Edna Roland: "Dos tambores de Codó às Tribunas de Durban"
Fotos e entrevista: Jader Nicolau Jr. - Edição: Milton C. Nicolau
10/02/02

A III Conferência Mundial Contra o Racismo pode não ter repercutido da forma que se imaginava, seja pelo boicote de algumas potências ou pelos estilhaços dos atentados de 11 de setembro aos Estados Unidos. De qualquer forma, para a psicóloga Edna Maria Santos Roland, a conferência foi a coroação e o reconhecimento de anos dedicados à militância pelos direitos da mulher e dos negros: Edna Roland foi nomeada a relatora geral da Conferência.

Edna Roland nasceu em Codó, uma pequena cidade no interior do Maranhão, 290 km ao sul da capital São Luís. Codó é considerada a terra dos tambores e um santuário de tradições afro-brasileiras. Ser maranhense é motivo de orgulho para Edna, que sempre ressalta que apesar do estado talvez ser o mais pobre da união, é também um dos que concentra a maior população negra do país. A mãe de Edna morreu quando ela tinha 6 anos. Depois, ela e a irmã foram criadas por uma das irmãs de sua mãe que, conforme a tradição daquela região nordestina, acabou se casando com seu pai. Ele, por outro lado, foi a principal referência de sua vida. O pai de Edna Roland era guarda-livros (uma espécie de contador) e comerciante, propietário de uma pequena loja em Codó. Trabalhava durante o dia na loja e a noite cuidava da contabilidade de seus clientes, no escritório.

"De certa forma, ao me comparar com a maioria da população negra brasileira, posso me condsiderar uma privilegiada. Nasci numa família que pode ser considerada de classe média ou pequeno burguesa. Meu pai sempre trabalhou muito, a vida inteira, nunca soube o que era férias ou um dia sem trabalho. Até os 80 e poucos anos, aposentou-se três vezes e sempre voltava a trabalhar."

Hoje, Edna Roland faz doutorado na PUC em São Paulo e preside, desde abril de 1997, a Fala Preta!, uma organização não-governamental que combate a discriminação contra mulheres e
adolescentes negras, e é uma das
intelectuais mais atuantes no combate
ao
racismo e ao preconceito contra as
mulheres. E tudo começou em Codó...

"Meu pai trabalhava de segunda a segunda para poder sustentar a família. Mesmo com apenas duas filhas, a vida numa pequena cidade nordestina é muito difícil. É preciso trabalhar muito para garantir comida na mesa e os filhos na escola. Eu tive a felicidade de pertencer a uma família onde a educação era o maior patrimônio. Lembro-me que durante as férias, meu pai comprava livros e mapas para que eu minha irmã continuássemos a estudar. O trabalho e o estudo sempre foram pontos referenciais em minha vida. Quando entrei na escola eu já era alfabetizada. Até o quarto ano primário não conheci nada de novo, pois já tinha aprendido o básico com meus pais e minha irmã, que era mais velha. É uma marca profunda na minha história de vida. Me considero privilegiada pela oportunidade que tive em frequentar o ensino público de qualidade."

Portal Afro - Quando você saiu de Codó?

Edna Roland - Saímos de lá quando eu tinha 8 anos. Minha família tem uma história de migrações determinadas pela busca de melhores escolas ou por questões relacionadas a saúde de meu pai. Moramos no Ceará, Goiás... Até então eu migrava acompanhando minha família. Quando fui estudar na Universidade Federal de Minas Gerais, passei a me virar sozinha.

Portal Afro - E como você chegou a São Paulo?

Edna Roland - Migrei para São Paulo por motivos políticos. Durante a ditadura militar, eu e meu companheiro pertencíamos a uma organização de esquerda e, de repente, por segurança, tivemos que abandonar tudo o que tínhamos em Minas Gerais e fugir para São Paulo, onde vivemos na clandestinidade durante 5 anos. Eu estava estabilizada em Minas, tinha concluíndo o bacharelado e já era professora na Universidade Católica, com um cargo na Federal. Mas, mesmo assim, fui obrigada a romper com todos os laços familiares e toda minha vida anterior. No início, passei por um processo de perda muito grande, não apenas de referências familiares, mas também uma queda social profunda. Tive que viver em cortiços e dividir a comida com meu companheiro, pois não tínhamos dinheiro para alimentar os dois. Foi o único período em minha vida em que sofri este problema, em que vivi carências.

Portal Afro - Você é psicóloga. É possível traçar um perfil psicológico do negro brasileiro?

Edna Roland - A diversidade entre nós é muito grande, portanto fica difícil falar em perfil psicológico do negro. As diferenças são imensas entre os mais variados tipos de pessoas que compõem essa parcela da população. Talvez possamos falar sobre alguns traços resultantes das experiências de discriminação a que somos submetidos, traços que podem imprimir uma determinada marca. Não é à toa, por exemplo, que a hipertensão arterial seja uma doença característica da população negra fora da África, uma doença dos negros das Américas e do Caribe, por ter um forte componente resultante do estresse relacionado à discriminação. Isto para dizer que os indivíduos negros são levados, por viverem numa sociedade discriminatória como a brasileira, a estarem constantemente em estado de alerta, esperando de onde a discriminação possa surgir, de onde ele possa sofrer algum tipo de ataque ou golpe resultante do fato de pertencer a um grupo que tende a ser classificado como portador de menor valor, vivendo numa situação de marginalidade e discriminação. Este estado, de permanente vigília, leva a um enorme consumo de energia.

Portal Afro - Este consumo de energia leva ao estresse?

Edna Roland - É claro. Gastamos muita energia psíquica para combater as situações adversas e discriminatórias a que somos submetidos. Mesmo quando não estamos sendo submetidos à discriminação, podemos, antecipadamente, reagir acreditando que seremos discriminados. Existe aí um custo de ordem psíquica que é considerável. Sobre este ponto de vista, é muito caro ser negro no Brasil.

Portal Afro - O próprio negro acaba acreditando nessa falsa inferioridade?

Edna Roland - O racismo é uma ideologia que atravessa toda a sociedade brasileira e, portanto, também afeta nossas próprias consciências. O racismo produz seqüelas por estarmos submetidos a esses estereótipos, a essas expectativas negativas. Isto certamente faz com que seja mais difícil a construção de relações de cumplicidade e confiança entre nós mesmos! Este é um dos aspectos mais perversos do racismo.

Portal Afro - O movimento negro também é afetado por essa situação?

Edna Roland - Sem dúvida, esses aspectos psicosociais influenciam bastante. É evidente que não podemos reduzir fatos de ordem política a uma dimensão puramente psicosociológica. Existem outros fatores que se sobrepõem. O fato de o espaço político que existe na sociedade para os negros ser mais estreito, faz com que a competição seja mais provável de acontecer que a colaboração. Mas apesar desses fatores que são estruturais, e da história perversa dos negros neste país, acredito que as possibilidades de construção de alianças e ampliação do espaço coletivo será viabilizada. Até porque se não formos capazes de superar esse estágio de relações competitivas, não conseguiremos galgar os lugares e os espaços que aspiramos. Devemos considerar que assim como qualquer outro grupo social, estamos condenados a colaborar uns com os outros. Sem essa colaboração, não será possível ampliar nossos horizontes.

Portal Afro - Em que implicaria essa ampliação de horizontes?

Edna Roland - Podemos colocar objetivos políticos mais ambiciosos. Podemos eleger nossos representantes para cargos fundamentais dentro da sociedade, sem os quais não teremos a oportunidade de mudarmos. Embora sejamos fruto dessa história perversa, temos que superá-la.

Portal Afro - A Fala Preta! tem algum projeto nesse sentido?

Edna Roland - Temos um projeto em nossa Rede de Ação Comunitária chamado "Construindo Nossa Cumplicidade", que é uma organização de grupos de auto-ajuda para mulheres negras. É um projeto baseado no conceito de que para transformarmos a sociedade precisamos de um individuo novo, e para termos um indivíduo novo precisamos de uma sociedade transformada. Então, para empreendermos um processo de transformação social, temos que investir num processo de transformação dos indivíduos. Para isso, precisamos criar um espaço seguro onde as pessoas tenham a certeza de poder contar com o apoio de suas "irmãs", das pessoas com quem convive, para que sua própria história possa ser transformada e, ao mesmo tempo, que não se limite a uma dimensão puramente individual e psicológica. Essas pessoas terão a oportunidade de reconstruir sua própria história individual e serão convidadas a atuarem na transformação das condições de sua comunidade. A produção dessa sinergia da transformação do indivíduo e da comunidade é que pode, ao longo do tempo, produzir um novo cenário, fazendo com que novas relações de cumplicidade e de colaboração possam ser dominantes, ao invés das relações de competição e retaliação que assistimos nos dias de hoje.

Portal Afro - O momento é o ideal para a implementação desses projetos?

Edna Roland - Considero que em determinados momentos da história e da vida social, alguns fatores confluem de tal forma que ocorre um processo de aceleração de questões emergenciais, como as ações afirmativas, que já eram discutidas em maior ou menor grau no movimento negro...

Portal Afro - Abdias do Nascimento já falava disso em 1940...

Edna Roland - Bem, sou menos antiga que ele... [risos]. Minha militância se inicia em meados da década de 80. Eu me recordo pelo menos que desde 1986, quando houve o processo constituinte, eu fazia parte de um grupo que, mesmo não chegando a ser formalizado, produziu documentos que foram enviados para Hélio Santos, que era o representante do Movimento Negro junto à comissão da constituinte. Na época, falávamos em Discriminação Positiva. Não acredito que tenha sido consensual dentro do movimento, mas muitos setores falavam nessa questão. Com a realização da conferência e toda a ampliação das discussões no Brasil, criaram-se os espaços necessários para que essa questão realmente eclodisse e chegasse a tona, passando da mera discussão teórica para a implementação prática.

Portal Afro - Exatamente a partir de quando este movimento tomou vulto?

Edna Roland - Considero que desde setembro do ano passado entramos em um período em que as possibilidades de transformação social no Brasil com relação a temática racial tomaram um bom impulso. O resultado disso é que assistimos a cada dia o surgimento de novas iniciativas.

Portal Afro - Qual foi sua contribuição como militante para este momento?

Edna Roland - Acredito que minha participação no projeto internacional de Iniciativa Comparativa de Relações Humanas foi muito importante. Foi a primeira iniciativa que envolveu o Brasil, a África do Sul e os Estados Unidos, num projeto triangular que estudou as relações raciais nesses três países. O projeto funcionou de 1995 até o encerramento da Conferência Mundial. Ao longo desses anos, vários seminários foram realizados em Atlanta, na Cidade do Cabo e no Rio de Janeiro, com intelectuais desses três países, que possibilitaram a troca de informações e experiências sobre a implantação de ações afirmativas nos Estados Unidos e na África do Sul, onde são chamadas de ações corretivas.

Portal Afro - Todo este movimento foi então positivo para a questão racial?

Edna Roland - Possibilitou que um número maior de militantes negros brasileiros começasse a reconhecer a importância e a necessidade desse tipo de proposta. A Iniciativa Comparativa teve um impacto importante para que a conferência pudesse ser realizada, inclusive determinando seu conteúdo. O primeiro evento preparatório foi o Seminário de Belágio, na Itália, que definiu as grandes linhas temáticas da conferência mundial. Lá, tivemos a oportunidade de conhecer o trabalho da Sra. Lynn Walker, diretora da Iniciativa Reparativa de Relações Humanas, com quem tive a felicidade de compartilhar experiências.

Portal Afro - Você acredita que esse processo é irreversível?

Edna Roland - Podemos dizer que já vivemos uma reação em cadeia. Cada nova iniciativa e proposta de ação implementada se constitui em estímulo e exemplo para que outras sejam colocadas em prática. Um exemplo claro foi quando o Ministério do Desenvolvimento Agrário saiu na frente com a proposta de ação afirmativa envolvendo cargos de confiança, além de destinar parte de seus recursos para projetos de benefício a afrodescendetes. Essa iniciativa serviu de exemplo para que o Ministério da Justiça, o Supremo Tribunal e a Secretaria Nacional de Direitos Humanos também implementassem seus programas. Recentemente, tivemos a grata surpresa de saber que a cidade de Jundiaí cria um novo marco ao implantar uma lei de cotas para negros no quadro funcional municipal. Sabemos também que em algumas empresas existem propostas para ampliação do número de negros contratados. Temos noticias de universidades privadas como PUC de São Paulo, que estão começando a discutir e considerar medidas desse tipo. Estou bastante otimista. Devemos comemorar, mas continuar atuantes e vigilantes.

Portal Afro - O movimento negro hoje está preparado para dar suporte à comunidade negra neste processo de implantação de ações afirmativas?

Edna Roland - O processo é desigual para diferentes setores do Movimento Negro, assim como as relações da sociedade são diversificadas. Alguns compreenderam que este é o momento de empunhar a bandeira e levá-la o mais longe possível e aprofundar a luta para que a população negra possa ter as vitórias mais significativas possíveis, criando um espaço social e político mais amplo para toda a população, mas também temos os grupos que ficam em cima do muro reclamando, ou que acreditam que essas propostas são neoliberais demais e não terão importância. Tem de tudo dentro do movimento. Particularmente acredito que um setor significativo tem respondido positivamente e é este setor que também é responsável por tudo o que está acontecendo no Brasil.

Portal Afro - E qual a participação da Fala Preta! neste processo?

Edna Roland - A Fala Preta! foi uma das protagonistas nesse processo, na medida em que tivemos a possibilidade de atuar de forma bastante presente em todo o processo da conferência contra o racismo. Tivemos a oportunidade de influenciar todos os documentos oficiais a nível nacional. Desde o início, a Fala Preta! assumiu o compromisso de defender a implantação de políticas de ação afirmativa e apresentar argumentos que pudessem sustentar essa proposta política. Além disso, o espaço que eu tive como relatora oficial da conferência, foi usado também para que esse tema sempre estivesse presente na mídia.

Portal Afro - Qual a postura da Fala Preta! na defesa das ações afirmativas?

Edna Roland - Assumimos com firmeza a defesa das cotas com base na proporcionalidade. Como somos 45% da população, esta é a cota que temos direito! Em 20 de novembro do ano passado, num artigo publicado na Folha de São Paulo, eu chamava a atenção para a necessidade da constituição de um movimento nacional por reparações, que deveria dar ênfase na recuperação da memória das vitimas da escravidão e do tráfico. Precisamos recuperar a dignidade de nossos antepassados. Este é um ponto de honra fundamental no processo de reconstrução de nossa história. Ainda não sabemos onde os africanos que foram escravizados no Brasil estão enterrados! São poucas as noticias sobre esses cemitérios. Precisamos construir pelo menos um memorial para esses escravos. Não existe neste país um único monumento a essas vítimas, que são cerca de 44 milhões de pessoas! Por outro lado, temos em São Paulo o memorial dos revolucionários de 1932, que reverencia os cerca de 700 paulistas que foram mortos durante a revolução; temos também o memorial aos pracinhas no Rio de Janeiro, um cartão postal reconhecido internacionalmente que homenageia os 457 brasileiros que morreram na 2a. Guerra Mundial. Enquanto isso, 44 milhões de negros não são lembrados como merecem.

Portal Afro - E como seria este monumento?

Edna Roland - Ele precisará ter a dimensão e a dignidade suficientes para provocar um forte impacto emocional e intelectual nas pessoas, fazendo com que todos revejam seus conceitos acerca do que foi a escravidão neste país. Precisamos desses monumentos. É uma das linhas de trabalho que o movimento nacional por reparações precisa assumir. Para construir uma nova história precisamos refazer a do passado. Precisamos restaurar a dignidade dos que morreram.

Portal Afro - E as outras propostas?

Edna Roland - Precisamos criar um Fundo Nacional de Reparações.

Portal Afro - E de onde viriam os recursos para este Fundo?

Edna Roland - O estado brasileiro, através de seus diferentes níveis de governo: federal, estadual e municipal, deve dedicar uma parcela de seus recursos para este Fundo. Os setores privados que se beneficiaram com a escravidão no passado, e que ainda continuam a usufruir de seus efeitos, também precisam avaliar o impacto negativo que a escravidão teve no passado e que o racismo tem hoje, e canalizar parte de seus lucros para o Fundo.

Portal Afro - E como essa verba seria utilizada?

Edna Roland - O dinheiro seria destinado a uma série de projetos especiais para a população negra: bolsas de estudos; projetos de desenvolvimento econômico para as comunidades remanescentes de quilombos, projetos de erradicação do analfabetismo; projetos de estímulo aos empreendedores afrodescendentes; projetos de intercâmbio entre os descendentes de escravos e os países africanos e instituições negras do Caribe, Estados Unidos e Europa.

"Enfim, precisamos reconstruir nossa história, restabelecer os laços que foram rompidos na diáspora, e para isso seria importante que houvesse a possibilidade que este fundo fosse viabilizado para a construção de museus que recuperem a história através de nossa perspectiva, e não da perspectiva dos dominadores, daqueles que escravizaram nossos antepassados. E sim sob a perspectiva daqueles que durante 400 anos construíram este pais."

"As crianças negras e brancas precisam ser reeducadas e enxergar o Brasil a partir de uma outra perspectiva, e para isso será preciso criar espaços de convivência onde novos projetos culturais, informações e idéias possam ser introduzidos. O Brasil precisa ter a coragem de dar esse paso, de mudar a história. De recuperar a cidadania da população negra que tem sido negada durante cinco séculos.

Portal Afro - Qual a contribuição que a Internet pode dar no combate ao racismo?

Edna Roland - A Internet é uma ferramenta fundamental que pode ser usada contra ou a nosso favor. Ela amplia as possibilidades da luta anti-racista, mas também cria espaços para fortalecer o movimento neofascista no mundo. De fato, precisamos utilizar todo o potencial que a Internet nos oferece. Infelizmente, os negros estão em situação de desvantagem, justamente pelas dificuldades materiais de acesso. Para usar a Internet é preciso um computador, um modem, uma linha de telefone, um provedor... E a maioria dos negros não tem acesso a esses bens.

Portal Afro - Mas a garantia de acesso a Internet não poderia fazer parte da pauta de reivindicações reparatórias?

Edna Roland - E faz! Eu havia esquecido de mencionar esse ponto anteriormente. A superação do gap digital (desvantagem no acesso à informática) seria uma das finalidades do Fundo Nacional. Permitir que os negros tenham acesso à informática é garantir que a Internet possa ser uma aliada forte na superação das desigualdades no campo educacional e da comunicação a distância. Todo o processo preparatório da conferência não teria a mesma eficiência sem o auxílio da Internet, sem o apoio das listas de discussão como a Discriminação Racial e a das Mulheres Negras, além de sites como o Portal Afro, Mundo Negro e a Revista Afirma, entre outros. Foram importantes espaços onde as idéias foram questionadas e discutidas. Sou muito otimista com relação ao papel que a Internet pode ter na construção de um mundo mais igualitário e justo, mas também tenho que considerar as possibilidades maléficas que ela oferece. Devemos utilizar este instrumento da forma mais criativa possível, multiplicando as possibilidades de benefício para toda a comunidade.

Portal Afro - A UNESCO e a ONU publicaram um livro textos que abordam a luta contra o racismo. Você escreveu um deles. Fale-nos sobre essa experiência.

Edna Roland - Em setembro de 2000 fui convidada pelo Alto Comissariado Das Nações Unidas para escrever sobre os afro-americanos. Esse trabalho foi apresentando numa reunião preparatória para a conferência, em Santiago do Chile, no final de setembro. Foi a partir desse trabalho que, posteriormente, o governo brasileiro me convidou para assessorar a delegação brasileira nas pré-conferências de Genebra. Finalmente, o governo indicou meu nome como relatora geral da conferência. Considero que esse texto foi o responsável por eu ter sido eleita para um cargo que fiquei muito feliz em ocupar.

Portal Afro - Que mensagem você deixa para os jovens que estão iniciando sua militância no movimento negro?

Edna Roland - Minha mensagem diz que vale a pena lutar. Fico feliz por fazer parte de uma geração que está tentando deixar sua contribuição para que os jovens de hoje tenham um espaço social e político maior do que aquele que minha geração teve. Não quero dizer com isto que fizemos algo mais que nossa obrigação, mas se a nova geração for capaz de aproveitar as oportunidades que estarão sendo criadas ao longo dos anos, e ocupar um espaço mais amplo do que aquele que pudemos ocupar, ficarei feliz e satisfeita. Espero que os jovens venham com força total, que apontem nossos erros e o que deve ser modificado e repensado, dizendo o que desejam. Se forem capazes de redirecionar tudo e modificar o processo de forma a ampliar as possibilidades em outras direções, ficaremos também muito felizes!

"Acho que tenho obrigação de contribuir de alguma forma e devolver tudo de bom que a vida me deu"

Portal Afro - Estamos em um ano eletivo. Como os afrodescendentes devem escolher seus candidatos?

Edna Roland - É fundamental que se discuta quais são os programas que atendem os interesses da comunidade negra. A partir do amadurecimento dessas idéias e das propostas políticas que favoreçam a luta dos negros no Brasil, é que podemos avaliar as opções que serão colocadas na mesa. Devemos exigir que todos os candidatos que queiram nosso voto apresentem projetos concretos para a população negra. Temos que estabelecer essa condição como um parâmetro que demarque nosso procedimento. Um segundo critério, também importante e desejável, é que além de um programa, possamos avaliar quem é esse candidato, para que tenhamos a oportunidade de dar um voto negro, ou seja, votar em algum candidato negro. Mas, mesmo assim, no meu ponto de vista, o programa deve vir na frente.

"Na medida em que se amplia o espaço de discussão de políticas específicas para a população negra, ocorrem mudanças significativas de percepção em amplos setores da sociedade. Por isso é fundamental que a militância negra seja ativa, defendendo a perspectiva correta dessas políticas e questionando as visões tacanhas que consideram as ações afirmativas esmolas que vem sendo atiradas aos negros, que pensam que essas ações representam um racismo ao contrário, ou que partem de uma concepção de inferioridade dos negros ou outras balelas... Precisamos combater este tipo de visão, para que essas políticas, que estão a nosso favor, não sejam percebidas por outros setores da sociedade como algo que nos inferioriza, como algo que mais uma vez nos discrimina e nos distrata por considerar-nos inferioes. As ações afirmativas reconhecem as barreiras reais que nos extirpam da sociedade e a partir deste reconhecimento é que elas são necessárias. Quando essas barreiras não existirem mais, não haverá mais necessidade que essas políticas continuem a ser aplicadas."
"Não me interessa um candidato negro que faça o mesmo tipo de política excludente que não contempla os interesse e as necessidades da maioria da população negra. Temos primeiro que avaliar o programa, e numa segunda etapa, o candidato. Se ele puder reunir essas duas condições: um programa adequado, e ser um candidato negro com a devida compreensão dessas questões e uma história de compromissos com a comunidade, aí reuniremos as condições ideais para eleger alguém. Além disso, como mulher, darei preferência para um candidato ou candidata comprometidos com os interessas das mulheres negras."
Edna Roland e o deputado federal Paulo Paim, autor do projeto que estabelece cotas para negros na mídia, durante debate no Fórum Social Mundial de 2002.
Edna Roland e Claudete Alves, presidente do Sindicato dos Servidores Públicos de São Paulo e do Instituto Todos a Bordo, também no FSM.
Edna Roland entre o deputado estadual do PT do Rio Grande do Sul, Édson Portilho (esquerda), e o vereador Santerra, da cidade gaúcha de Gravataí
Durante o FSM, Edna Roland entregou uma cópia do relatório oficial da Conferência contra o Racismo ao governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra.
"A Internet é uma ferramenta que pode ser usada contra ou a nosso favor..."