Auta de Souza

Urge falar com brevidade de Auta de Souza. As mulheres negras brasileiras estão descobrindo a frágil e pequenina Auta, que foi também, como poeta, Ida Salúcio e Hilário das Neves.

Auta de Souza nasceu em Macaíba (RN), em 12 de setembro de 1876, filha de Elói Castriciano de Souza e de D. Henriqueta Leopoldina. Preta, é assim que Luís da Câmara Cascudo relembra a poetisa de "Horto": "Pequena e magra, dois imensos olhos negros reluzentes e vagos, Auta passava na velha natal como um fantasma querido."

Viveu apenas 24 anos, quatro meses e sete dias, tendo começado a escrever aos 14 anos. Em 1887 entrou para o Colégio de São Vicente de Paula, no Recife (PE), dirigido por religiosas francesas, onde permaneceu três anos, sendo ótima estudante. Assim veio a dominar o francês, falando-o, lendo-o e escrevendo versos. Em 1892 saiu do prelo "Iriações", primeiro livro do irmão poeta Henrique Castriciano. Dela nada se encontra nesse período. Tuberculosa, começou de 1893 em diante as peregrinações em busca de melhorar a saúde. Essa é a fase de sua maior atividade literária. Em 1894, fundado o Clube do Biscoito, que promovia reuniões nas casas dos associados, dele participa, declamando versos, também muitas vezes musicados. Apesar de doente, era alegre companheira para todas as ocasiões. Em 1896 colabora com o jornal do governo, A Repuública. No ano seguinte foi fundado o Congresso Literário, com A Tribuna, da qual faz parte, apesar de negra. Compilou os versos de 1893 a 1897, sob o título de Dálias, mudado depois para Horto. Em 1899, por insistência do irmão, Henrique Castriciano, submete Horto à apreciação de Olavo Bilac, que escreveu o prefácio para a primeira edição. Transferiu-se a seguir (1900) para natal, indo morar no Barro Vermelho. "Horto" saiu da gráfica em 20 de junho desse mesmo ano.

Auta de Souza faleceu a 4 de fevereiro de 1901, à 1 hora e 15 minutos da manhã.

Fragmentos de poema de Auta:


Estrelas fulgem na noite em meio
Lembrando círios loiros a arder...
E eu tenho a treva dentro do seio...
Astros! Velai-vos, que eu vou morrer!

Ao longe cantam. São almas puras
Cantando à hora do adormecer...
E o eco triste sobe às alturas...
Moças! Não cantem que eu vou morrer!

De lá do campo cheio de rosas
Vem um perfume de entontecer...
Meu Deus! Que mágoas tão dolorosas...
Flores! Fechai-vos, que eu vou morrer!

(Agonia do Coração, de Horto)


Causam-me tantos martírios
As tuas mãos adoradas
Com estes dedos de fadas,
Tão formosos e pequenos...
Que eu chamaria dois lírios
Se houvesse lírios vermelhos!

(As Mãos de Clarisse, de Horta)


Alguns escritores negros querem que se inclua o nome de Auta de Souza na lista de poetas afro-brasileiros empenhados em realçar a sua porção negra, a sua africanidade, ou, pelo menos, a sua presença aqui diferenciada devido à cor da pele. Quem sabe se encontre, sob os versos de "Horto", surda e quieta, a palavra negra de Auta. Tudo é possível, mas, que saibamos, Literatura negra se faz e se mostra com indícios claros cercando o mais de perto uma intenção. Se incluirmos nesta literatura a pequena e frágil Auta de Souza, temos que forçosamente - levados por uma leitura intencionalmente subterrânea - incluir, por sua vez, Olavo Bilac, Machado de Assis, B. Lopes, Alberto de Oliveira, Henrique Castriciano, irmão de Auta, todos negros ou mulatos. A nosso ver se esquecem, esses propugnadores da presença de Auta nesta literatura de expressão negrista, que o que importa, ao final, não é ser, como cansativamente se intitulam tantos, um "poeta negro". O mais importante é primacialmente ser escritor, falar como quer Ralph Ellison, o competentíssimo e reconhecido romancista de "O Homem Invisível" - das experiências mais profundas do ser humano. Entre elas - se for o caso de um negro -, essa experiência. Inútil, porém, se não se trata de uma autêntica aventura de escritor. Nada justifica um escritor que não é, nem a cor da pele. E é aí que as mulheres negras têm razão de trazer à memória, dentro de sua busca de igualdade, a preta Auta de Souza: ela foi autêntica poeta, e como tal, é um nome que permanece. Está à frente, por isso mesmo, de "poetas negros" que perambulam pelo País oferecendo banquetes de palavras que soam qual mal-preparada e indigesta ceia: Auta de Souza, despretensiosa, foi poeta. Bastou isso, deixou marcas, e fica na literatura brasileira apenas com isso. Por que mais?
Oswaldo de Camargo.