Cultura negra brilha na cena artística
Novembro, o mês consagrado à cultura negra (o
dia 20 lembra o líder Zumbi dos Palmares) chega repleto de espetáculos
e atividades em torno do tema, produzidas por artistas negros.
Estréia de peça, produção de filmes e lançamento
de livro celebram mês da cultura negra
No teatro, estréia hoje na Fundição Progresso a peça
A Roda do Mundo. No cinema, o MinC e a Secretaria do Estado de Cultura anunciam
patrocínio a produções com a temática negra. E
o livro O Negro Brasileiro e o Cinema, de João Carlos Rodrigues, mostra
a presença do negro na arte cinematográfica brasileira (na foto,
Ruth de Souza estrelando Sinhá Moça).
Consciência artística
Às vésperas do mês de novembro - que já ganhou
o status de Mês da Consciência Negra -, é tradicional a
edição de eventos, livros, prêmios e filmes sobre o negro
no Brasil. Este ano, no entanto, há um diferencial que merece uma abordagem
no mínimo mais atenta sobre o assunto. O ataque terrorista em Nova
York não só detonou a crise mundial como trouxe às claras
o debate sobre a intolerância e as diferenças que imperam no
mundo.
É neste cenário nebuloso, porém rico em questionamentos
raciais, que o carioca assiste, a partir de hoje, um pacote de lançamentos,
estréias e seminários que prometem aprofundar ainda mais o debate
sobre a participação do negro na sociedade.
A peça A Roda do Mundo, da Cia dos Comuns, grupo formado por 14 atores
sob a direção de Hilton Cobra, inaugura hoje a noite a série
de estréias teatrais. Além do teatro, o cinema também
começa a abrir espaço para a temática do negro na sétima
arte. Os governos federal e estadual estão anunciando investimentos
em curtas sobre o assunto. Até na literatura a relação
entre negro e o cinema ganha destaque com o lançamento de O Negro Brasileiro
e o Cinema, de João Carlos Rodrigues, que chega às livrarias
na semana que vem.
Enquanto isso, a Prefeitura prepara, de 6 a 8 de novembro, o seminário
Cotas da Escravidão, com a proposta de debater, entre outras, o tráfico
negreiro e as conseqüências da Conferência Mundial contra
o Racismo, que aconteceu em setembro, na África do Sul. O encontro
será no auditório da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos,
no Centro (RJ), com entrada franca
A estréia do espetáculo A Roda do Mundo, hoje às 20h,
na Fundição Progresso, é a realização de
um sonho de Hilton Cobra. Há 10 anos, ele acalenta o desejo de criar,
no Rio, uma companhia de teatro especializada na temática negra, a
exemplo do que acontece na Bahia com o Bando de Teatro do Olodum. 'Ninguém
se interessava em investir nesse assunto. Até que, este ano, tive o
patrocínio de R$ 240 mil da Secretaria de Estado de Cultura e da Eletrobrás.
Finalmente entenderam que não é mais possível a comunidade
negra ficar fora da divisão do espaço cultural da cidade', diz
Cobra.
A falta de abertura atinge em igual proporção, embora mais sutil,
o cinema nacional. Nunca houve um aceno de patrocínio institucional
para filme com a temática étnica. E muito menos a preocupação
em estimular a formação de cineastas negros no Brasil. Falha
essa que, tanto o governo federal quanto o estadual, tentam rever a posição.
O Ministério da Cultura mantém abertas até 2 de novembro
as inscrições para o Concurso de Apoio à Realização
de Projetos de Obras Cinematográficas de Baixo Orçamento e Telefilmes
inéditos do gênero ficção e/ou animação,
com orçamento de até R$ 1 milhão. Dos 16 contemplados,
quatro estarão sendo avaliados pela Fundação Cultural
Palmares, órgão ligado ao Ministério da Cultura responsável
em estimular a cultura negra no Brasil.
Tudo azul, não fosse um impedimento técnico: a exigência
de comprovação no currículo de direção
de um curta e um média-metragem ou de um longa. Luis Antônio
Pilar, um dos diretores da novela A Padroeira, é um dos primeiros a
apontar o problema. 'Eu, por exemplo, não posso me candidatar. Isso
elimina a maioria dos cineastas negros que poderiam participar', diz. O ator
Antônio Pitanga, que já dirigiu Na Boca do Mundo, em 1979, e
portanto, é um dos poucos que tem chances de seleção.
'É um aceno digno de aplauso, embora tímido. Se não há
o exercício da prática, como o cineasta negro poderá
se encaixar em tanta exigência?', questiona.
A voz que sai em defesa do governo federal é, ironicamente, um representante
oficial do governo do estado. José Carlos Avelar, subsecretário
audiovisual da Secretaria de Cultura, explica que a abertura do cinema nacional
para temática do negro neste momento reflete a dinâmica do cinema
brasileiro. 'Não podemos esquecer que fim da Embrafilme provocou uma
paralisação de 10 anos na produção nacional. Hoje
vemos a criação da Agência Nacional de Cinema e o anúncio
de um museu para a área. É natural que se pense em abrir espaço
para a cultura negra neste momento', diz.
O próprio Avelar é hoje, ao lado do ator e diretor Jorge Coutinho,
um dos responsáveis pela edição, na Secretaria de Cultura,
de um projeto de apoio à produção de curtas, sob o título
provisório de Filme Escola. Este ano, o apoio está sendo específico
para diretores negros. São quatro roteiros, já escolhidos, que
receberão R$ 43 mil cada, para produção de um curta de
15 minutos. O início das filmagens será 31 de novembro. A Secretaria
já incluiu o projeto no orçamento de 2002. Em contrapartida,
os diretores têm de realizar workshops em escolas no interior do estado.
'A idéia do projeto é investir na formação de
novos cineastas e estimular novas platéias pelo interior do estado.
Este ano, escolhemos os municípios onde há maioria negra como
Cabo Frio, Volta Redonda e Campos', explica Coutinho. Os contemplados foram
Luis Antônio Pilar, Maria Alves, Antônio Pompeu e o veterano Zózimo
Bulbul.
Na literatura, o livro O Negro Brasileiro e o Cinema (editora Pallas), de
João Carlos Rodrigues, mostra como o negro vem sendo retratado na história
do cinema. O projeto vem sendo gerado desde 1972 e só agora chega a
público em forma de livro. Sem nenhum tom sociológico aprofundado,
o autor aponta os estereótipos que, ainda hoje, passam despercebidos
na cinematografia ou na mídia em geral. Já na apresentação,
Rodrigues sintetiza o que o levou a escolher o negro como tema. '...exatamente
por ser um assunto polêmico.' De fato, para muitos, trata-se de uma
polêmica fascinante.