queria um homem ele era, se uma mulher ele era, um homem boníssimo,
ele era, um homem mau, ele sabia ser na hora certa. Se queria um sábio
ele era, um porra loca, ele era, “enchia a cara”, quebrava tudo.
Porque todos nós temos esta totalidade mas a gente resvala, ficamos
sempre no mais ou menos. Quando agente tem de ser muito bom, agente não
consegue, por que não conseguimos ser mau também. Como fica
a minha imagem se mostro o meu lado mau. ( cara de admiração).
Hoje em dia gosto muito de Nelson Mandela e Bin Laden!!
PA – O que você viu na história de Nelso Mandela? Você já teve contato com ele!!
ELKE – Eu JÁÁÁ!!! Tem uma foto que saimos juntos na capa do Jornal do Brasil. Na primeira vez que ele veio para o Brasil, ele ainda estava casado com a Winni Mandela.
PA – De todas as palmas que já recebeu até hoje, imagine você entrando e saindo de todos os espetáculos que fez contando palma por palma. O que você construiu nisso? Uma flor, um jardim florido a ser construído? Como você vê o resultado de suas ações, de todo seu esforço, de todas as emoções que deixou por ai? Que flor que resultou disso tudo?
ELKE – Meu filho. Ainda está pequeninissíma
esta florzinha ( fala mostrando os dedos indicador com o dedão juntinhos)
Tem muito ainda a ser construído. Quanto mais agente conhece, percebe
que tem um mundo maior para descobrir. O conhecimento é um poço
sem fundo. Não tem jeito a gente vive aprendendo, aprendendo e morre
sem saber nada. Tem muito a ser construído.
PA- Com relação a cultura africana. Que destaque que gostaria de dar, que influenciou você?
ELKE – A douçura. Países que tem negros
são mais doce do que os que não tem. A Argentina, não
tem negros. Os que tinam mataram.
Eu tenho sempre a impressão que o africano esta olhando para a minha
cara e dizendo assim: Coitadinha ela se acha (gargalhadas).
E o branco se acha mesmo, pois ele “é fogo né” .
Eu estive em um ensaio e o negro com certeza é água. Pois a
água se adpta. Quando esta frio fica sólida, quando está
muito quente evapora, quando esta normal fica líquida. O índio
claro que é terra. A terra ela racha ás vezes. O amarelo é
o ar. A tecnologia começou toda com os amarelos. A tecnologia nossa
moderna, começou lá com o s chineses, a bússula, o macarrão.
E claro o branco é o fogo. O fogo é uma faca de dois gumes.
Ele pode transformar. Ele é transformador. E le pode transformar ematita
em ferro. Mas também pode queimar tudo.
Uma coisa agente devia aprender com o negro. Quando não está
muito legal, ele diz mas não é bem assim...Mas olha estou na
avenida dançando. É o melhor de nós brasileiros. O maior
espetáculo da Terra. É uma procissão africana. Eu vejo
assim.
O primeiro dia que sai em uma escola de samba eu pensei , é uma procissão
africana. Perguntei para os integrantes da Velha Guarda da Salgueiro: - gente
eu estou louca? Mas é uma procissão africana?
A comissão de frente pareceram os Exús. Mestre Sala e porta
bandeira, o Mestre Sala, parece um Ogun. As baianas, pretas velhas, O Sagrado
e o Profano. Eles disseram é isso mesmo.
Agora esta meio desequilibrado. Tem muito branco no Samba. Branco de mais.
Um pouquinho esta bom. Mais é branco branco. Não é branco
como eu que quer aprender.
PA – O que você tem a dizer as pessoas brancas que ainda não entenderam a questão da convivência com os negros, que estão alienadas da importância do negro na construção do país?
ELKE–
Lembrei de uma sabedoria chinesa que o Rubens Curi me passou um dia. Um cara
chegou para o mestre chinês e disse assim: - Mestre eu gostaria tanto
de amar como é que eu faço ? Amar é muito difícil.
E o mestre respondeu que não é tão difícil não,
é só prestar atenção. (risos) É só
prestar a atenção.
Eu sei que o ser humano já desventou o tesão a posse, o ciúmes,
enfim, é difícil chegar no amor. Não é fácil.
Agente só vai ser ser humano quando chegar no amor. É aquela
coisa de exercitar. Mesmo que a gente não tenha chegado, vamos tentar.
Ver a cor é tão periférico, tão elementar. É
muito ridículo. È muito ridículo ter preconceito racial.
Nesta altura do campeonato. E gente burra. Mas burrice tem limite
PA –Na análise dos limites o que devemos considerar com a evolução do ser humano. Devemos ser pacientes com a evolução , ou seja temos de ter paciência com estas pessoas? Tem tempo ainda?
ELKE
– Tem muito tempo. O infinito.
É porque nossa vidinha aqui na Terra é limitada a no máximo
em 100 anos. Nós vamos chegar lá. O ser humanao tem apenas quatro
milhôes de anos aqui na Terra. É muiro pouco. Para agente parece
muito. Mas para a mãe naturea que é infinita é pouco.
Um peito. Claro que as vezes agente fica impaciente. Mas é nada.
PA – O que você teria a dizer para pessoas negras que acham que não existe preconceito?
ELKE
– Penso que todas sabem que existe. Inclusive frago amigas minhas negras
em situações incríveis de preconceito. Vejo o que tem
de ser trabalhado é além da auto-estima é o respeito
por si mesmo
Exposição junto com artístas plásticos do Rio de Janeiro
"E o camaleão, atento à tudo, observaria a execução da tarefa atribuída a Orisanilá para reportar os fatos à Olodumaré." Trecho da cosmogonia dos Iorubas, onde o cajado(opasorô) foi usado por Olumaré na sua missão de criar o mundo AIYÉ = Terra o mundo físico, o universo concreto. Mas o cajado com o camaleão é utilizado entre os Iorubas por aqueles que são artistas.




