Humanismos
Parciais
A Negação
do Negro no Meio Acadêmico e Gay Brasileiro
Recentemente vi um antigo filme norte-americano, de Nicholas Ray, "The
Savage Innocents", em português chamado "Sangue Sobre a Neve", que evidencia
como a interação do "homem branco" ocidental com civilizações outras é sempre
traumática, marcada pela expropriação, pelo etnocentrismo e pela violência
física e simbólica diante daquele que aparece como estranho, imponderável,
aparentemente rudimentar e menos humano.
O filme, a despeito de proteger a "selvagem" civilização esquimó da civilização branca norte-americana, tem uma mensagem pessimista, uma vez que defende o ponto de vista de que, ciente das diferenças alheias, o melhor é que cada qual fique no seu canto. Os diferentes seriam irredutíveis um ao outro.
A propósito desta questão, a irredutibilidade de diferentes civilizações, proponho fazer uma rápida digressão sobre a evidência da precária redutibilidade do sujeito negro no Brasil no meio acadêmico e no meio gay.
Por que tematizar este sujeito nestes dois meios sociais? Por acaso não há negros e negras gays e intelectuais no Brasil? Claro que há. Por acaso o sujeito negro constitui uma realidade apartada, autônoma na academia e nos espaços de sociabilidade gay? É claro que não. O problema é que ambos os meios sociais, no Brasil, ao mesmo tempo que estão marcados por um discurso igualitário, universalista e humanista têm se mostrado refratários a afirmação da presença negra, estigmatizando-a, naturalizando-a, negando-lhe compensações historicamente devidas.
A política gay contrapõe o poder do macho, mas não contrapõe o poder político e econômico brancos. Mesmo no meio acadêmico, onde proliferam estudos sobre cultura negra e relações raciais, onde eminentes autores, em obras fundamentais, reconhecem a desigualdade racial e a situação de inferiorização do negro, este é sobretudo um "objeto" emudecido ou reconhecido nos termos previsíveis desde o senso comum.
Em várias cidades brasileiras, em ambientes gays caros, aparentemente sofisticados, antenados com o que há de moderno nos costumes, na moda, no teatro gay, já ouvi pérolas como "adoro negros", "sua cor é linda", "então você não acha bom ser um objeto de desejo?" ou então fui confundido com o garçom, com um michê.
No meio acadêmico, já ouvi de uma professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) a pérola "Você nem parece que é preto. Tão inteligente, tão sofisticado". Ou em ocasião mais recente, de um antropólogo, professor da Universidade de Brasília (UnB), que afirmava "não ter nada contra negros e homossexuais", embora seja visto nos corredores, por alunos e colegas, como homofóbico, racista e misógino, que "em relação a trabalhos medíocres (de um aluno negro e gay) não há o que comentar".
Que se passa então com a nossa civilização? O que pode explicar tamanho barbarismo e traição a uma alentada vocação humanista de gays e acadêmicos? Num clássico da Antropologia, chamado "Pureza e Perigo", a antropóloga norte-americana Mary Douglas faz uma reflexão sobre os sentidos e conexões entre pureza, poluição e perigo em "sociedades primitivas", que nos ajuda a pensar, em nossa sociedade, sobre a questão suscitada acima. Mary Douglas afirma que pensar sobre pureza implica assimilar a poluição como experiência correlata e em seguida observar nesta correlação, entre pureza e poluição, o perigo à continuidade das estruturas de um sistema social.
Trocando em miúdos, Mary Douglas defende que quando em uma sociedade comportamentos, ações, idéias, categorias sociais, instituições são ordenados, são também classificados como puros ou impuros, de modo que o perigo da desestabilização social seja evitado. Neste sentido, o grau de organização e de estabilidade de uma sociedade reflete o nível de consenso e legitimidade alcançado pela ordenação e hierarquização de experiências, puras ou impuras, em si mesmas não unitárias, inerentemente desordenadas.
Deste modo, o puro, o poluído e o perigoso são classificações simbólicas atribuídas a práticas sociais e situações que fazem sentido para o sistema social estabelecido e legitimam a ordem hierárquica, o poder de arbítrio de instituições e dos sujeitos que as representam de fato e de direito, e que por isso são hegemônicos.
Por conseguinte, para Mary Douglas, não há pureza ou impureza absoluta. Elas existem aos olhos de quem as vê, pode arbitrar e constituir verdade. A sujeira ofende a ordem de quem vê, arbitra e persegue a sujeira quando decora ou tinge um ambiente; persegue a doença, criando normas para se escapar do contato com a mesma; persegue os grupos marginais, excluindo-os, reprimindo-os ou mesmo exterminando-os.
Por outro lado, para Mary Douglas, não há nada de amedrontador ou irracional em nosso evitar a sujeira: é um movimento criativo, um esforço para relacionar forma e função das coisas, idéias e sentimentos, fazer da experiência uma unidade uma vez que sexo, necessidades fisiológicas, impressões de objetos, sensações ou emoções, diferenciações entre sagrado ou profano, são realidades movediças que precisam ser coletivamente orientadas.
É fácil imaginar que nestes termos a identidade gay enunciada, adscrita, já se constitui como uma impureza numa sociedade tremendamente homofóbica, mais grave ainda quando esta homossexualidade está representada num corpo negro.
É fácil imaginar também que se este sistema social homofóbico e racista não quer ver destruída sua solidariedade interna, não tolerará tal desarticulação de sua coesão e artificial simetria, expressa em práticas corporais e discursivas de um corpo que aparece sempre como "curioso", "selvagem", "misteriosamente potente", "sexualmente irrefreável", "sujo" e também "ameaçador" uma vez que retém o sujeito negro num campo discursivo, o da natureza, que o humanismo ocidental recusa.
Enfim, é um perigo para o sistema social repartir o poder de simbolizar a vida com aqueles cujos caracteres e idéias projetadas são ambíguos e anômalos, ou seja, não se enquadram na ordem social vigente. E, se lembrarmos, com Mary Douglas, que, por um lado, o corpo humano possui formas variadas, assimétricas, interior e exterior, orifícios de entrada e saída de fluidos, excrementos e objetos, mas também, por outro lado, margens físicas que são margens de idéias, de experiências físicas e emocionais, sociais e culturais, chegamos ao ponto de afirmar que negros e negras, sobretudo homossexuais, são corpos ideais para alojar o que parece impuro e perigoso à ordem social hegemônica.
Vistos como inconscientes e irracionais ameaçam o todo "universal", ou seja, o homem branco heterossexual. Temos então uma intrínseca articulação entre raça, sexualidade e poder no meio acadêmico e no meio gay, irredutível ao humanismo branco ocidental e muito mais à política homossexual pós "Rebelião de Stonewall" quando, em 28 de junho de 1968, na cidade de Nova York, homossexuais brancos de classe média reagiram à repressão policial e ao moralismo norte-americano e promulgaram uma identidade gay, o "come out" (assuma-se, saia do armário), modelar para todo o ocidente gay.
Esta nova identidade previu a alegria de relações sexo-afetivas igualitárias, ajustadas aos modernos casais heterossexuais, afirmativa, politizada, mas condenou o sexo promíscuo ou o sexo perigoso com prostitutos e pessoas de classe e etnia inferiorizadas. Insistiu também em práticas racistas e no fetiche do corpo negro. Além disso, é ordenada por hábitos de consumo de bens materiais e simbólicos, nem sempre disponíveis àqueles que em virtude da posição de classe, raça, idade ou origem étnica que ocupam não podem usufruir.
Do mesmo modo, constatamos que na academia brasileira não existe um humanismo devidamente legítimo. Isto porque o consenso humanista nesta academia, em torno do que é justo, correto e atraente, segue a orientação do pensamento de um masculino heterossexual branco. Este pensamento nega a presença negra para assimilar o indivíduo "mestiço" protegido pelo sistema e, uma vez cooptado, repositor de desigualdades e mediações que não estão nos genes, ao contrário, são inferências político-ideológicas. Enfim, no meio gay brasileiro, não há, a rigor, "come in" (onde entrar como tal aquele(a) que saiu do armário?) para o negro ou a negra gay que faz o "come out". E, ao meu ver, isto é uma questão que o meio gay precisa enfrentar. Numa sociedade, como é a brasileira, tão hierarquizada, resistente à multiplicação de vozes sociais, à distribuição de poder, o meio gay é uma ponta importante para a crítica ao heterocentrismo do macho e desnaturalização de certezas sobre o que é puro e impuro, de certezas que orientam a opressão não apenas de gays, mas de outras categorias sociais como mulheres, indígenas e, é claro, negros.
Texto elaborado por Ari Lima, doutorando em Antropologia Social na Universidade de Brasília