Ainda sob o efeito do excelente Carmen Negra (Karmen Gei,
2001), do senegalês Joseph Gaye Ramaka, na disputadíssima
Mostra Africana "Olhos Negros", do Festival do Rio BR
(infelizmente o único que pude assistir da mostra, por conta
do típico corre-corre de uma mulher negra e urbana), quero
abordar outro filme sobre a temática negra, porém brasileira:
o também ótimo Cidade de Deus, que continua sendo um dos
fenômenos de bilheteria (já ultrapassou a marca do um milhão
de espectadores em seis semanas), e que ainda cala fundo
entre negros e não negros, provocando opiniões contraditórias
e polêmicas.

Adianto que o assunto me é muito familiar. Embora hoje esteja
"fora" do ambiente, passei minha infância no cenário real do
filme. Sou "praticamente" nascida e criada no conjunto
habitacional da Cidade de Deus. Convivi com alguns dos
personagens do filme no meu dia-a-dia. A irmã da mulher que
levou o tráfico de drogas para a favela, por exemplo, morava
no meu prédio. E, claro, tudo que vi e vivi tem forte impacto
na minha formação.

Não me surpreende, portanto, a polêmica que o filme de
Fernando Meirelles e Kátia Lund tem provocado no público
brasileiro. De acusações, até rasgados elogios ou o temor
incentivado pelo medo. Cada manifestação é reveladora. Na
polícia, a indignação com a ousadia em mostrar a história por
outro ângulo. Na classe média, surpresa ao deparar-se com a
realidade crua e violenta que, até aqui, fingia não ver.
Entre os moradores da favela (e MV Bill é o principal porta-
voz), o pavor com a possibilidade de enfrentar o acirramento
negativo da imagem da comunidade localizada na zona oeste do
Rio, piorando, assim, o sentimento coletivo de exclusão.

Nem mesmo o escritor Paulo Lins, autor do best seller
homônimo, no qual o roteiro de Cidade de Deus é baseado,
escapou de ser surpreendido. Na última semana da série de pré-
estréias, ocorrida na Federação das Indústrias do Estado do
Rio de Janeiro (Firjan), Lins não suportou a pressão, passou
mal e não participou do debate. Talvez por ser demais ver a
elite opressora ali reunida, sendo alimentada pelo maior
fruto de sua obra-prima. Afinal, ninguém disse que o diálogo
seria fácil.

O filme expõe diversas feridas. Uma delas é a constituição do
espaço urbano sob a égide da exclusão. Não foi dada nenhuma
alternativa social ou econômica àquele grupo. De novo a
história se repete. Desde a abolição oficial da escravidão no
Brasil, há centenas de exemplos tristes, cujos efeitos
sociais vem saltando aos olhos da sociedade racista.

Outra face cruel do filme é a morte anunciada de gerações
inteiras agravada pelo silêncio de autoridades, empresários e
políticos. Ali, naquele espaço tempo fragmentado pela
estética cinematográfica, fica evidente os terríveis efeitos
da perda da identidade racial e da exclusão social. Afinal
crianças, jovens, homens e mulheres dali eram (são) negros em
sua maioria jogados a escanteio.

É desumano tudo isso ter permanecido sob o manto da
invisibilidade. Principalmente porque são seres de carne e
osso que ali vivem, e não objetos para teses acadêmicas
tratados com o devido distanciamento exigido pela
intelectualidade ocidental. Lembrando que a cegueira ainda
hoje é um dos principais entraves que limitam o debate sobre
a eliminação das desigualdades sociais e raciais. (Ficam
cegos quando a discussão aborda a divisão das riquezas. Por
que será?)

A pior ferida, no entanto, está nas entrelinhas. Há uma
pergunta que pulsa e não silencia: quem é responsável pela
explosão da violência nos grandes centros urbanos, em
especial no Rio de Janeiro?. O debate não é novo, mas ainda é
capaz mexer com "consciência tranqüila" de muita gente. E,
pela dimensão que o cinema alcança, talvez seja este o maior
mérito do filme Cidade de Deus. Mexer com "consciência
tranqüila" de vários grupos simultaneamente.

Enquanto isso, nas cerca de 550 favelas da cidade do Rio de
Janeiro (as mesmas que contraditoriamente ajudaram a derrotar
nas últimas eleições Benedita da Silva, nossa liderança
política negra contemporânea) o "couro come e ninguém vê",
como já escreveu o meu talentoso amigo Serginho Meriti. Do
filme, a lição que fica é até simples: se hoje a Cidade de
Deus é vitrine e ajuda a revelar nossas veias abertas, que
então a sétima arte sirva, enfim, de portal para um diálogo
múltiplo e real nesta sociedade. Fácil ou não, sem ele, não
teremos para aonde ir.

*Angélica Basthi é jornalista.
e-mails para: abasthi@aol.com

Cidade de Deus, exclusão e racismo
Por Angélica Basthi
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Leandro Firmino
Douglas Silva