Contradição Em Tempo Real
por Rodrigo Carneiro

Em visão de São Paulo à noite – "Poema Antropófago sob Narcótico", o grande visionário Roberto Piva nos oferece a seguinte lírica:

"Na esquina da Rua São Luís uma procissão de mil pessoas/
acende velas no meu crânio/
há místicos falando bobagens ao coração das viúvas/
e um siliêncio de estrela partindo em vagão de luxo/
fogo azul de gin e tapete colorindo a noite, amantes/
chupando-se como raízes/ .../
correrias de maconha em piqueniques flutuantes/
vespas passeando em voltas das minhas ânsias/
meninos abandonados nús nas esquinas/
angélicos vagabundos gritando entre as lojas e os templos/
entre a solidão e o sangue, entre as colisões, o parto/
e o Estrondo"

As imagens descritas por Piva são de extrema beleza e força. E, desculpando a apropriação, elas vem ao encontro das minhas impressões conflitantes sobre a cidade de São Paulo. Aqui se vive a contradição em tempo real. O ecletismo cosmopolita tem ranço de província. A auto-intitulada capital internacional da gastronomia é campeã do fast-food.

Os skinheads neo-nazistas são pardos. As melhores tatuagens não estão nos corpos dos membros da Yakuza. As garotas de programa estudam Direito e Comunicação Social. Um extinto clube noturno, localizado ao lado de uma suntuosa delegacia de polícia, era uma espécie de Amsterdã paulistana. Os mendigos têm estilo e "good accent". A fina flor aristocrática assiste a espetáculos eruditos praticamente no quintal dos miseráveis transtornados pelo crack. A Luciana mora no andar de baixo do Presidente da República. A lista vai ao infinito.

Mas deixando de lado as digressões, e afirmando a saudável contradição, há algumas ocasiões em que São Paulo tem sim a minha cara. Uma nova-iorquina encantadora que eu conheci recentemente no Rio de Janeiro me disse algo do gênero. Eu adoro. Contudo, tenho os meus momentos de Pedro e nego até mais de três vezes qualquer envolvimento com a Paulicéia Desvairada, principalmente quando ela não se mostra tão desvairada assim. Eu odeio. E em casos como esses digo o não e mando o mote curiosamente criado em por um gaúcho: Caminha que aqui é de Osasco.


Rodrigo Carneiro é produtor, músico e jornalista.