O preto no branco
Por Angélica Basthi
É certo que João Ubaldo Ribeiro é um dos maiores escritores contemporâneos. O que poucos sabiam é que ele tem opinião intrigante sobre o que é politicamente correto. Num artigo publicado no jornal O Globo, João Ubaldo questiona o real sentido desta postura e afirma: "...se a pessoa quer ser de fato politicamente correta, não contará ou apreciará mais nenhuma piada, pois a maior parte delas faz gozação com alguma categoria...haverá os que pensam que, sendo passíveis de regeneração, os bandidos não podem constituir alvo de chacota ou gozação, o que somente aumentaria os ressentimentos e traumas que são tidos como os fatos geradores de sua criminalidade..."
Quanto ao emprego de palavras que ferem a auto-estima do negro, assim ele justifica-se: "...quanto ao vocabulário, a atenção tem que ser redobrada. Já não emprego, por exemplo, "há nuvens negras no horizonte", porque, se de fato nuvens negras ou fuliginosas costumam, como todo mundo sabe, prenunciar mau tempo, não quero com isso ofender a população negra, embora, ao usar a metáfora, não esteja nem de longe pensando nos negros e abomine qualquer tipo de preconceito. Nem a negritude das nuvens tempestuosas tem nada a ver com a negritude humana. Mas, se usar a expressão, mesmo como exemplo, chega carta reclamando..."
Cartas reclamam... E por que será? O que relato a seguir aconteceu dia desses de 2001. Ilustra o hiato que o mau emprego da linguagem pode causar. A pedido, os nomes foram trocados. Carlos, 30 anos, negro, corpinho sarado, malha todo o dia numa academia. Profissional liberal, é comunicativo e dono de uma personalidade forte. Sabe valorizar a sua negritude e manter a auto-estima em alta. Trata polidamente Luís, uns 65 anos, branco, aluno novo da academia. Senhor simpático, disposto a viver mil anos, tipo de bem com a vida.
Numa manhã, Luís decide fazer uma piada racial com Carlos. Daquelas que não fazem mal a ninguém. Talvez como prova do quanto ele, do alto dos 65 anos, é tolerante quando o assunto é a cor da pele:
Silêncio. O único a rir alto é o senhor simpático. Carlos respira e devolve a brincadeira:
Luís emudece.
O episódio revela que a "metáfora" proposta no artigo de João Ubaldo não consegue captar a troca de "fluidos raciais" que ocorre no dia-a-dia. Carlos sentiu um profundo mal estar provocado pela agressividade gratuita de um colega da academia.
Um típico confronto racial dentro dos moldes tradicionais. Por tradicional entenda-se a suposta "não intenção" do homem branco em atingir a dignidade do homem negro. Por "não intenção", leia-se o medo inconsciente de fazer contato com o que é diferente.
A sociedade brasileira sequer chegou perto da chamada democracia racial ou convivência pacífica entre as raças. Ainda vivemos submersos pela raiva e culpa de quase 400 anos de escravidão.
E mesmo após 113 anos da abolição, busca-se o sonho de um Brasil fraterno, igualitário, harmonioso e plural. O que se vê é bem diferente disso. De piadas e metáforas aparentemente inofensivas até a atual polêmica que reserva 25% dos elencos de produções artísticas e culturais para atores negros.
É certo que longa é a trajetória. Até aqui, sabe-se que a visibilidade, ascensão social e aceitação do negro passa obrigatoriamente pela conquista. Conquista de ser visto e mencionado de forma digna. Conquista de espaço, respeito, educação, dignidade, oportunidade e cidadania. E, por que não?, a conquista de uma nova forma de abordar o negro na mídia. A tinta preta no papel branco ganha, enfim, uma roupagem nova no dia-a-dia.