Com o pé na cozinha e a chave do caixa:
CEABRA ensina culinária a jovens carentes da periferia.

Que tal um suculento vatapá? Com generosas postas de peixe e farto em camarões. Tentador, não? Naturalmente o quitute nos remeteria às esquinas de Salvador, ou a um dos poucos restaurantes típicos da culinária afro-brasileira.

Esqueça estes cenários óbvios e imagine-se degustando a iguaria no Centro Comunitário da Igreja São José, em Sapopemba, zona leste de São Paulo. Nas caçarolas, no lugar de uma "negra baiana que saiba mexer", como pede a canção de Caymmi, estão jovens carentes que até pouco tempo perambulavam pelas ruas à procura de um "bico" que pudesse aumentar a irrisória renda de suas famílias e afastá-los do sedutor comércio de entorpecentes, poderoso na região.

Tal proeza deve-se ao projeto "Arte na Cozinha", idealizado pelo CEABRA - instituição formada por empresários e empreendedores negros – cujo objetivo é qualificar pessoas para desenvolver habilidades técnicas adequadas ao serviço de alimentação, voltada à culinária de influência africana.

A atuação do CEABRA na área de capacitação profissional não é novidade. Há três anos, constatando a quase inexistência de empresários e a pouco significativa quantidade de empreendedores negros, geralmente mal formados, o grupo concluiu que o mais urgente seria capacitar pessoas que pudessem vir a desenvolver seus próprios negócios, gerando renda e empregos.

Desde então, o Ceabra atua com sucesso na área educacional e numa feliz iniciativa inaugurou em julho deste ano o curso de cozinha afro-brasileira. Para João Carlos Martins, presidente do órgão, o curso pretende formar os jovens e depois procurar empresários interessados em financiar a abertura de restaurantes típicos, nicho de mercado pouco explorado em São Paulo.

Neste projeto, contam com o apoio do grupo "Espaço Negro", que atua há mais de dez anos junto às favelas da região. Além de ceder a cozinha, onde são realizadas as aulas, a ONG foi responsável também pelo cadastramento e seleção dos bolsistas, todos oriundos da própria comunidade.

Eloísa Meneses e Cássia Ferreira, são as principais instrutoras.


A primeira responde pela prática. Técnica em nutrição, é dona de um respeitável currículo, com experiência em liderar grandes cozinhas, como a da Arno, por exemplo. Conduz com pulso firme seus alunos, revestindo com rara dignidade os acepipes da culinária afro-brasileira. Eloísa saúda a experiência no projeto como um marco em sua carreira: "Cada aula é um novo desafio. Aprendo muito com eles. Tanto quanto eles", diz, exultante.

A nutricionista Cássia mora no bairro há 15 anos. É responsável pelas aulas teóricas, abordando temas como higiene e equilíbrio alimentar. Ao contrário de sua colega, conhece bem o cotidiano de um bairro carente e violento. Membro ativo da comunidade, Cássia recebeu com muita alegria o convite do CEABRA. Ciente do perigo que o tráfico representa à esses jovens, festeja a possibilidade de garantir que ao menos esse grupo tenha a oportunidade de seguir uma carreira longe do crime.

Para tanto, o curso vai além da cozinha. São 600 horas divididas em três módulos:

Básico: com aulas de português, matemática, cidadania e nutrição;

Específico: onde acontecem as aulas práticas (forno & fogão) e

Vivência prática: etapa final do curso, com estágios diários.

Também são desenvolvidas atividades sócio-educativas, como capoeira.

Rosângela Maria de Paula, Coordenadora Pedagógica do projeto, explica que todas as disciplinas são interligadas, com o intuito de trabalhar a auto-estima dos jovens negros, normalmente baixa na periferia. Nas aulas de português, por exemplo, os textos escolhidos para análise dizem respeito à vivência e história do negro. Desta forma, os valores preconceituosos da sociedade são repensados e discutidos em classe.

Além de apoio psicológico, os adolescentes contam com refeições, assistência médica, vales-transporte e uma ajuda de custo mensal no valor de R$ 50,00.

Eduardo é um dos bolsistas do projeto. Negro, com 17 anos, mora com o irmão mais novo e a mãe, uma diarista em constante procura de trabalho. Cansado de procurar uma ocupação, entrou no projeto disposto a qualificar-se e assim conseguir uma chance para o primeiro emprego. Pretende emendar o curso de culinária com o de garçom, para aumentar ainda mais suas possibilidades de empregabilidade.

Casada e mãe de um filho, Meireney, de 21 anos, interrompeu os estudos durante o 2o. grau. Apaixonada por cozinha, sentiu-se ainda mais atraída ao saber que o curso giraria em torno da culinária afro-brasileira. Consciente de sua situação. Meireney reconhece o preconceito que sofrem os jovens da comunidade negra, principalmente os que moram na periferia. Ansiosa para conseguir emprego e poder voltar a estudar, aponta outras vantagens no projeto, como as aulas de cidadania (conduzidas por uma psicóloga) que, segundo ela, mudaram sua vida.

Um dos exemplos que comprovam a viabilidade do "Arte na Cozinha" é o de Paulo Edson da Silva, de 19 anos. Entusiasmado com o curso, Paulo submeteu-se a um teste para ajudante de cozinha, por curiosidade. Foi aprovado e contratado. Mesmo antes de finalizar o curso, suas habilidades já eram superiores a de outros concorrentes, alguns com experiência comprovada.

Previsto para terminar no início de dezembro, o curso já pode ser considerado um sucesso. Além da formação profissional, os trinta novos "cozinheiros" saem do projeto fortalecidos como cidadãos. Conscientes de seus direitos e seguros de suas capacidades, poderão construir um futuro bem diferente daquele que normalmente é reservado a seus pares: abandono e delinqüência, pela ordem.

João Carlos Martins, presidente do Ceabra
Rosângela Maria de Paula, coordenadora pedagógica
Em destaque, Eloísa Meneses, uma das instrutoras do projeto.
No dia de nossa visita os alunos preparavam vatapá. Na sequência as fotos mostram alguns momentos da aula.