Entrevista
com Claudete Alves em 31 de outubro de 2006
Transletter : Izabel Cristina R. Lucio
Edição : Antonio Lucio e Dévorah Nicolau
fotos - Jader Nicolau Jr.
Um pouco da história
Saiba como come'Em 2001, o escritor Oliveira Silveira concedeu uma entrevista
exclusiva para o Portal Afro, em Porto Alegre, contando sobre a origem do
20 de novembro como Dia Nacional da Consciencia Negra.
Oliveira Silveira – O 20 de novembro começou a ser delineado em encontros informais na Rua dos Andradas, aqui em Porto Alegre. Estávamos em 1971. Reuníamo-nos e falávamos muito a respeito do 13 de maio, do fato desta data não ter um significado maior para a comunidade. A partir desta constatação comecei a procurar outras datas que fossem mais significativas para o movimento. Comecei a estudar a fundo a história do negro e constatei que a passagem mais marcante era o Quilombo dos Palmares. Como não haviam datas do início do quilombo, tampouco do nascimento de seus líderes, optei pelo 20 de novembro. Colhi esta informação numa publicação da Editora Abril dedicada a Zumbi, que dava esta data como a de seu assassinato, em 1665.
Resolvi pesquisar um pouco mais, como forma de garantia. Mais adiante, no livro "Quilombo dos Palmares", de Edson Carneiro, a data se repetia. Além disto, tive acesso a um livro português que transcrevia cartas da época, numa delas era relatada a morte de Zumbi, em 20 de novembro de 1665. A partir de então colocamos em ação nossas propostas. Batizamos o grupo de Palmares e registramos seu estatuto, em julho. No dia 20 de novembro do mesmo ano (1971), evocamos pela primeira vez o "Dia Nacional da Consciência Negra", na sede do Clube Marcílio Dias.
A entrevista com a vereadora Claudete Alves
PA - Como começou a sua batalha pró
20 de Novembro?
CA - Na verdade, o 20 de Novembro foi o carro chefe da minha
campanha. Até então, político nenhum em São Paulo
tinha colocado, quando das suas candidaturas, esse tema como prioridade. Uma
das nossas prioridades era ao chegar na Câmara Municipal, trabalhar
para que fosse aprovado o 20 de Novembro como feriado municipal, na maior
cidade do país. Isso pra nós era uma questão de honra.
Em 2002, eu tive a oportunidade, antes de me efetivar como vereadora, de assumir
uma suplência no lugar de Ítalo Cardoso e nessa condição,
apresentei o projeto. Obviamente, ficou de co-autoria com ele, porque ele
era o titular.
PA - Como é apresentar um projeto na Câmara?
CA - Quando um projeto é apresentado na Câmara,
ele tem que tramitar nas comissões, tem que ter parecer favorável
na comissão de Constituição e Justiça, enfim,
em várias comissões, dependendo do teor do projeto. Esse trabalho
foi muito árduo, porque os vereadores que compunham as demais comissões,
não entendiam a sua importância e a maioria deles nem sabia quem
era Zumbi. Tive todo o trabalho de contextualizar, dizer qual era a importância
de Zumbi na história do povo brasileiro, o que significava para a comunidade
negra a aprovação desse projeto. Antes do projeto ser sancionado
pela Prefeitura da cidade, ele tem que passar por duas sessões de votação
no plenário. O projeto foi aprovado em primeira votação
mas precisaria ainda da segunda e foi aí que vieram os maiores problemas.
PA - Quando a senhora disse que “ninguém
nos ajudou” a senhora quis dizer em outras esferas, certo? Mas a senhora
teve aqui a sua base, seus eleitores?
CA – Isso, com certeza. Vários negros se movimentaram
na cidade de São Paulo, muitos estudantes, muitos jovens, aqueles negros
que estão sempre em movimento a favor de soluções para
a questão racial, contra as discriminações. Eu quero
aproveitar para fazer meus agradecimentos, dos muitos que já fiz, para
o Secretário de Governo, na época, Rui Falcão, que foi
o único que se posicionou de forma favorável e que me ajudou
a convencer a Prefeita que o feriado era de fundamental importância.
Seria uma forma de se fazer uma reparação histórica com
a comunidade negra da cidade de São Paulo. Depois de todos esses entendimentos,
a Prefeita acabou se convencendo e o Secretario Rui Falcão me auxiliou
muito. Foi então aprovado em segunda votação e em 07
de Janeiro de 2004 ela sancionou o projeto, transformando-o em Lei na Cidade
de São Paulo.
PA - Vamos falar um pouco de emoção.
Gostaria que a senhora retratasse como foi a emoção no dia da
votação.
CA - No dia da segunda votação, eu me recordo
que mesmo assim, com toda a negociação, com toda mobilização,
com todo material, vigília que nós fizemos aqui na Câmara,
aconteceu de tudo. Tivemos evangélicos fazendo oração,
católicos, os seguidores de religião de matriz africana, foi
uma mobilização. Nosso gabinete teve um trabalho imenso para
mobilizar
vários setores da sociedade. No dia da aprovação, fui
acometida de uma emoção, e me recordo que dei um grito “Viva
Zumbi” que ecoou pela casa toda, pela Câmara, e todos os vereadores
vieram me cumprimentar. Eu costumo dizer que se eu não conseguisse
realizar mais nada para a comunidade negra, só isso já justificaria
o fato de termos batalhado para estarmos aqui, porque a simbologia que significa
esse feriado no coração financeiro do país, na quarta
maior cidade do mundo, na cidade mais importante da América Latina,
é algo extraordinário. Imaginem vocês que todas as escolas
particulares, públicas, de periferia e de classe média, terem
que falar para os seus alunos que existia um herói negro Zumbi dos
Palmares, herói do povo brasileiro. Isso significa reparações,
significa auto estima do nosso povo tão judiado, tão discriminado.
PA - As outras cidades, inclusive o Rio de Janeiro
e outros municipios, fizeram algum tipo de consulta?
CA - O Rio aprovou primeiro, mas vários outros municípios,
cidades e estados, têm buscado assessoria nossa, como por exemplo, Guarulhos.
PA – Esse é o terceiro ano que será
feriado. Como foi o impacto no primeiro, no segundo e como a senhora está
enxergando esse terceiro ano?
CA – Esse ano é o primeiro a cair na segunda-feira,
e como temos uma tradição de celebrar o Dia da Consciência
Negra e Zumbi dos Palmares, para nós isso é normal. Esse ano
aprovei uma emenda ao orçamento de 300 mil reais, para que a Prefeitura
possa realizar a comemoração, no Parque do Ibirapuera, porque
lá tem o Museu Afro-Brasil, que muitos não sabem, mas que também
tive muito a ver com a sua criação. Infelizmente algumas pessoas
da comunidade negra omitem esse fato mas não tem problema, o importante
é que está lá, e é um museu maravilhoso. Eu acho
que o sangue de Zumbi que corre nas nossas veias, nos possibilitou ter essas
forças necessárias para driblarmos todas as dificuldades, derrubarmos
todas as resistências e aprovarmos na principal cidade do país,
o feriado de 20 de Novembro, em homenagem a Zumbi dos Palmares, à comunidade
negra e a todos aqueles que combatem o racismo em nosso país.
PA - Como a senhora imagina o 20 de novembro daqui
a 5 anos?
CA - Espero que a cidade seja outra, menos racista, mais
tolerante, mais acolhedora e que esse feriado possa impulsionar as cotas nas
cidades, quebrar a resistência. Que daqui a 5 anos, nós tenhamos
mais negros e negras trabalhando nos shoppings, restaurantes, na Câmara,
ocupando muitas vagas no Parlamento, seja no Legislativo, Executivo, de todos
os níveis, que muitos negros e negras possam estar ocupando melhores
postos de trabalho. Acredito que esse feriado propicie a quebra de muitas
resistências. É um presente para a comunidade negra e espero
que ela saiba aproveitar, que ela saiba entender essa importância. 20
de Novembro, para os racistas, é um dia de reflexão, para os
não racistas, um dia de celebração à liberdade
e igualdade entre o povo brasileiro.
PA - Vereadora Claudete Alves, acho que o seu esforço merecia
um presente. Que presente a senhora recebeu depois de ter aprovado o 20 de
novembro como feriado em São Paulo?
CA - Fui convidada pelo Governador do Estado de Alagoas,
onde fica a Serra da Barriga, para conhecer o sitio arqueológico que
era o Quilombo de Zumbi dos Palmares. Nunca vivi emoção tão
intensa, nunca vi um céu tão azul e aquele local tem uma energia
incrível. Estava com os meus filhos e eles estavam até assustados
quando o guia me levou no local onde Zumbi fazia a observação
para ver de onde vinham os capangas, os capitães do mato, os milicos,
para tentar invadir os quilombos, e nesse local fui tomada por uma grande
sensação e abri os meus braços e dei um grito que saiu
da alma “Viva Zumbi”. Tive uma outra emoção muito
forte quando desci e avistei as mulheres negras lavando as roupas e banhando
as crianças. Nesse local tem uma árvore muito grande e o guia
dizia que todas as pessoas que abraçam aquela árvore sentem
algo especial. Eu me abracei àquela árvore, eu me via no meio
daquelas negras que morreram lá, e disse: “Eu estou aqui, a gente
vingou vocês, a morte de vocês não foi em vão”.
Renovei todas as minhas energias abraçando aquela árvore, pisando
naquele chão que tantas mulheres e centenas de crianças negras
deram as suas vidas para que hoje estivéssemos aqui. É isso
que a comunidade negra não pode esquecer, é isso que cada negro
e cada negra tem que valorizar. Sou muito grata a todas aquelas vidas, a todas
aquelas negras guerreiras, a todas aquelas senhoras negras, a todos aqueles
guerreiros, enfim é uma felicidade muito grande.














Leia mais sobre o 20 de novembro e a campanha da vereadora Claudete Alves para a aprovação da lei.
programação de novembro de 2001
declaração de Claudete Alves a favor do feriado de 20 de novembro -