Retratos de mulher negra
por Angélica Basthi*
Rita tem 37 anos, é negra, casada, tem 3 filhos. Trabalha como secretária bilíngüe numa multinacional. Mora no Méier, bairro da zona norte carioca. No dia Internacional da Mulher, recebeu flores do marido, que é branco, cumprimentos dos colegas de trabalho, e-mails de amigos, elogios do chefe.
Rita viu reportagens na TV, leu matérias em revistas, ficou ciente de que a mulher teve uma avanço extraordinário nos últimos 40 anos. Sentiu vontade de saber sobre o avanço da mulher negra através de pesquisas. Queria ver matérias na mídia sobre o assunto. Não achou.
Marina tem 19. É negra, tem uma filha de quatro. Não tem residência fixa. Ultimamente tem dado um tempo na casa da tia, no morro da Providência. Fugiu de casa aos 9. Vive de esmola. No dia Internacional da Mulher estava com a filha B. perambulando pelas ruas do Centro do Rio. Um pouco antes, ouviu cedinho, no rádio, um homem cantando parabéns. Pensou na Xuxa. Nem percebeu.
Ambas experimentaram o efeito sutil e devastador da fragmentação da auto-estima no mundo real. Rita, mulher bem-sucedida, procurou, sem sucesso, informações sobre a mulher negra nos meios de comunicação. Marina, sem esperança ou perspectiva, traz incutido na mente o biotipo da beleza branca padronizada e repressiva.
Faz-se o tempo da transformação. Os meios de comunicação não agem. Ou, se agem, são tímidos no agir. A educação básica continua a reprimir nossas meninas negras. Os índices de violência contra a mulher negra lideram as estatísticas. Ainda somos raridade nas universidades. E somos poucas lideranças políticas com ressonância na opinião pública.
A mulher negra vem conquistando espaço significativo no mundo da beleza, moda e publicidade. Mas ainda rema contra ondas gigantes. Rita e Marina merecem o melhor que a sociedade tem a oferecer. Tudo para Rita, mulher negra consciente de sua cidadania. Tudo para Marina, mulher negra que não sabe ainda quem realmente é.