


Vozes
da África
Quatro gerações de uma família se unem para cantar suas
tradições em coral que existe há mais de 30 anos
Luiza Villaméa
- Revista ISTOÉ
8 de janeiro de 1997
Cantar junto sempre foi um hábito na família Alcântara, composta por descendentes de escravos trazidos de Angola para Minas Gerais por volta de 1760. Na esteira da tradição, a matriarca Filomena Tomázia, 90 anos, que nasceu menos de duas décadas após a abolição da escravatura no Brasil, ensinou à prole as músicas que aprendera com seu tio-avô, chamado de mestre Afonso. Coroada rainha de Congado, o ritual que celebra crenças africanas com músicas e danças, Filomena, conhecida como Vó Mena, cultivou suas raízes em terreno fértil. Seu costume de cantar junto com os filhos e o marido, morto em 1981, possibilitou há mais de 30 anos o nascimento de um coral que não pára de crescer e lançou no no ano passado seu primeiro CD, pelo selo mineiro Alca Music. São quatro gerações de uma mesma família interpretando músicas religiosas, afro-brasileiras, blues e spirituals, como Nobody knows, de Robert Shaw. Quando todos se reúnem, Vó Mena acaba cercada por seus oito filhos, 23 netos e 17 bisnetos. Até o pequeno Thomaz, de cinco meses, veste roupa de gala e ensaia com o grupo seus primeiros sons.
Radicados desde o final do anos 60 em João Monlevade, uma cidade de 63 mil habitantes do Vale do Aço mineiro, os Alcântara viviam originalmente a 42 quilômetros de lá, no antigo povoado de Caxambu. Mantêm até hoje a casa construída em terreno doado por fazendeiros da região aos ex-escravos que continuaram a trabalhar em suas terras depois da proclamação da Lei Áurea. "Todo ano voltamos para a festa de Nossa Senhora do Rosário", diz Vó Mena. A mudança da família foi acontecendo aos poucos, à medida que os homens conseguiam emprego na siderúrgica Belgo Mineira, que tem sede em João Monlevade e patrocinou a produção do CD.
O coral nasceu ainda nos tempos em que moravam em Caxambu, por iniciativa de Pedro Antônio, hoje com 45 anos, um dos filhos de Vó Mena. "No princípio, mamãe ficou cismada com a idéia, achando que a igreja era só das cantoras antigas, que conheciam o latim", lembra ele. "Depois que fundamos o coral, é sempre uma das cantoras mais animadas." Outro impulso importante chegou através de sua irmã Cassimira Tomé, a Nini, 50 anos, que desde menina trabalha como doméstica em Belo Horizonte. Quando as missas passaram a ser rezadas em português, ela começou a trazer para o povoado letras de músicas cantadas em igrejas da capital. "Ficávamos ensaiando a noite inteira", conta Nini.
A pesquisa musical, o estudo de partituras e a classificação das vozes entrou para o cotidiano do grupo um pouco mais tarde. Ainda adolescente, em João Monlevade, Pedro Antônio ficou encantado com músicas que ouvia a caminho do trabalho, de uma igreja aparentemente fechada. "O som era tão bonito que às vezes eu achava que vinha de uma vitrola", lembra. Ele demorou quase dois meses para ter coragem de se aproximar da porta dos fundos do templo, onde uma missionária holandesa ensaiava o coro local. Surpreendido pela religiosa com o ouvido colado na porta, acabou ganhando acesso aos ensaios e, posteriormente, a aulas individuais. "Ela dizia que ensinaria a mim para que eu fosse o professor de minha família", recorda. A fórmula deu certo. Solista de Kamiolê, uma cantiga infantil do Zaire que faz parte do repertório do grupo, Josiene, nove anos, diz que adora estudar com o fundador e regente do coral da família. Seu irmão Vinícius, sete anos, vai mais longe na admiração pelo trabalho de Pedro Antônio. "Quando crescer, quero ser o regente", planeja o garoto.
Por enquanto, o único que substitui Pedro Antônio é José Carlos, o Zeca, que introduziu a percussão nas apresentações do grupo. Sua atividade se intensificou nos últimos dez anos, a partir do momento em que Pedro Antônio decidiu dividir o ano entre temporadas musicais com a família e trabalhos temporários em Toronto, no Canadá, onde faz serviços gerais. De lá trouxe a mania de usar expressões como "yeah" e "all right" em suas conversas, destoando do vocabulário familiar, repleto de termos africanos, herdados do tio-avô de Vó Mena. Do Canadá, ele também costuma trazer inovações musicais, como Tchaoulum, adaptação de uma canção chinesa, interpretada originalmente em mandarim e incorporada ao repertório do coral.
Enquanto o regente se ocupa da vanguarda, Nini tenta aprofundar seus vínculos com as raízes. "O mestre Afonso, que era escravo, tinha um manuscrito com o dialeto", afirma. "Tudo se queimou durante um incêndio em sua cabana, feita de sapé." Recentemente, Nini montou uma peça em dois atos que a família apresenta em cidades do interior mineiro, em viagens promovidas pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). No primeiro ato, as brigas por território protagonizadas por duas tribos africanas - os wazilles e os angolanos - acabam graças ao casamento entre filhos dos dois povos. A segunda parte da peça mostra a desintegração das tribos, quando os negros são retirados da África e enviados para o Brasil.
Além de ser uma família muito bonita, os Alcântaras fazem um trabalho fantástico de resgate cultural", diz o compositor e pesquisador de música afro Markú Ribas. Há quatro anos, ao realizar uma oficina de música em João Monlevade, Markú conheceu o coral. Meses depois, levou-o a um estúdio para gravar duas participações em seu disco Autóctone. Numa das faixas, os Alcântara interpretam uma música em um dialeto jamaicano. Foi o estímulo que faltava para a família ampliar suas apresentações para além das missas e festejos locais e conseguir registrar suas vozes em CD. Em novembro último, eles saíram pela primeira vez das fronteiras de Minas para se apresentar no Concerto Negro, ao lado do cantor e compositor Martinho da Vila, na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, em comemoração aos 300 anos da morte de Zumbi dos Palmares. Elo de união da família, o coral mostra cada vez mais seu canto. Quem cuida da agenda e reúne todos os parentes para ensaios e aparições públicas é Ivone, outra filha de Vó Mena. "É uma luta encontrar um horário bom para todo mundo", afirma. Entre uma apresentação e outra, cantores e cantoras da família Alcântara pegam no batente como qualquer outro operário do País. "Sou como a Gata Borralheira", compara a contralto Cláudia, cujas três filhas pequenas também têm participação ativa na vida musical dos Alcântara. "Num momento, estou fazendo faxina para fora, em outro, solto o cabelo, coloco o uniforme do coral e viro artista."



Apresentação do Coral, na PUC-MG, em agosto de 2002


