Além de grande atleta, também teve uma brilhante carreira profissional e foi autor de muitos projetos esportivos para jovens, com o principal objetivo de "ensiná-los a ser campeões na vida".
Hoje, aos 73 anos, é coordenador de esportes da Universidade Sant'Anna, em São Paulo e autor do projeto esportivo universitário cujo prêmio leva seu nome: "Troféu Adhemar Ferreira da Silva de Atletismo Internacional Universitário". É também patrono do Programa de Apoio ao Atletismo patrocinado pela Bolsa de Mercadorias & Futuros - BM&F
No ano 2000 entrou definitivamente para a elite do esporte mundial ao ser agraciado com a "Ordem Olímpica" do Comitê Olímpico Internacional. Foi o único brasileiro incluído na publicação da Federação Internacional de Atletismo que, em janeiro do ano 2000, consagrou os grandes mitos do atletismo mundial do século XX.
Principais marcas de Adhemar no salto triplo
1949 - Recorde sul-americano (anterior - 15,42m./1924) - 15,51m.
- 1º lugar no ranking da Federação Internacional de Atletismo, quebrando o próprio recorde - 15,83m.
1950 - Igualou o recorde mundial (16,00m./ 1936)
1951 - 1º lugar do Troféu Brasil - recorde mundial - 16,01m.
Medalha de Ouro nos I Jogos Panamericanos - Buenos Aires
1952 - Medalha de Ouro nos Jogos Olímpicos de Helsinque (Finlândia) - recorde mundial e olímpico - 16,22m.
1955 - Medalha de Ouro nos II Jogos Panamaricanos (México) - recorde mundial - 16,56m.
1956 - Medalha de Ouro nos Jogos Olímpicos de Melbourne (Austrália) - recorde olímpico - 16,35m.
Portal – Qual a
origem de seus pais?
Adhemar –
Meu pai é de Jundiaí e minha mãe nasceu em Santos.
Portal – O sr.
tem notícia de escravos entre os seus ascendentes?
Adhemar –
Não tenho notícia nenhuma. Sei que meu avô, cujo nome
era Maximiliano, era descendente de escravos.
Portal – Em termos
de educação, o sr. considera um privilégio ter sido filho
único?
Adhemar –
Não sei se é privilégio. São coisas que Deus prepara
e aconteceu de eu ser também. Mas acho que isso foi bom, de certa maneira,
principalmente para os meus pais, porque creio que cuidar de um filho é
mais fácil do que cuidar de alguns filhos.
Portal – Sua vida
escolar foi normal? O sr. fez escola na idade certa?
Adhemar –
Inicialmente eu fiz o que seria o primário na Escola Paroquial São
João Evangelista, no bairro de Casa Verde; era uma escola de freiras.
Depois eu passei para a Escola Técnica de São Paulo, que era
a escola de aprendizes artífices e que hoje é a Escola Técnica
Federal, onde eu fiquei dos sete aos 15 anos, mais ou menos. Lá, além
das matérias da área de Humanas, existiam as oficinas de mecânica,
fundição, latoaria, vime, belas artes. Eu cursei Belas Artes
e dentro de Belas Artes fiz escultura.
Portal – Como afrodescendente,
como foi a sua vida escolar? O sr. sofreu algum tipo de discriminação
dentro da escola?
Adhemar –
Jamais tive qualquer tipo de dificuldade e não era o único negro
na minha turma nem na escola. Éramos vários negros na escola,
que era do Governo Federal. Para entrar lá havia um exame de seleção
(do qual eu já não me recordo direito pois isso aconteceu no
final dos anos 30, começo dos 40). A escola era muito procurada pelas
vantagens que oferecia: a entrada era pela manhã, quando era servido
um café; ali também almoçávamos e, antes da saída
às 17:45h, era servido mais um lanche. Era uma escola que permitia
tranqüilidade aos pais. Para os meus, que eram paupérrimos e trabalhavam
fora o dia todo, era ótimo ter uma escola onde eu podia ficar quase
que o dia todo.
Portal – O sr.
teve algum incentivo especial, alguma orientação sobre a sua
vocação, dentro da escola?
Adhemar –
Não, foi tudo normal, como deve ser. Eu não tive nenhum incentivo
e também ninguém atrapalhou minha vida.
Portal – Além
da arte da escultura, mais tarde, o sr. também se ligou à música.
O sr. teria sido um artista, se não fosse atleta?
Adhemar –
Na realidade eu nunca estive ligado à música. Eu cantava como
todo mundo canta, no banheiro. E canto nas minhas serestas. Não tem
nada ver com trabalho profissional.
Portal – Mas o
senhor cantou muito em programas de calouros no rádio; formou duas
duplas diferentes, com outros cantores, para participar desses programas...
Adhemar –
Eu queria ser cantor, então participava de programas de calouros. Mas
nunca cheguei a ser profissional.
Portal – Quantos
cursos o sr. fez durante sua vida?
Adhemar –
Eu fiz alguns. Hoje estou com 73 anos... Depois de Belas Artes eu fiz Educação
Física, na Escola do Exército mas como civil; fiz Direito; há
coisa de uns 10 anos eu terminei, na Cásper Líbero, o curso
de Relações Públicas e não fiz, porque na época
não existia, o curso de jornalismo. Mas eu fui, durante 12 anos, cronista
e colunista esportivo no jornal "Última Hora" (que para mim foi a maior
escola de jornalismo que já existiu) e tenho registro profissional
em carteira desde 1957.
Portal – Quantos
idiomas o sr. fala?
Adhemar –
Eu conheço, seguramente, cinco ou seis. Em cada país onde eu
estive, sempre procurei aprender seus idiomas. E eu comecei a viajar em 1948;
então são 52 anos de viagens e conhecimento; um mundo de conhecimento
de pessoas e, naturalmente, de idiomas também. Não falo fluentemente,
mas tenho conhecimentos de Finlandês, Japonês, Tcheco, Alemão,
Francês e falo Espanhol e Inglês. E o meu pior idioma é
o Português, porque é um dos idiomas mais difíceis que
existem na face da terra.
Portal – Quantos
empregos o sr. teve na vida?
Adhemar –
Depois de concluir a escola de Belas Artes, trabalhei num ateliê de
escultura; à noite eu estudava datilografia, taquigrafia e correspondência
e logo depois passei a trabalhar num escritório comercial; depois fui
para o serviço público municipal, onde me aposentei. Durante
três anos fui adido cultural de nossa Embaixada em Lagos, Nigéria,
além dos 12 anos de jornalismo. Também trabalhei como monitor
de Educação Física para o sesc e senac. Este foi um trabalho
que me agradou muito, porque eu trabalhava com a garotada do subúrbio
de Del Castilho, no Rio de Janeiro, onde eu procurava usar o esporte como
meio de educação, e não para descobrir campeões.
Portal – Falando
um pouco de sua vida de esportista campeão, como foi o episódio
da distração na sua primeira Olimpíada?
Adhemar –
Acho que é muito natural, hoje eu noto com certa facilidade que, o
que aconteceu comigo, acontece com a grande maioria dos atletas. O Atletismo
é um esporte pouco difundido e pouco apoiado, no Brasil, mas que na
Europa, suplanta o futebol. Quando, em 1948, entrei na pista de atletismo
do estádio de Wembley, em Londres, para competir pela primeira vez
numa Olimpíada, olhei para o estádio lotado com 120 mil pessoas
e fiquei boquiaberto. Fiquei olhando o público e, enquanto olhava,
deixei de fazer os exercícios de aquecimento para saltar. Quer dizer,
eu anulei todo o treinamento feito no Brasil porque não acreditava
que aquele público todo estivesse ali para assistir atletismo. Eu achava
que a qualquer instante haveria um joguinho de futebol.
Portal – Que mudanças
ocorreram em sua vida depois da primeira medalha nas Olimpíadas de
Helsinque, em 1952?
Adhemar –
Sem dúvida alguma modificou a minha, muda e mudará sempre a
vida de qualquer elemento. Porque no momento em que a gente se torna um campeão,
abandona o anonimato e passa a pertencer ao mundo, ao público. Eu tive
que mudar, não propriamente a minha conduta ou meu modo de ser, mas
aprendi a ter mais cuidado com as minhas palavras, minhas ações,
meus movimentos. E isso tudo também modificou a vida de meus pais,
que passaram a ser vistos como pais de um campeão. Meu pai, que era
um carregador de sacos, de repente, viu-se guindado ao posto de contínuo
da Estrada de Ferro Sorocabana, pelos feitos do filho Adhemar. Passou a ser
paparicado e essa coisa toda. A mesma coisa com minha mãe; da posição
humilde que ela tinha como lavadeira, passadeira, arrumadeira, passou a trabalhar
no serviço público municipal, fazendo e servindo café
para os funcionários, mas sempre olhada com muito respeito e admiração.
Isso mudou.
Portal – 50 anos
atrás o esportista olímpico tinha que ser obrigatoriamente amador,
como até há poucos anos. O sr. nunca pôde receber nada,
nenhum tostão, nenhum presente, em função dos seus títulos.
Foi muito difícil para o sr.?
Adhemar –
Naquele tempo era assim e assim tinha que ser. Eu sabia perfeitamente que
o esporte que eu praticava era um esporte amador, e aceitava os regulamentos.
Então eu nunca esperei qualquer tipo de recompensa ou premiação
em dinheiro. Mas houve o caso do jornal "A Gazeta Esportiva" que, em 1952
lançou uma subscrição popular para dar uma casa de presente
à minha mãe, pelo meu feito. Eu tive que explicar à ela
porque não poderia aceitar a casa e ela entendeu muito bem. Ela também
não queria que eu perdesse meus títulos e até disse:
"Se é assim, nós não vamos receber a casa, que talvez
nem traga a felicidade que a gente espera". Eu achei que aquele foi um momento
muito feliz da minha mãe, porque nossa casa estava aos pedaços
e, além do mais com dez prestações em atraso.
Portal – Que lição
o sr. tirou desse episódio?
Adhemar –
Eu nunca tive dúvidas. Eu queria manter meus títulos. E por
não aceitar a casa é que eu pude participar dos jogos de Melbourne,
em 1956 e ganhar minha segunda medalha olímpica. Em 1960, quando participei
da minha última olimpíada, as coisas já começavam
a mudar e um esportista já podia, por exemplo, participar de um anúncio
comercial e receber por isso. Nos 20 anos que se seguiram, os primeiros colocados
em competições internacionais começaram a receber prêmios
significativos, até chegar aonde estamos hoje. Os tempos mudaram mas
meu tempo era aquele e, sinceramente, se eu pudesse voltar atrá, eu
voltaria amador, como fui. Porque, infelizmente, o que eu tenho notado é
que os atletas, hoje, no afã de ganhar algum dinheiro, se entregam
às drogas para fazer resultado, e com isso valorizar o seu cachê.
Portal – Apesar
de todas as punições previstas pelas entidades desportivas em
todo o mundo, os atletas continuam se drogando. Como o sr. vê esta questão?
Adhemar –
Eu penso que é muito pior do se tem conhecimento, ou do que é
divulgado e, realmente, a humanidade não se dá conta disso.
A partir de 1988, desde o episódio Ben Johnson, ficou bem claro para
todos os atletas que o crime seria punido. E no entanto, desde aquela época,
vários foram suspensos ou eliminados por uso de substâncias proibidas.
É triste, mas é verdade.




Adhemar
Ferreira da Silva
"A dois saltos da eternidade"
por Cintia
Rabaçal *












Portal – O sr.
acredita que negro não vota em negro?
Adhemar –A
primeira vez em que eu fui candidato, foi lá nos anos 50, no tempo
de Adhemar de Barros, que hoje poucos conhecem. Mas fui candidato também
a deputado federal, e essa história daria até um outro livro.
Eu estava numa festa lá perto do meu bairro, vizinho à Casa
Verde, e tinha um grupo de negros, uns senhores até com uma certa idade.
Me abordaram e disseram que eu tinha que ser candidato a deputado, porque
"nós precisamos de um representante negro". Eu respondi que
não estava pensando nisso e eles me disseram: "você não
tem que pensar, você tem que ser porque nós precisamos de você."
Aí me disseram que tudo o que eu precisava fazer era conseguir uma
legenda, o que para mim não seria difícil, já que eu
era afilhado de casamento do dr. Adhemar de Barros. Disseram que eu conseguisse
a legenda e que o resto era com eles, fariam tudo. Eu procurei o dr. Adhemar,
que me disse: "Xará, negro não vota em negro, esportista
não elege esportista." Mas me deu a legenda e eu fui procurar
o grupo de negros, informando que, a partir daquele dia eu era um dos candidatos
do partido tal (acho que era PRP, não me lembro). E por incrível
que pareça, a partir daquele momento esse grupo de negros nunca mais
apareceu. Sumiram!
Portal – Sem dizer nada, sem dar satisfação
nenhuma?
Adhemar – Nada. Mas, como eu já era candidato, tratei de tocar
minha campanha. Dinheiro eu não tinha, nem para papel, nem para comitê,
nem nada. E fui me virando com um e com outro amigo. Eu tinha um escritório
político na avenida São João e por lá passavam
sempre uns associados da ACN, já ouviram falar?
Portal – Nunca.
Adhemar – Era a Associação Cultural do Negro, funcionava
no prédio Martinelli. Então eles passavam no meu escritório
a cada instante e pediam mais material, mais material. Naquele tempo, material
de campanha eram cédulas, que serviam até para as pessoas votarem;
eram colocadas dentro de um envelope e assim era feita a votação.
Num determinado dia o pessoal da ACN me chamou para uma reunião na
sede, às 20 horas. Eu cheguei um pouco mais cedo, uns 15 minutos, e
não havia ninguém lá, ninguém. Aí, me deu
vontade de ir ao banheiro e lá, no chão daquele banheiro, eu
fui encontrar as minhas cédulas.
Portal – Em que ano aconteceu isso?
Adhemar – Não me lembro bem se 52 ou 53, mas acho que em 1953.
Então, como é que eu posso querer alguma coisa dessa chamada
comunidade?
Portal – O sr.
não encontrou nenhum grupo sério nesse caminho, alguém
que o sr. respeitasse, que o sr. possa dar valor, para citar hoje?
Adhemar –
Como grupo não. Isoladamente, pessoas, sim. Mas uma minoria dentro
desse grande mundo que é a comunidade negra. Contando: a dra. Iracema
de Almeida, que eu já citei; o major, hoje coronel Bittencourt... quem
mais? Ali no meu bairro encontrei algumas pessoas que, realmente não
sei se trabalharam para mim, mas eram pessoas que faziam alguma força,
eram da Irmandade de São Benedito, da Casa Verde, da Igreja de N. Sra.
Das Dores. Então é uma minoria, uma minoria mesmo, que diziam
"eu vou votar em você" e eu confiava, acreditava. Mas nenhum
grupo coeso, fechado, para que pudesse dizer, hoje, "me orgulho de tal
grupo porque eles tentaram me ajudar, eles fizeram o possível".
Ao contrário, só encontrei pauladas, só encontrei decepções.
Portal – Mais alguma
história com política, que o sr. se lembre?
Adhemar –
Fui convidado, como candidato, a participar de uma reunião em uma entidade
de negros, não me lembro o nome. Assim que eu entrei na sala da reunião,
a primeira coisa que eu ouvi, foi do presidente que me disse: "o que
você veio fazer aqui?". Eu disse que era candidato, que havia sido
convidado pela pessoa tal e que tinha ido pedir votos, como outros candidatos
iam, e eu me sentia também no direito. E ele me disse que eu nunca
tinha feito nada pelos negros e que ia querer votos? Eu disse:
"A sua ignorância
é muito grande e eu não respeito. Mas o sr. diz que eu nunca
fiz nada pelos negros e eu tenho em casa um jornal da França, ‘L’Équipe’,
que no dia seguinte de Helsink estampou na sua primeira página: ‘O
negro brasileiro saltou 16,22 m’. Se isso não representa nada
para o sr., então eu estou de acordo. Agora, tenha a certeza de que
eu estou fazendo por dois negros: meus filhos."
O que eu quis dizer
é que eu sempre fiz! Que o fato de eu ser carregado nas ruas aqui quando
cheguei, em 1952, como um Guga hoje é, desfilando em carro aberto,
etc. e etc., era um negro que estava ali. E por que? Porque tinha feito alguma
coisa. E ele fez pelo Brasil, não especificamente para o negro, mas
para o Brasil. Agora, eu não posso negar; eu não me pintei de
branco para saltar e ganhar as medalhas! E, depois, continuei: "Mas se a ignorância
é tal, então eu digo que continuem escravos de vocês mesmos,
porque vocês preferem dar os votos e trabalhar para aquele candidato
branco que vem aqui e que paga um piquenique e uma cervejada para vocês.
Isso eu não vou fazer para o negro, primeiro porque não tenho,
segundo, porque não compraria votos dessa maneira".
Portal – O sr.
não recebeu homenagens de nenhum grupo de negros?
Adhemar –
Não posso dizer que não tenha recebido. Recebi, sim, de um Clube
28 de Setembro, lá de Jundiaí. Mas é que ser homenageado
é uma coisa; o que eu estou falando é de política: na
hora de votar, não.





Muita alegria com a segunda
medalha de ouro na Austrália, em 1956.
( reprodução João Caldas)
Portal – Como sr.
vê a condição dos afrodescendentes no Brasil?
Adhemar –
Olha, vocês não vão gostar, mas eu não tenho nada
a ver com afro-brasileiros.
Portal – O sr.
não se considera um afrodescendente?
Adhemar –
Eu não. Eu sou brasileiro! Não tenho nada com África.
Nada, nada, nada com África. E digo sinceramente porquê. Estive
três anos na Nigéria, e em nenhum momento eu ouvi os nigerianos
falando em afro-brasileirismo, ou Brasil/África, ou qualquer coisa
assim. Eles jamais ligaram para a nossa existência. Portanto eu não
tenho nada a ver com eles.
Portal – É
verdade que o sr. é rejeitado pelos movimentos afro-brasileiros, tanto
pelas alas extremistas, quanto pelos mais moderados?
Adhemar –
Eu não sei, mas acredito que sim, porque por duas vezes eu fui candidato
a deputado e não recebi apoio nenhum, mas nenhum, de negros; só
recebi dos brancos. Então eu não sei o que acontece, se sou
rejeitado. E se sou, também estou pouco ligando para isso.
Portal – Para o
sr. isso não é importante?
Adhemar –
Para mim não, não é. Nada, nada importante. Na verdade
eu sempre fui, sim, rejeitado pelos negros. E isso eu acho que é uma
burrice, uma ingenuidade, uma falta de educação, falta de tudo.
Porque quando dizem que eu só procurei os brancos, ora, eu entrei para
o esporte, num clube de brancos! Não existiam clubes de negros! E todas
as vezes em que eu recebi algum tipo de auxílio, seja para o estudo
ou para o esporte, eu recebi dos brancos. Então eu não vejo
porque teria de ser rejeitado. Isso me entristece muito, mas muito mesmo.
E não só por mim! Eu vejo pela minha filha, também (que
é cantora, além de ser jornalista). Em todos os shows dela a
platéia está lotada, mas de brancos, seja o espetáculo
pago ou gratuito. Quer dizer, o negro não dá suporte ao negro,
essa é a verdade. Do contrário nós estaríamos
em melhores condições, poderíamos ser como os negros
americanos. Mas acho que o negro brasileiro não sofreu o bastante,
só fica preso àquela questão de senzala.
Portal – Quais
as diferenças entre os negros brasileiros e os americanos?
Adhemar –
Bem, graças a um Lincoln, que abriu quatro escolas um dia depois da
abolição da escravatura nos Estados Unidos, os negros tiveram
condições de estudar e galgar postos na vida norte-americana.
Hoje há um grande número de médicos, advogados, almirantes,
brigadeiros, enfim, os negros americanos ganharam condições.
E são unidos, ganham força com isso. Porque quando não
conseguem melhores condições de trabalho, eles formam suas próprias
empresas, até universidades. Agora, o negro brasileiro jamais se uniu
para poder fazer qualquer coisa em torno de si mesmo. Por falta do dinheiro,
o número de negros nas universidades brasileiras, públicas ou
particulares, é sempre muito pequeno, uma minoria. E ninguém
se une para nada. Só ficam gritando nas ruas "nós, os negros;
nós, os negros". Isso não leva a nada.
Portal – O sr.
tem conhecimento do trabalho de algumas pastorais, oferecendo pré-vestibulares
gratuitos, dados por professores universitários, para negros, como
na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, por exemplo, ou aqui em São
Paulo, no bairro de Itaquera? É um trabalho para que o negro tenha
um preparo para poder ingressar nas universidades. O sr. sabia disso?
Adhemar –
Não. Eu tenho conhecimento sobre o que acontecia na minha época.
Havia uma senhora, dra. Iracema de Almeida, cuja principal preocupação
era colocar negros no Itamaraty. Então ela facilitava, do seu próprio
bolso, os estudos para que os negros pudessem galgar posições
diplomáticas. E ela sempre foi combatida.
Portal – O sr.
conhece o trabalho de Joel Zito, que lançou um livro e um documentário
sobre o negro
na telenovela brasileira, pesquisando mais de 500 novelas? O sr. acredita
que esse tipo de denúncia seja um começo para o que o sr. mesmo
chama de união?
Adhemar –
Eu me lembro de uma novela onde o Milton Gonçalves fazia um dos principais
personagens, um psiquiatra, papel que seria, normalmente, de um ator branco.
Então eu soube que, em determinado momento, a emissora recebeu uma
ameaça do patrocinador, que retiraria sua cota se o Milton não
saísse da novela. Então é isso que eu digo, diferentemente
dos Estados Unidos que, quando não conseguiram o que queriam, os negros
criaram suas companhias independentes. Isso é que o negro brasileiro
tem que pôr na cabeça que, ao invés de ficar gritando
nas ruas, ou num partido político, ele, negro, tem que trabalhar para
fazer de um negro, seu filho, alguém na vida.
Portal – Embora
o sr. já tenha dito que não sente nenhuma relação
com África, todos nós sabemos que os nossos primos distantes,
os negros africanos, estão sendo vítimas de genocídio,
seja pelas guerras ou pelas epidemias. Como o sr. vê essa situação,
o sr. já pensou nesse assunto?
Adhemar –
Antes, na época do colonialismo, eram brancos matando negros. Na África
do Sul, até o ressurgimento glorioso de Mandela, eram negros, matando
negros por ordem de brancos. Agora se matam entre si. É claro que eu
me incomodo com o genocídio, sem cor, gente matando gente. Mas não
vejo como nós, aqui do Brasil, podemos nos incomodar, ou podemos ajudar
num caso desses.
Portal – O sr.
apoiaria um movimento que tentasse conscientizar a todos que o racismo é
coisa ultrapassada, que nós, os negros, deveríamos ocupar os
lugares que nos são de direito em todos os segmentos sociais?
Adhemar –
Não se trata de apoiar um movimento, trata-se de cada um de nós
cuidar de fazer alguma coisa para que um negro, seu filho ou uma negra, sua
filha, estudem, sejam alguma coisa na vida. Façam um sacrifício
e dêem estudo para essas crianças e eles, amanhã, serão
alguém. Vai demorar um pouco, talvez não seja para os netos,
talvez seja para os nossos bisnetos. Mas é uma maneira! Nós
temos que plantar para poder colher. Só dizer que o branco não
ajuda, isso não leva a nada.
Portal – No final
dos anos 70 houve um episódio de discriminação racial
contra o sr. em uma churrascaria e o sr. iniciou uma reação.
Naquela época, o sr. invocou a lei Afonso Arinos? Quantas vezes o sr.
se valeu dessa lei?
Adhemar –
Nunca acionei a lei Afonso Arinos em minha vida, porque é uma lei falsa.
Eu me lembro, quando eu morava no Rio, Afonso Arinos era um político
de renome e seu filho era candidato. Então ele subiu aos morros para
pedir votos e aí teria nascido a lei. É falsa. Eu jamais me
escudei nela para qualquer coisa, ela não diz nada para mim. Quanto
ao episódio que você citou, foi no Restaurante Quatro Rodas e
o que aconteceu foi que eles não queriam me servir. Mas veja que, mais
uma vez, prevaleceu o poder do ouro. Eu fui a uma delegacia, registrei um
boletim de ocorrência e depois, com o dinheiro, eles acabaram apagando
isso. Não adiantou nada. Dois dias depois o B.O. tinha desaparecido,
tinha sido apagado! E, para minha surpresa, ou não surpresa, o delegado
que me atendeu, passados esses dois dias, estava almoçando lá
no Restaurante Quatro Rodas...
* Entrevista
concedida em dezembro de 2000.
Proibida a reprodução parcial ou total sem autorização



